domingo, 22 de janeiro de 2017

Nas Asas da Poesia - Sempre dei mais do que devo


Sempre dei mais do que devo
Dou tudo o que posso dar
Sinto, faço, digo e escrevo
Pois, p’ra mim, isso é amar.

E nas horas de solidão
Aproveito p’ra pensar
“Será tudo uma ilusão?”
Começo a questionar.

Darei mais do que merecem?
Mesmo o que não tenho eu dou
E, às vezes, parece que esquecem
Que também pessoa sou.

Também tenho sentimentos
Sinto até mais que o normal
E há sempre alguns momentos
Em que me sinto banal.

Mas, por mais que questione,
Sei que nunca irei mudar
Pois sempre que me apaixone
Tudo voltarei a dar.

Marco Gago

sábado, 21 de janeiro de 2017

Som na Fita - Only lovers left alive

Começamos o ano 2017 com romance… 




Que música escolherias para honrar um amor eterno entre dois vampiros? Um distorcido solo de guitarra, como um lamento de lobo solitário? Ou a sua uivante contraparte feminina?  Seleccionarias um étereo momento contemplativo? Ou acompanharias os espaços vazios e silenciosos com misterioso rock cavernoso? Jim Jarmusch (+Jozef Van Wissem) com a sua banda Sqürl respondeu a este desafio auto-imposto, uma vez que também realiza “Only Lovers Left Alive”. 


O reencontro destes amantes eternos, que se reconhecem mais um ao outro que ao mundo novo, é-nos servido com esta soberba banda sonora, esborratando os cenários sorumbáticos em que submergem velhas criaturas nos seus secretos rituais antigos. No terminus desta reflexão sobre a fadiga da vida e dos estranhos que nos rodeiam, uma nota de exotismo e juventude destaca-se.



Rafael Nascimento

domingo, 15 de janeiro de 2017

O Legado de Mário Soares: Bom ou Mau?



























Mário Alberto Nobre Lopes Soares morreu a 7 de Janeiro de 2017 em Lisboa, cidade que o viu nascer na já extinta freguesia do Coração de Jesus, a 7 de Dezembro de 1924.

Durante os seus 92 anos de vida Soares distinguiu-se pela luta contra o regime ditatorial liderado por António de Oliveira Salazar, pela cimentação de um regime democrático em Portugal no pós 25 de Abril, pela sua intransigência a favor da descolonização e independência dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), pelo seu papel na afirmação e legalização da liberdade sindical, pela adesão à Comunidade Económica Europeia (CEE), entre tantos outros feitos e causas para os quais se mobilizou.

O jovem Mário Soares formou-se, na década de 50, em ciências histórico-filosóficas e mais tarde em direito, e havia de ser pela sua actividade de advogado, ligado à luta pelos direitos cívicos e democracia, à parca e ilegal oposição política ao regime fascista em vigor e à defesa de opositores de Salazar, entre os de maior renome, Álvaro Cunhal, a família do (então) recém-assassinado general Humberto Delgado e Maria Pia de Bragança, que Mário Soares se distinguiria na luta contra o regime.

Tal distinção levou a que fosse preso 12 vezes, entre as quais se conta um período de 2 anos no campo de concentração do Tarrafal na ilha de Santiago, em Cabo Verde antes de lhe ser permitido o exílio em França, onde permaneceu até à revolução de 25 de Abril de 1974.

Ao regressar a Portugal logo após a revolução, Mário Soares integrou os três primeiros governos provisórios da Terceira Republica Portuguesa como ministro dos negócios estrangeiros, tendo tido um papel preponderante no processo de descolonização dos PALOP e no processo de independência dos mesmos. Neste processo que se estendeu entre 1974 e 1975 e que esteve longe de ser consensual, existiram pontos que granjearam a Soares louvores e outros ódios perpétuos.

Por um lado o fim abrupto da guerra colonial, que há quase década e meia ceifava vidas e os cofres de Lisboa, deixando um país desertificado, pobre e cheio de feridas, chagas e traumas difíceis de sarar, e o reconhecimento do direito à autodeterminação das colónias africanas, conseguiu grande aprovação quer daqueles que viam familiares e amigos serem enviados para África para, muitas vezes não regressarem, quer da comunidade internacional que via no Império Colonial Português uma relíquia de tempos passados e um entrave à democracia. Por outro a apressada descolonização reduziu a quase nada a ligação e influência de Portugal nos PALOP e esse vácuo de poder criou um ambiente propício para as guerras civis que deflagraram em Moçambique, Angola e Guiné-Bissau e para a expropriação e expulsão de muitos Portugueses residentes nestes países Africanos.

A presença política de Mário Soares continuou assídua tendo sido primeiro-ministro entre 1976-78 e 1983-85. Foi durante os seus governos que foi revogada a lei da unicidade sindical (1976) que não permitia a criação de alternativas à então central sindical única (a CGTP), criando espaço para o surgimento da UGT (1978). Foi também responsável pela candidatura e parte do processo de adesão (1977) à CEE num, à altura, movimento de rutura com o pensamento político dominante, dentro e fora do seu partido, processo esse que termina com a bem sucedida adesão em 1986.

Em Março desse mesmo ano de 1986 Mário Soares é eleito presidente da república Portuguesa cargo no qual se destacaria pelo seu modelo de “presidências abertas” em que Soares percorreu o país de Norte a Sul, conhecendo e dando a conhecer as múltiplas realidades que se viviam no Portugal de então, as necessidades de infraestruturas e investimento, promovendo cultura, produtos e serviços locais, associando-se a organizações e eventos, trabalhando, de certo modo para um descentralização de consciências e atenções da capital para o restante país. Soares manter-se-ia no cargo até 1996.

