sábado, 21 de janeiro de 2017

Som na Fita - Only lovers left alive

Começamos o ano 2017 com romance… 




Que música escolherias para honrar um amor eterno entre dois vampiros? Um distorcido solo de guitarra, como um lamento de lobo solitário? Ou a sua uivante contraparte feminina?  Seleccionarias um étereo momento contemplativo? Ou acompanharias os espaços vazios e silenciosos com misterioso rock cavernoso? Jim Jarmusch (+Jozef Van Wissem) com a sua banda Sqürl respondeu a este desafio auto-imposto, uma vez que também realiza “Only Lovers Left Alive”. 


O reencontro destes amantes eternos, que se reconhecem mais um ao outro que ao mundo novo, é-nos servido com esta soberba banda sonora, esborratando os cenários sorumbáticos em que submergem velhas criaturas nos seus secretos rituais antigos. No terminus desta reflexão sobre a fadiga da vida e dos estranhos que nos rodeiam, uma nota de exotismo e juventude destaca-se.



Rafael Nascimento

domingo, 15 de janeiro de 2017

O Legado de Mário Soares: Bom ou Mau?



























Mário Alberto Nobre Lopes Soares morreu a 7 de Janeiro de 2017 em Lisboa, cidade que o viu nascer na já extinta freguesia do Coração de Jesus, a 7 de Dezembro de 1924.

Durante os seus 92 anos de vida Soares distinguiu-se pela luta contra o regime ditatorial liderado por António de Oliveira Salazar, pela cimentação de um regime democrático em Portugal no pós 25 de Abril, pela sua intransigência a favor da descolonização e independência dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), pelo seu papel na afirmação e legalização da liberdade sindical, pela adesão à Comunidade Económica Europeia (CEE), entre tantos outros feitos e causas para os quais se mobilizou.

O jovem Mário Soares formou-se, na década de 50, em ciências histórico-filosóficas e mais tarde em direito, e havia de ser pela sua actividade de advogado, ligado à luta pelos direitos cívicos e democracia, à parca e ilegal oposição política ao regime fascista em vigor e à defesa de opositores de Salazar, entre os de maior renome, Álvaro Cunhal, a família do (então) recém-assassinado general Humberto Delgado e Maria Pia de Bragança, que Mário Soares se distinguiria na luta contra o regime.

Tal distinção levou a que fosse preso 12 vezes, entre as quais se conta um período de 2 anos no campo de concentração do Tarrafal na ilha de Santiago, em Cabo Verde antes de lhe ser permitido o exílio em França, onde permaneceu até à revolução de 25 de Abril de 1974.

Ao regressar a Portugal logo após a revolução, Mário Soares integrou os três primeiros governos provisórios da Terceira Republica Portuguesa como ministro dos negócios estrangeiros, tendo tido um papel preponderante no processo de descolonização dos PALOP e no processo de independência dos mesmos. Neste processo que se estendeu entre 1974 e 1975 e que esteve longe de ser consensual, existiram pontos que granjearam a Soares louvores e outros ódios perpétuos.

Por um lado o fim abrupto da guerra colonial, que há quase década e meia ceifava vidas e os cofres de Lisboa, deixando um país desertificado, pobre e cheio de feridas, chagas e traumas difíceis de sarar, e o reconhecimento do direito à autodeterminação das colónias africanas, conseguiu grande aprovação quer daqueles que viam familiares e amigos serem enviados para África para, muitas vezes não regressarem, quer da comunidade internacional que via no Império Colonial Português uma relíquia de tempos passados e um entrave à democracia. Por outro a apressada descolonização reduziu a quase nada a ligação e influência de Portugal nos PALOP e esse vácuo de poder criou um ambiente propício para as guerras civis que deflagraram em Moçambique, Angola e Guiné-Bissau e para a expropriação e expulsão de muitos Portugueses residentes nestes países Africanos.

A presença política de Mário Soares continuou assídua tendo sido primeiro-ministro entre 1976-78 e 1983-85. Foi durante os seus governos que foi revogada a lei da unicidade sindical (1976) que não permitia a criação de alternativas à então central sindical única (a CGTP), criando espaço para o surgimento da UGT (1978). Foi também responsável pela candidatura e parte do processo de adesão (1977) à CEE num, à altura, movimento de rutura com o pensamento político dominante, dentro e fora do seu partido, processo esse que termina com a bem sucedida adesão em 1986.

