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domingo, 5 de março de 2017

Som na Fita - Braveheart

Para o Carnaval temos musica de fazer levantar os kilts.


Nestes dias em que a cacimba invernosa ainda vai persistindo, o espírito escocês vem das terras altas insulares para o beira mar português.
Ao sopro da gaita de foles, insuflam-se marchas marciais para viveres aventuras guerreiras, cheias de espírito militar de fazer despertar os teus genes belicosos. Sopram-se músicas para te comoveres com silvestres paixões medievais, em que a fatalidade se cruza com o amor impossível. Rimbombam sinfonias épicas para encarnares a lenda de William Wallace e de todos os anónimos que lutaram pela liberdade nesses tempos idos da Escócia do século XIV.

James Horner compõe uma inspiradora banda sonora (vencedora de Óscar e tudo), que muito polvilhou as minhas imaginações de infância  e ainda hoje me faz sonhar. Deixo-vos a ouvir, divagando.



Rafael Nascimento

sábado, 21 de janeiro de 2017

Som na Fita - Only lovers left alive

Começamos o ano 2017 com romance… 




Que música escolherias para honrar um amor eterno entre dois vampiros? Um distorcido solo de guitarra, como um lamento de lobo solitário? Ou a sua uivante contraparte feminina?  Seleccionarias um étereo momento contemplativo? Ou acompanharias os espaços vazios e silenciosos com misterioso rock cavernoso? Jim Jarmusch (+Jozef Van Wissem) com a sua banda Sqürl respondeu a este desafio auto-imposto, uma vez que também realiza “Only Lovers Left Alive”. 


O reencontro destes amantes eternos, que se reconhecem mais um ao outro que ao mundo novo, é-nos servido com esta soberba banda sonora, esborratando os cenários sorumbáticos em que submergem velhas criaturas nos seus secretos rituais antigos. No terminus desta reflexão sobre a fadiga da vida e dos estranhos que nos rodeiam, uma nota de exotismo e juventude destaca-se.



Rafael Nascimento

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Som na Fita - The Fountain




“Every shadow no matter how deep is threatened by morning light.”


A citação, vinda do próprio filme, reflecte o espectro da banda sonora que amplifica a história de amor, morte e ressurreição de “The Fountain”. Por entre tons de cordas melancólicos, ou momentos mais carregados de mistério e desafio, culminando em catarse apoteótica, rematada por um piano lírico e simplesmente belo, a música confere uma obscura profundidade luminosa à saga metafísica da busca da imortalidade. Sob a batuta de Clint Mansel (rever o Requiem for a Dream), Mogway e o Kronos Quartet dedilham a alma deste grande filme, feito de uma etérea cenografia, de uma íntima espiritualidade, de uma história dedicada aos pormenores e aos momentos maiores que a vida…


Rafael Nascimento

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Som na Fita - It follows

Buhhh¡ E com um susto sopramos o pó da fita e passamos a ter “O Som na Fita!”

A primeira ilustração sonora que chega aos nossos ouvidos vem do filme It Follows. A película de terror, que evoca as velhas glórias dos anos 80 do cinema de horror, pinta-se com uma banda sonora negra (novidade!). Puxando dos sintetizadores (RIP John Carpenter), a música acompanha o drama de Jay, perseguida por uma entidade asquerosa, silente e incansável. Desesperada, a rapariga foge por entre um genérico subúrbio em decadência, assombrada pela ominosa banda sonora…
Aqui vos deixo com uma música opressora e deprimente (by Disasterpeace) que acompanha um soberbo filme de terror. Poderá acompanhar também os vossos dias? 


Rafael Nascimento

sábado, 15 de outubro de 2016

Pó na Fita - The Goonies (1985)

Abramos o baú do saudosismo e recordemos as tardes de fim-de-semana da infância a ver “Os Gonnies” (para quem não teve a experiência, tente imaginar).