No período pós-presidência Soares dedica-se à promoção de iniciativas culturais e de cidadania, sem nunca deixar a política. Em 1991 cria a fundação Mário Soares focada “na promoção de iniciativas de cariz cultural, científico e educativo nos domínios da ciência política, história contemporânea, relações internacionais e direitos humanos”. Entre 1996 e 2002 dá aulas nas universidades de Coimbra e Lusófona, em Lisboa.

Entre 1999 e 2004 foi deputado europeu e em 2006 candidato (sem sucesso) a novo mandato para a presidência da república. Desde 2010 presidia ao júri do Prémio Félix-Houpouët Boigny para a Paz, atribuído pela UNESCO a indivíduos ou organizações que se destaquem nessa área de actividade.

Gostando-se mais ou menos da pessoa Mário Soares, partilhando-se ou não das suas ideologias, convicções e/ou cores partidárias (e sendo de cada um o direito de julgar o seu legado como bom ou mau), há que reconhecer a importância do trabalho de Soares para a solidificação de um regime livre e democrático em Portugal, pela integração no projecto Europeu e pelo esforço de descentralização que levou atenção mediática, fundos e mudança progressista para diferentes regiões do país.

Por tudo isto,

Obrigado, Mário Soares!  

Nuno Soares

Nas Asas da Poesia: Desarranjos do Mato


Deito as raízes no céu
D´uma terra azulada
Desfolho o seu véu
Na burca desvendada

Broto botões de água
Arredam-se da rede
Caduca está a tábua
Do ar mato a sede

Mastigo restos de luz
Encandeio-me apagado
Os pássaros nadam nus
Espelho-me em prado

Despenteio-me em raminha
Com o tronco da calma
Tesouro de matinha
Voando na minha palma

Paulo D. de Sousa

domingo, 8 de janeiro de 2017

Nas Asas da Poesia - Ano Novo, Vida Nova


Ano novo, vida nova
É o que se ouve dizer
Mas a vida só renova
P’ra quem assim o quiser.

A vida prega-nos partidas
Que ao chão nos vão atirar
E procuramos, de seguida,
Força p’ra nos levantar.

Sentimo-nos a perder
Sem saber o que fazer
Sem saber o que esperar.

E aquela mão estendida
Pode salvar nossa vida
Se nos conseguir puxar.

Marco Gago

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Com o Humor não se brinca

Título – Com o Humor não se brinca
Autor – Nelson Nunes
Editora – Vogais
Data de edição – Outubro 2016


“Com o humor não se brinca” é o terceiro livro do jornalista e escritor Nélson Nunes.

Lançado recentemente (Outubro de 2016) esta obra traz-nos um desafio interessante e pouco comum em Portugal: falar a sério sobre o humor.

Igualmente interessante é a metodologia usada pelo autor para criar este livro e poder transmitir ao leitor os pontos que achou importante as pessoas saberem sobre esta arte que é fazer rir.

Para tal, nada melhor que pôr quem realmente entende de humor a falar sobre o assunto. Nélson entrevistou doze humoristas de topo em Portugal (entre eles Herman José, Ricardo Araújo Pereira, Bruno Nogueira, Nuno Markl e César Mourão) e revisitou o percurso de cada um. Assim, temos narrados na primeira pessoa as suas aventuras e desventuras, os porquês de terem enveredado por uma carreira no humor, os seus projectos passados, presentes e futuros, por aí fora, intercalados com questões que o autor achou pertinentes e dignas de atenção, entre as quais: O que é o humor? Existem limites para o humor? Como se constrói uma piada? Porque há tão poucas mulheres a fazer humor? Qual a maior lição que o humor te deu?

Entre conversas sérias mas cheias de graça, Nélson é capaz de nos abrir o mundo e perspectiva destes humoristas que, tendo tantas diferenças entre si concordam sem excepção numa (única) coisa. À pergunta sobre o que é o objectivo do humor todos respondem: fazer rir!

A estas entrevistas de maior profundidade juntam-se também testemunhos mais breves e anotações do autor sobre quase dezena e meia de jovens valores da comédia nacional. Não sendo ainda humoristas de primeira linha destacaram-se ao ponto de serem incluídos neste livro nomes como Bumerângue, Carlos Coutinho Vilhena, Guilherme Duarte, Cátia Domingues e Dário Guerreiro.

Com toda esta diversidade, abordagem e riqueza de conteúdo este livro torna-se num excelente manual sobre humorismo e humoristas em Portugal, o que se faz, o que se fez, o que ainda não se faz e porquê, as dificuldades e as conquistas de cada um, e as nuances entre diversos tipos de humor e humorista. Em suma, um livro divertido para quem gosta de humor e/ou segue algum(ns) dos artistas entrevistados (e cujas actividades profissionais raramente se resumem à comédia).

Um excelente trabalho!

Classificação:





Nuno Soares

domingo, 1 de janeiro de 2017

Nas Asas da Poesia - É uma sorte


É uma sorte estares vivo
Agradece à vida todos os dias
As coisas más no arquivo
Faz das boas o teu sangue

É mesmo uma sorte
Nem sabes o que se segue
Sabes um possível caminho
Nem que a vida te cegue

E quem tens ao teu lado não importa
Porque nada enche mais que o coração
Os teus amigos, os teus familiares
A vida, amor e paixão

Pra vocês um bom ano
E nem que a vida vos cegue
Abre-se um novo pano
E pula-se de novo a sebe.

Paulo D. de Sousa