Em Março desse mesmo ano de 1986 Mário Soares é eleito presidente da república Portuguesa cargo no qual se destacaria pelo seu modelo de “presidências abertas” em que Soares percorreu o país de Norte a Sul, conhecendo e dando a conhecer as múltiplas realidades que se viviam no Portugal de então, as necessidades de infraestruturas e investimento, promovendo cultura, produtos e serviços locais, associando-se a organizações e eventos, trabalhando, de certo modo para um descentralização de consciências e atenções da capital para o restante país. Soares manter-se-ia no cargo até 1996.

No período pós-presidência Soares dedica-se à promoção de iniciativas culturais e de cidadania, sem nunca deixar a política. Em 1991 cria a fundação Mário Soares focada “na promoção de iniciativas de cariz cultural, científico e educativo nos domínios da ciência política, história contemporânea, relações internacionais e direitos humanos”. Entre 1996 e 2002 dá aulas nas universidades de Coimbra e Lusófona, em Lisboa.

Entre 1999 e 2004 foi deputado europeu e em 2006 candidato (sem sucesso) a novo mandato para a presidência da república. Desde 2010 presidia ao júri do Prémio Félix-Houpouët Boigny para a Paz, atribuído pela UNESCO a indivíduos ou organizações que se destaquem nessa área de actividade.

Gostando-se mais ou menos da pessoa Mário Soares, partilhando-se ou não das suas ideologias, convicções e/ou cores partidárias (e sendo de cada um o direito de julgar o seu legado como bom ou mau), há que reconhecer a importância do trabalho de Soares para a solidificação de um regime livre e democrático em Portugal, pela integração no projecto Europeu e pelo esforço de descentralização que levou atenção mediática, fundos e mudança progressista para diferentes regiões do país.

Por tudo isto,

Obrigado, Mário Soares!  

Nuno Soares

Nas Asas da Poesia: Desarranjos do Mato


Deito as raízes no céu
D´uma terra azulada
Desfolho o seu véu
Na burca desvendada

Broto botões de água
Arredam-se da rede
Caduca está a tábua
Do ar mato a sede

Mastigo restos de luz
Encandeio-me apagado
Os pássaros nadam nus
Espelho-me em prado

Despenteio-me em raminha
Com o tronco da calma
Tesouro de matinha
Voando na minha palma

Paulo D. de Sousa

domingo, 8 de janeiro de 2017

Nas Asas da Poesia - Ano Novo, Vida Nova


Ano novo, vida nova
É o que se ouve dizer
Mas a vida só renova
P’ra quem assim o quiser.

A vida prega-nos partidas
Que ao chão nos vão atirar
E procuramos, de seguida,
Força p’ra nos levantar.

Sentimo-nos a perder
Sem saber o que fazer
Sem saber o que esperar.

E aquela mão estendida
Pode salvar nossa vida
Se nos conseguir puxar.

Marco Gago

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Com o Humor não se brinca

Título – Com o Humor não se brinca
Autor – Nelson Nunes
Editora – Vogais
Data de edição – Outubro 2016


“Com o humor não se brinca” é o terceiro livro do jornalista e escritor Nélson Nunes.

Lançado recentemente (Outubro de 2016) esta obra traz-nos um desafio interessante e pouco comum em Portugal: falar a sério sobre o humor.

Igualmente interessante é a metodologia usada pelo autor para criar este livro e poder transmitir ao leitor os pontos que achou importante as pessoas saberem sobre esta arte que é fazer rir.

Para tal, nada melhor que pôr quem realmente entende de humor a falar sobre o assunto. Nélson entrevistou doze humoristas de topo em Portugal (entre eles Herman José, Ricardo Araújo Pereira, Bruno Nogueira, Nuno Markl e César Mourão) e revisitou o percurso de cada um. Assim, temos narrados na primeira pessoa as suas aventuras e desventuras, os porquês de terem enveredado por uma carreira no humor, os seus projectos passados, presentes e futuros, por aí fora, intercalados com questões que o autor achou pertinentes e dignas de atenção, entre as quais: O que é o humor? Existem limites para o humor? Como se constrói uma piada? Porque há tão poucas mulheres a fazer humor? Qual a maior lição que o humor te deu?

Entre conversas sérias mas cheias de graça, Nélson é capaz de nos abrir o mundo e perspectiva destes humoristas que, tendo tantas diferenças entre si concordam sem excepção numa (única) coisa. À pergunta sobre o que é o objectivo do humor todos respondem: fazer rir!