Numa era pré digital, num genérico subúrbio norte-americano, um grupo de amigos descobre um mapa do tesouro, sendo este o mote para uma fantástica aventura. O grupo, qual autêntica caderneta de cromos, é constituído pelo líder intrépido e inteligente, o puto rock n’ roll, o chinês das engenhocas e o gordinho de serviço. Juntam-se a estes o irmão que faz musculação e a sua namorada, mais uma amiga meio NERD.
Esta cartoonesca equipa defrontar-se-á com uma trupe de bandidos à moda antiga, liderados por uma velha má como as cobras, por entre cavernas, charadas, passagens secretas, esqueletos e um monstro ignoto. Um tributo ao desejo de aventura pura e aos amigos inseparáveis!

Uma súmula dos anos 80 do ponto de vista das crianças, num tom ora cómico, ora “aterrador”. Vale pela nostalgia que nos traz, fazendo relembrar os dias de brincadeiras e aventuras imaginadas (ou as tardes “desperdiçadas” a ver filmes e a ler livros de aventuras). Tem sobretudo a condão de nos fazer lembrar dos nossos amigos de infância e das suas particularidades. Enfim, para matar saudades!


P.S: - Agora temos a série “Stranger Things” que evoca precisamente este espírito da aventura infantil. Recomendo!


Rafael Nascimento

P.S.S: O "The Goonies" será o último Pó na Fita e o Opina quer agradecer ao Rafael por nos ter trazido o melhor do cinema vintage durante estes quase 3 anos de Fita! Podem ver e rever todos os episódios desta rubrica no separador "Autores" clicando em Rafael Nascimento. Mas não pensem que este término é uma despedida pois a Fita continua e já para o mês que vem o Rafael estreará no dia 15 uma nova rubrica intitulada "Som na Fita" dedicada a... logo vêm. 

Felizes Opinações!


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Pó na Fita - Os Filhos do Rock

Para a rentrée do Pó na Fita fica uma série portuguesa! Apesar de ser muito recente, faz-nos viver a música dos anos 80 como nenhuma outra.

A saga negra de três amigos, juntos pelo amor ao rock! Curto e duro! Uma pintura crua da vida boémia lisboeta, misturada com os sonhos vencidos da classe operária e a beleza da ingenuidade. Nas entrelinhas, observamos um mundo que se alimenta desta força motriz, alguns respirando a mesma como elixir da vida e outros que a exploram e consomem. Nos vários episódios, vivemos umas horas por entre figuras reais como o Rui Veloso, o Jorge Palma, os GNR ou os Xutos e Pontapés, que povoam o mundo das fictícias, inspiradas no batido tríptico “ Sexo, drogas e rock n’ rol” à moda de Lisboa.

Uma série invulgar para o que estamos habituados made in Portugal. Desde a extraordinária fotografia, onde quase se sente o típico grão de uma Super8, aos enquadramentos cinematográficos e ao trabalho cénico, em que tanto se respira a decadência de um mundo esquecido ou se sente a energia endiabrada da juventude em revolta. Acima de tudo, destaca-se a carne e as mentes que dão corpo às personagens, um excelente trabalho do elenco.

Um mergulho de cabeça para a história do rock nacional.
Uma história que vale todo o tempo que empenharmos nela!


Rafael Nascimento

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Mês da Poesia: Nas Asas da Poesia - O Banco do Pescador


Um pequeno banco
De metal enferrujado,
Sem dono, naquele canto
Onde o tomam por dado.

Muitas vezes solitário.
Tempestade… Bonança…
O tempo por companheiro…
Numa incontável dança.

Assento a marinhos velhos
Que não podem partir.
Relembram apenas antigos
Contos, antes de dormir.

Guarida das mulheres,
Que choram ao mar
O regresso ou viuvez
De quem, breve, não vai voltar.

Cúmplice dos namorados,
Que, em línguas trocadas,
Falam dos futuros passados,
Por palavras beijadas

Aventuras sussurrando
Mundos que se prometem.
Ao oceano abarcando,
Aponta-se para além…
              
“Partamos ao acaso,
Nós, num qualquer dia.
Deixemos soprar o vento.
Façamos nossa alegoria.”

“Cruzemos as linhas
Que ar e água separam.
Em desconhecidas estrelas
Teremos nossa direcção.”

Um mútuo reflexo
Brilhando no seu olhar.
Tem a resposta dentro,
 “Sim”, sem pronunciar…


Rafael Nascimento


P.S: O Mês da Poesia é um desafio interactivo promovido pelo Opina com o objectivo de dar espaço aos nossos leitores para partilharem os seus escritos poéticos. O Mês da Poesia será realizado regularmente de 2 em 2 meses subordinado a uma temática apresentada no primeiro poema de cada mês. O tema deste mês de Agosto é: O Mar. Enviem-nos os vossos poemas por mensagem privada na página de Facebook do Opina ou por comentário aqui no blog. No caso de haver uma enxurrada de poemas, faremos uma pré-selecção e os poemas seleccionados serão publicados, como de costume, aos Domingos. Boas leituras! 

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Pó na Fita - Er Ist Wiedar Da (2015)

Santinho! Tanto pó que este filme de 2015 acumula que o seu título nos faz espirrar! Não é antigo, eu sei, mas traz ao mundo contemporâneo uma figura antiga e incontornável da história mundial - Adolf Hitler!

A premissa é simples, o Hitler antes do seu suicídio em 1945 desperta num parque infantil de Berlim de 2015. A partir deste ponto, observamos a adaptação que esta figura tem com um mundo novo para si, através de uma série de episódios caricatos, destacando as selfies com turistas e a lavagem da farda numa lavandaria de emigrantes . Por outro lado, vemos a resposta do nosso mundo ao tratante louco, que se julga o ditador mais temido da história. Se neste choque de realidades juntarmos o poder dos media, nomeadamente a TV e o Youtube, temos um cocktail explosivo e com resultados enigmáticos!

O filme brinca com este conceito “E se…” , tornando-o num verosímil ensaio sobre a interação do Adolfo com o Homem atual. O actor principal, desconhecido para nós, como que possuído pelo demónio do bigode curto, devolve a humanidade a esta figura, fazendo com que nos esqueçamos (por momentos) da sua dimensão genocida. Desprovido de toda a estrutura nazi, que o deificava, o Hitler é retratado como um político sagaz e conquistador de espíritos.

Para o fim, fica a dúvida e a reflexão: e se uma figura semelhante surgisse no presente, com a capacidade de influenciar opiniões através das redes sociais, reality shows e vídeos virais…


P.S. Se gostam desta temática, sugiro como digestivo o documentário que fala da experiência “ A Terceira Onda” http://www.lessonplanmovie.com/

Rafael Nascimento

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Pó na Fita - Portrait of a Serial Killer (1986)

Para o começo da Primavera fica um filme de terror perturbador para destoar.

Todos vimos o CSI, o Silêncio dos Inocentes e o Se7en e mais uma colectânea de filmes e séries com e sobre serial killers. A película que vos sugiro, despe-se dos artifícios cinematográficos e, de uma mergulho desconcertante e gelado, imerge-nos no mundo simples de um predador psicopata. O foco de toda a trama está dirigido a Henry, como ele perpetua os seus crimes hediondos, como vive com esses episódios e como os explica a si mesmo. Para além disso, é um retrato poderoso dos marginais e marginalizados pela sociedade, da violência que distorce estes seres humanos, outrora inocentes, transtornando-os em almas penadas sem lei nem moral. A história mostra o que não queremos ver, nem desejamos compreender, nem sonhar em viver, mas, paradoxalmente, leva-nos a um ponto de quase empatia com Henry!
  
Numa câmara ora voyeurista, ora omissa e sugestiva, o tom extremamente cru e real do filme deverá fazer arrepiar os mais empedernidos. Michael Rooker desenvolve a encarnação de um anjo caído, desprovido de sentido de maldade/bondade, imbuído das suas pulsões homicidas, que regem uma parte da sua vida, oscilando entre uma certa candura embrutecida e a glacial possessão demoníaca.

Um retrato sem julgamento, sem reflexão, um soco no estômago de realidade.

P.S. Para quem quiser passar a um nível superior de visceralidade, mas que espelha precisamente a temática da violência, aconselho, qual farta sobremesa, o filme “The Woman”.


Rafael Nascimento

quinta-feira, 10 de março de 2016

Desafio de Aniversário: Nas Asas da Poesia - O Sapateiro

Lá num vão, naquele beco da vila
Todos podiam ouvir o afincado bater
Do velho sapateiro da pele tisnada,
Coroado de seu avental de mester.