A estas entrevistas de maior profundidade juntam-se também testemunhos mais breves e anotações do autor sobre quase dezena e meia de jovens valores da comédia nacional. Não sendo ainda humoristas de primeira linha destacaram-se ao ponto de serem incluídos neste livro nomes como Bumerângue, Carlos Coutinho Vilhena, Guilherme Duarte, Cátia Domingues e Dário Guerreiro.

Com toda esta diversidade, abordagem e riqueza de conteúdo este livro torna-se num excelente manual sobre humorismo e humoristas em Portugal, o que se faz, o que se fez, o que ainda não se faz e porquê, as dificuldades e as conquistas de cada um, e as nuances entre diversos tipos de humor e humorista. Em suma, um livro divertido para quem gosta de humor e/ou segue algum(ns) dos artistas entrevistados (e cujas actividades profissionais raramente se resumem à comédia).

Um excelente trabalho!

Classificação:





Nuno Soares

domingo, 1 de janeiro de 2017

Nas Asas da Poesia - É uma sorte


É uma sorte estares vivo
Agradece à vida todos os dias
As coisas más no arquivo
Faz das boas o teu sangue

É mesmo uma sorte
Nem sabes o que se segue
Sabes um possível caminho
Nem que a vida te cegue

E quem tens ao teu lado não importa
Porque nada enche mais que o coração
Os teus amigos, os teus familiares
A vida, amor e paixão

Pra vocês um bom ano
E nem que a vida vos cegue
Abre-se um novo pano
E pula-se de novo a sebe.

Paulo D. de Sousa

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Crónica Social - Para onde vão os dias que passam?

Há tempo que esta pergunta me anda na cabeça.

Não é minha, mas integrei-a de tal forma, que quase me parece minha. Como uma filha adoptiva que à força de ser amada, já não faz diferença que tenha nascido em outra família.
Na verdade foi uma educadora amiga no meio de um relato muito vivo do seu dia escolar que me contou, perplexa, que o menino João (vamos chamar-lhe assim) no contexto de uma actividade pedagógica lhe tinha feito esta pergunta.

Passou muito tempo. O menino da pergunta já deve ser quase-homem. Sim, porque ser homem acontece cada vez mais tarde. Mas a pergunta, essa nunca esqueci.
Talvez o poder desta pergunta seja a não resposta… fico ali a remoer, só a pensar, perdida em viagens no tempo. E se me fizer a pergunta não sei responder.
Qualquer tentativa de resposta será menor e uma pergunta destas não merece.
A sua importância reside no espaço que abre …

Não faço grandes balanços no final de ano, mas sou fascinada pelo poder das perguntas verdadeiras. Aquelas para as quais não temos respostas e que desaprendemos de fazer com o avançar na vida e a submersão em rotinas, certezas e pragmatismos utilitários.
Quantas vezes fazemos perguntas mais ou menos retóricas? Afirmações com ponto de interrogação a pedir só para serem confirmadas.

- É assim, não é? Não me estás a dizer isso, pois não? Onde é que isto vai chegar?...

Lembro-me de um professor do curso de Terapia Familiar que falava das ‘perguntas dormitivas’ para nomear as perguntas que lhe davam sono e que não colocavam nenhuma questão - quantas vezes nos esquecemos de perguntar, em situações desconhecidas ou que desafiam o nosso conhecimento?

- Não sabia que podia perguntar, diz Júlia, a medo.

O medo que nos paralisa, as rotinas que nos embrutecem, a dessensibilização que fazemos para não sofrer (- Não me doeu, dizem algumas crianças em desafio), a normalidade que nos enforma e nos faz esquecer quem na verdade somos, calando aquela criança que fazia perguntas.

‘- Não sabes? Eu também não. Vamos descobrir juntos?’ – dizia João dos Santos, o pioneiro da psiquiatria infantil à criança que atendia no seu consultório. E pela grandeza do seu legado e das suas histórias acredito que o Mestre estaria a ser verdadeiro quanto a ‘não saber’ sobre o sofrimento da criança e as hipóteses de o diminuir.