Seu testamento passeava na calçada
Velhos sapatos remendados,
fresca alpercata, bonita sandália.
As botinas dos pesados trabalhos.

O final do dia estava reservado.
Abria uma caixa por lá escondida
e, aninhadas no seu colo,
umas singelas botas aprimorava.

Escolhera a melhor borracha
Para uma sólida e longa fundação.
O couro de qualidade curtira,
macio, mas resistente à abrasão.

Afinara a alma com terno diapasão.
Forrara o interior de carícias.
O contraforte, como sua mão,
ampararia das pedras nas estradas.

Cosera ponto a ponto com esmero,
cantando uns versos antiquados,
como despreocupado encantamento
para nunca serem esgaçados.

Martelou a capa com as pancadas
da experiente disciplina paterna.
Cravou raras ilhoses argentinas,
poupadas ao longo de sua vida.

Passou por fim os cordões,
estreitando mais ainda os laços.
Rematou, engraxando adulações.
às “conquistadoras de caminhos”.
P’la tardinha veio a sua neta.
Ofereceu-lhas num sorriso tácito.
Ela pagou com beijo na bochecha
E mais nada foi preciso.



Rafael Nascimento


P.S: Neste mês em que celebramos o 3º aniversário do Opina, desafiámos os autores das nossas rubricas a sortear aleatoriamente a rubrica que escreveriam em Março em jeito de graça e desafio. Assim, ao Rafael, autor da nossa rubrica de cinema Pó na Fita, calhou o Nas Asas da Poesia. Esperamos que gostem!




sábado, 13 de fevereiro de 2016

Pó na Fita - O Rei das Berlengas ou a Independência das Ditas (1978)

Uma épica jornada geracional de uma mui nobre família ... berlengueira!

O karma fatídico dos varões Midões é contado até aos dias de hoje, desde o primeiro rei berlengueiro, algures no século XII, até D. Lucas Telmo, no século XX, cruzando os marcos históricos de Portugal. A sua luta pela independência do arquipélago das Berlengas é uma verdadeira tragédia có(s)mica. Vemos geração atrás de geração a reivindicar os direitos de nascença, socorrendo-se dos mais rocambolescos subterfúgios para o conseguir. Uma verdadeira colectânea de peripécias, testemunhos de coragem louca, sonhos desvairados e humildes convicções.

Sketch a sketch, vamo-nos embrenhando nesta sátira à história nacional e aos seus famosos protagonistas. Momentos non-sense são a alma deste filme, onde vemos o Astérix a ajudar na fundação do reino de Portugal, uma bacharelada em beatice com sonhos de uma licenciatura em santidade, o cavalo de Tróia como uma arma secreta para reconquistar as Berlengas e um chimpazé general! E temos ainda Mário Viegas desdobrando-se de geração em geração (que nem um Peter Sellers luso). Um filme com alma de revista, pela mão do realizador Artur Semedo.

Não precisamos do Black Hadder, não queremos Monty Python! Deixem-nos ver “O Rei das Berlengas”.


P.S. Vou ser vosso amigo e deixar-vos com o filme! https://www.youtube.com/watch?v=w4AvYveByhg

Rafael Nascimento

domingo, 10 de janeiro de 2016

Pó na Fita - Metropolis (1927)

E o que queremos para este Natal? Um filme de ficção científica com 88 anos!

Cá vamos nós para mais um futuro distópico, onde uma classe operária, escravizada por uma elite rica e dedicada ao deboche, deposita as suas esperanças de um futuro melhor numa profetiza, e no fim o amor salva tudo (bla bla bla, que história tão batida…) Espera lá… Nos anos 20 esta história não era batida, era um exercício de crítica social e a projeção de um futuro opressivo/fantástico, que muito se adequa aos tempos modernos: o controlo das massas, a opulência das classes dirigentes, o fosso entre ricos e pobres, o extremismo religioso, a tecnologia de automação, o amor, cientistas marados, CEO tirânicos...

Podem já ter visto/lido os Hunger Games, o Star Wars (atentai à primeira aparição de C-3PO), o 1984, o Blade Runner, o Brazil, o Alien… Eles todos vêm beber a esta fonte, realizada por Fritz Lang. Um filme de mimos e legendas pelo meio, que cativa pela forma teatral como as cenas são interpretadas e desenhadas. Uma relíquia que tem o valor histórico de ser a primeira grande produção de ficção científica, a semente que todos os fãs deste género cinematográfico deviam conhecer.

Para uma experiência épica sem 3D, sem dolby surround, sem technicolor, sem voz, na verdadeira essência. O diapasão pelo qual muitas películas de espaciais e terrenas aventuras se afinaram.


P.S. Para acompanhar que nem umas belas rabanadas depois do prato principal, que tal o Blade Runner (1982)?





Rafael Nascimento

sábado, 28 de novembro de 2015

Pó na Fita - Do The Right Thing (1989)

Para combater o inverno que se aproxima, um tórrido filme de verão. 


Qual graffiti numa parede, a vida de um bairro afro-americano é-nos apresentada num colorido confronto de nuances ideológicas.

Mookie, o pizza boy, é o pivot desta tragicomédia, onde várias sketches se vão entrecruzando. Temos imagens tão clássicas que vos farão sorrir (aos saudosistas dos anos 80/90), o puto com o mega rádio ao ombro, os velhos do restelo, o eterno revoltado contra o mundo, o maluquinho lá do bairro, a loja dos chineses, a pizaria da esquina. Estas figuras vão se confrontando ao longo dos dias quentes no bairro de Nova Iorque, aquecendo as suas diferenças em lume brando numa panela de pressão (ou num forno de pizza)…Impossível de tomar partidos, conseguimos identificar o único vilão, o preconceito, aquele que nos recusamos a admitir que existe e sempre existirá se não o conseguirmos calar dentro de cada um de nós.

“Do The Right Thing” é o mergulho no final dos anos 80 e princípio dos 90. A linguagem, a música (https://www.youtube.com/watch?v=mcbFJAcuomI) e a caracterização marcam uma montagem inspirada no ritmo de um beat de rap, ora mais ao osso, ora mais divertido. Spike Lee dirige-se a si próprio e a uma liga de atores de primeira (divirtam-se a ver os atores nas seus “eus” mais jovens), que numa forma um pouco caricatural nos fazem andar como um integrante membro deste escaldante bairro. A película está assente na dicotomia das diferentes abordagens de Malcom X (violência como auto-defesa) e Martin Luther King (dar a outra face), uma verdadeira aplicação quotidiana das suas visões. E de facto, qual a coisa certa a fazer?




Rafael Nascimento

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Pó na Fita - O Grande Ditador (1940)

Voltamos de férias! E já que estamos em altura de eleições, que tal uma lição de história?


Com certeza conhecem o Charlot! Sim? Não?
Desta vez, as desventuras deste simpático e ingénuo senhor decorrem entre duas grandes guerras. Numa sucessão de pitorescas rábulas, a personagem passa de soldado raso, a barbeiro desfavorecido num gueto judeu, a combatente pela liberdade nas horas vagas!
Por entre estes episódios, desenham-se outros, igualmente hilariantes, mais mordazes, sobre o ego de um certo ditador (caricatura perfeita de outro certo infame tirano muito muito conhecido). Estas duas figuras jogam em pólos opostos da sociedade e da personalidade, personificando virtudes (o barbeiro) e defeitos (o ditador) comuns na humanidade.

O Grande Ditador é um filme com uma clarividência atroz, uma vez que previu todo o desenrolar da 2ª Guerra Mundial, no dealbar da mesma. Uma película que expôs os crimes de Hitler e comparsas, mesmo antes de estes se tornarem mais públicos! Atentai contudo à performance de Charlie Chaplin, quer como ator, macaqueando a figura do fulgurante ditador com fortes agulhadas ao seu ego, quer como contador de uma história muito bem desenvolvida e montada.

O final, o único momento verdadeiramente sério do filme, é de levar às lágrimas, de te arrepiares, de levares como credo político e de dares aos teus filhos (isto se não fores um ditador claro!)