Em tempos em que o mundo supostamente civilizado está entregue a atores medíocres e perigosos, acometidos de uma loucura que se permite reverter conquistas civilizacionais que (estupidamente) alguns de nós demos por garantidas e ‘as águas’ se agitam entre mil guerras um pouco por todo o lado… para onde vão os dias que passam? Em tempos de banalização do mal (como diria Hannah Arendt) em que as pessoas se alheiam umas das outras e de si próprias, fechadas nas tecnologias que supostamente as globalizam, e estranhas aos outros próximos … para onde vão os dias que passam? Em tempos de hipervalorização de eficácias, de resultados, de ‘acelerações’, de competitividade mesmo que mascarada de cooperativa…para onde vão os dias que passam? Em tempos de rarefacção e alienação do trabalho, em que as pessoas já não são o que fazem mas também não são mais nada a não ser consumidores controlados digitalmente pela promessa de satisfação rápida que o dinheiro pode ou não pode comprar… para onde vão os dias que passam?

A História ensina muito sobre o que foi. Mas é pouco útil para usarmos hoje. Nos desafios que nos atormentam aqui e agora. Talvez para isso existam as histórias. As histórias de gente banal. Existe tanta gente, todos os dias, a fazer tanta coisa boa. Gente anónima. Cheia de defeitos e qualidades.

Era assistente social e responsável técnica por um Lar de idosos. Uma instituição de cariz associativo que foi crescendo ao longo de 4 décadas. Tinha hoje um universo de respostas sociais bastante diversificado e que apoiava muita gente. Era também um grande empregador local. E um polo de cuidado aos velhos e às famílias e de relações positivas, fortalecedor do tecido social. O seu quotidiano era de loucos! Dias compridos, corridos entre gestão de pessoal, dinamização de atividades, gestão de relações e conflitos, controlo de muitas variáveis, redes de parceria, actividades agendadas e outras que entravam pela agenda dentro, sem aviso.

Atrasou a reunião onde íamos falar sobre uma experiência laboral de um jovem com deficiência pela urgência da sobreposição de outros assuntos – tinham vagado 2 quartos e existiam dois casais de namorados no Lar (sim, as pessoas de idade avançada ainda têm sentimentos e podem apaixonar-se) que pretendiam mudar para quartos de casal. Por um lado a pressão de rentabilidade dos quartos que não podem estar vagos, por outro a necessidade de assegurar que todos os intervenientes estão de acordo com a nova opção. E nos dois casos, existiam filhos que não estavam de acordo.

Apesar de os idosos estarem na posse das suas faculdades, os filhos comparticipam na mensalidade do Lar e precisam de ser consultados e dar consentimento. É necessário informar, gerir sentimentos, negociar, procurar soluções, gerir revoltas e acautelar que as pessoas residentes se continuam a sentir, o melhor possível, na nova casa colectiva.

Este é um exemplo pequeno de que existem trabalhos sui generis. Onde a fronteira é ténue entre ser trabalhador por conta de outrem, com um contrato que prevê x tempo por y dinheiro em determinadas condições, e ser ‘uma pessoa que se sente responsável pelo bem-estar de outras’. A dedicação, o consumo de energia, o gasto de tempo são tão intensos e prolongados que muitos destes técnicos vivem as suas vidas no trabalho. Dão o melhor de si nestes dias cheios de situações, mais ou menos emergentes, que precisam de ser resolvidas, com grande disponibilidade emocional, mas também com trabalho de registo, de avaliação e planeamento que muitas vezes é levado para ser terminado em casa, porque o horário tipo de trabalho é cheio de coisas que não podem esperar.

A chegada a casa (diferente quando existe família e quando não existe, diferente quando a vida está calma ou revolta) é muitas vezes só o espaço e o tempo de carregar baterias para conseguir estar capaz no dia seguinte. Algumas pessoas conseguem trabalhar assim toda a sua vida activa...

- No meu tempo… dizem algumas pessoas, referindo-se ao tempo da sua infância ou juventude. Como se tivessem sido puxadas para trás. Como se o tempo actual não fosse delas. Como se hoje só houvesse tempo para os jovens com menos de 35 anos. Ou 40? Ou 45?
Não interessa onde está o marco.
Não quero correr o risco de dourar tempos passados por lapsos de memória ou efeito de distância. Ou simplesmente por vazio e desesperança do hoje e do amanhã. Não quero viver a recordar outros tempos.

Quero acreditar que nas atuais tensões, nos movimentos sociais anti mainstreming que surgem e se conectam também um pouco por todo o lado existem opções, possibilidades, sementes de mudança. Individual e colectiva. Mas é preciso gastar muita energia para continuar a acreditar, para não nos deixarmos ir na enxurrada, para resistir, procurar sentidos novos, para lutar contra as nossas incoerências. Para procurar. Para procurar sempre.

Para onde vão os dias que passam?

Isabel Passarinho