P.S.S. Já que estamos numa de discursos ao coração, aqui fica o FMI de José Mário Branco, para acompanhar





Rafael Nascimento

domingo, 26 de julho de 2015

Pó na Fita - Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (1964)


Uma grande comédia com um título grande para um verão grande (começou em Maio o calor e só deve acabar lá para Outubro, certo?)

O cenário? Guerra Fria ao rubro (paradoxal). Conteúdo? A esquizofrenia desses dias num cenário hipotético, que tanta gente acreditava ser possível (ainda acreditas?). Os intervenientes? Concelhos de estado (ou algo parecido) dos EUA e URSS e a tripulação de um bombardeiro nuclear (há um cowboy, um nazi parkinsonico e um general sem medo lá pelo meio). Os resultados? Uma paródia a um assunto bem sério, com momentos de pura ironia e comédia física (termina em holocausto nuclear?). A mensagem? Uma reflexão sobre as mentes iluminadas que nos governavam (e ainda governam). Uma brincadeira com os medos e paranóias mais clichés da Guerra Fria.

A ilustração do ridículo desta realidade paralela mantem-se a preto e branco, quando o cinema já era a cores. Stanley Kubrik monta um dos filmes mais cómicos alguma vez filmados, assente na diversidade vincada das personalidades que se digladiam neste cenário de crise mundial. Peter Sellers (o famoso inspetor Closeau d’ A Pantera Cor-de-Rosa) é o ator mestre, que interpreta 3 icónicas figuras!

Vale mesmo a pena ir ao baú e tirar o pó a esta fita! Para ver os resultados de brincar com o fogo…

P.S. Para acompanhar, o filme “1941” de Steven Spielberg, mais uma brincadeira com outro tipo de paranóias.



Rafael Nascimento

terça-feira, 30 de junho de 2015

Pó na Fita - Os Verdes Anos (1963)

Quem não conhece a música “VerdesAnos” de Carlos Paredes? Conhecem o filme para o qual a música foi feita?

Regressem a Lisboa há 50 anos atrás com Júlio, Ilda e outras figuras tão tipicamente portuguesas. Vão fazer uma autêntica tour pela pujante arquitetura dos anos 40, 50 e 60 de uma cidade em crescimento, contrastante com a esvanecente ruralidade pobre às portas da urbe. Este conflito de eras e estilos de vida ganha forma na mente de Júlio, um rapaz da província que tenta ganhar a vida em Lisboa. Um permanente inadaptado, que primeiro se maravilha e depois se sente acossado por uma sociedade que não compreende. Ilda é o seu único porto seguro, a sua esperança de integração e de uma vida melhor…

Um filme de Paulo Rocha marcado por belos planos e enquadramentos, aproveitando ao máximo a cenografia de Lisboa. A música omnipresente das guitarras de Carlos Paredes e Fernando Alvim é tónica acústica e campestre em oposição ao modernismo citadino das imagens e aos momentos silenciosos das personagens. Os dois atores principais embrenham-se nesta constante justaposição campo-cidade. Rui Gomes sorumbático, plácido e naif; Ruth Gomes faladora, vibrante e cheia de alegria jovial.

“Os Verdes Anos” são uma fotografia do fim da adolescência, do peso das responsabilidades, da realidade que não se compadece dos sonhos e das origens da cada um.

P.S. Podem acompanhar com “Douro -Faina Fluvial” uma curta de Manoel de Oliveira, que nos mostra o Porto nos anos 30.


Rafael Nascimento

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Pó na Fita - Jodorowsky’s Dune (2013)

Um documentário novo sobre um filme antigo que nunca aconteceu!

Já pensaste sobre os filmes que nunca chegaram a existir? Na sua importância para os outros que de facto foram exibidos? O primeiro documentário que o Pó na Fita inaugura explica-nos, de forma apaixonante, como uma película que nunca foi realizada basicamente fundou os modernos filmes de ficção científica.

Por entre desenhos, entrevistas, simulações de cenas e relatos de episódios caricatos, o espectador acompanha o processo de criação deste colossal projecto dos anos 70, que tinha por objectivo captar para o cinema o caleidoscópico universo do clássico de ficção científica Dune. Desde o pesado tomo de storyboards à contratação de Salvador Dali, todos os passos marcantes são relatados. Numa hora e meia vamos do mais puro sonho à amarga tristeza da morte de uma fantasia gloriosa.

O documentário de Frank Pavich tem o decano realizador Jodorowsky como o fio condutor, qual louco contador de histórias, revelando o seu entusiasmo lunático, nostalgia contida, a sua mente brilhante e transbordante. Numa montagem clássica, a realidade dos bastidores é baforada com laivos do que poderia ter sido um dos melhores filmes de sempre.

Uma verdadeira homenagem à luta pelos sonhos!

P.S. Neste mês fica um prémio para os leitores, o documentário está no youtube, caso entendam as línguas estrangeiras: https://www.youtube.com/watch?v=s6p2h5JSBJQ

P.S.S. Para complementar, sugiro o filme “El Topo”, do próprio Jodorowsky, caso queiras embarcar num western psicadélico e pejado de simbolismos. Para ficares com um pequeno gosto do que poderia ter sido.


Rafael Nascimento

terça-feira, 28 de abril de 2015

Pó na Fita - The Navigator - Uma Odisseia Medieval (1988)

Sonhos medievais? Realidades modernas? Fé em deus? Tudo misturado!

Imagina isto: uma pobre aldeia mineira medieval que ainda resiste ao assédio da peste negra. Depois acrescenta um rapaz, espécie de oráculo, que reúne uma irmandade para salvar a aldeia da dita peste. A sua missão é procurar a maior igreja do mundo e depositar no seu campanário uma humilde cruz. Estás a imaginar? Agora acrescenta aquela teoria de cavar um buraco até ao outro lado do mundo… Esta odisseia de Griffin, Connor e Cª, mostra-nos a realidade do ponto de vista do Homem medieval, imbuído de fé e ignorância, face a um mundo hostil e bizarro.

Vincent Ward é o (desconhecido?) realizador neozelandês que ilustra este filme com uma dualidade de preto e branco vs cor, consoante a realidade que é apresentada. O tom negro é transversal, quer em cenários transfigurados pelo negrume da noite, quer no breu das entranhas da terra, quer mesmo na brancura da neve! Contudo, várias pinceladas, quase infantis, contrariam as trevas, expondo a humilde tacanhez do Homem, enriquecendo a estória.

Um estudo da mente medieval, que apresenta um sonho possível. Uma realidade que podes acreditar.



 Rafael Nascimento

quinta-feira, 26 de março de 2015

Pó na Fita - The Canterbury Tales (1972)


            

Vai uma lição de moral ao velho estilo medieval? Ou se preferires, um reboliço de nudez e parvoíces!

A primeira película “com bolinha” à qual limpamos o pó, é inspirada (não tão livremente assim) no decano e fundador livro de contos inglês “The Cantebury Tales”. O homónimo filme apresenta oito contos que cruzam todos os estratos sociais da sociedade europeia medieval. Do nobre bacoco, ao parvo proto Charlot, aos endiabrados estudantes, aos monges “perversos”, a matronas libidinosas, ao diabo justiceiro, estas extravagantes histórias troçam de tudo e todos, numa extravagante dose de velhas lições de moral revestidas a libertinagem e deboche. 

O polémico realizador italiano Pier Paolo Pasolini monta estes contos, sem qualquer limite à sua imaginação. Sexo e erotismo (de fazer corar “As Cinquenta Sombras de Grey”) misturam-se com mordazes e sardónicas críticas à “bucólica” sociedade medieval, expondo crimes e hipocrisias. Todos os ambientes são propositadamente exagerados, o surrealismo suplanta a veracidade histórica, a comédia física tonta rompe com qualquer subtileza remanescente, as personagens são demarcadamente caricaturais. Todo o filme é uma grande brincadeira, embebido de um certo tom pueril, num cinema que não se leva demasiado a sério.

Para uma alucinante peregrinação ao “santuário” da Cantuária!

P.S. O autor não se responsabiliza pelos danos (psicológicos, religiosos, sexuais) causados, a ti ou a terceiros, no visionamento do último conto (ou de qualquer outro)!

P.S.S. Procura os cenários dos filmes do Harry Potter!


Rafael Nascimento