domingo, 4 de dezembro de 2016

Mês da Poesia: Nas Asas da Poesia



 Famílias

São os avós, os pais e os primos
Afilhados e os padrinhos
Os irmãos, os tios e amigos
Netos, filhos e sobrinhos

Paulo D. de Sousa

P.S: O Mês da Poesia é um desafio interactivo promovido pelo Opina com o objectivo de dar espaço aos nossos leitores para partilharem os seus escritos poéticos. O Mês da Poesia será realizado regularmente de 2 em 2 meses subordinado a uma temática apresentada no primeiro poema de cada mês. O tema deste mês de Dezembro é: Família. Enviem-nos os vossos poemas por mensagem privada na página de Facebook do Opina ou por comentário aqui no blog. No caso de haver uma enxurrada de poemas, faremos uma pré-selecção e os poemas seleccionados serão publicados, como de costume, aos Domingos. Boas leituras! 

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Crónica Social - Deixar ir

Desengane-se quem acha que se escreve com facilidade. No que me diz respeito, a escrita é sofrida.
Não necessariamente por ser autobiográfica.
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente’, diz Pessoa.
Sem veleidades, escrevo o que na altura me faz sentido. E fazer sentido implica alguma censura e renúncia também, numa cadeia de opções que é dolorosa. Existem temas e palavras que se impõem. Muita confusão. Depois até ao produto final é uma longa, sinuosa e poeirenta caminhada.
Começo várias vezes, deixo para trás muita coisa, corto, reescrevo, misturo assuntos meus com outros emprestados, baralho tudo e vou encontrando caminho pelo meio das palavras sem saber onde me levam. Como a água a escorregar por entre as tábuas do chão.

Às vezes para lado nenhum.
Queria escrever sobre o mundo, sem psicologia, sem vida interior, sem conflito, sem mim. Foi por isso que quis escrever sobre coisas, sobre os objectos que existem à minha volta’, diz o norueguês Karl Ove Knausgard[1] da sua nova obra. Acrescentando ‘Fujo a um contexto moral, a um contexto de significados (…). É a forma como o mundo existe que me interessa, embora nós estejamos sempre a hierarquizar as coisas, a atribuir-lhe valores distintos’.

Fico dividida. Sim, mas também. Ou seja, nesta Crónica Social interessa-me sobretudo a relação – comigo, com os outros, com o mundo. Com o mundo como o vemos, como nos vemos, à luz do nosso olhar. Em relações, que estão sempre a ser construídas e reconstruidas na interacção com os outros. Dolorosamente.
Seria tão mais simples se as coisas fora de nós fossem só coisas. Objectos físicos. Objectiváveis.
A mim, que aprecio a simplicidade, pouca coisa me parece simples.

Rosa pensava que gostaria de ser uma pessoa mais simples. Se pudesse escolher não complicava tanto. Não podendo (existem vidas que são sinas) complicava mesmo.
Não sabia explicar. Quando dava conta estava tudo enredado e ela atada, doída, sem saber das pontas. Só queria resolver. Mas acabava por virar tudo contra ela. E a Rosa precisava tanto de ser gostada.
Pensava que se fosse uma pessoa mais fluida, com maior capacidade de aceitar, até os medos, talvez a aceitassem melhor. Sentia-se certa, segura dos seus valores, injustiçada.
A rigidez de Rosa não a deixava descontrair. Julgava os outros e as situações, convencida que não o fazia. E isso trazia-lhe pequenas e grandes perdas.
Refém das suas certezas picava, em luta com a falta de suavidade’.                    

Conheço algumas Rosas. Às vezes parte de mim é Rosa.
Tenho momentos de fraqueza, maus momentos, em que deito tudo a perder. Outros de fragilidade. Outros de zanga, de irritação. Outros em que fico mal na fotografia.
A luta contra os moralismos, os nossos ‘bons’ moralismos, é incessante.
O que sei sobre a natureza e o funcionamento humano nem sempre previne reacções de Rosa.
O lado bom desta aventura é o que faz de nós gente. Pessoas incertas, com muitos lados e alguns menos bonitos. Com dias, com luas, com humores, com amor e falta dele. Sem coerência. A nossa frágil humanidade terá tanto de imperfeita como de resiliente.

Dizem que somos um país de fado.
Sem desprimor para esta expressão artística, saliento a conotação de um lado português fatalista, com tragédias mais ou menos levezinhas. Destino, sina, lamentos e queixas.
Dizem que somos um país que se queixa de mansinho, para o lado, em conversas de corredor que não chegam a lado nenhum. Tecemos enredo. Contornamos. Desenrascamos. Inventamos formas de subverter a regra ou de dar a volta. Somos provincianos. Pequenos e mesquinhos.
Somos também heróicos, capazes de grande humanidade e gentileza. Somos suaves, generosos e educados. Amamos os consensos e evitamos conflitos. Somos trabalhadores, dedicados e criativos. Somos o melhor, o pior e o assim-assim. Somos gente.

Deixar andar é levar a vida em gestão corrente pautada por ingredientes vários, sem ontem nem amanhã. Um dia de cada vez. Logo se vê.
Deixar ir é seguir o nosso caminho, deixando que outros sigam os deles. É aprender a confiar. É aceitar as nossas imperfeições e percorrer um percurso no sentido do desapego. É não reter sentimentos negativos que nos aprisionam. É ser amigável. Também connosco.
Valorizo o Deixar ir. Embora seja uma tarefa gigante.
Live and let live até certo ponto. Até ao ponto onde me cruzo com as minhas próprias arrogâncias, tensões e desejos de controlo.

Vi recentemente o filme Sete minutos depois da meia-noite[2] que fala de sentimentos de perda, medo e solidão e também da coragem e da compaixão necessários para os ultrapassar.
Conor, o menino protagonista, vive com a mãe doente com um cancro terminal e vai ser desafiado por um ser sobrenatural, uma árvore- monstro que lhe aparece naquela hora precisa. O monstro da culpa é uma metáfora poderosa que percorre toda a história até à aceitação da morte para poder fazer o luto.

Um exemplo extremo e doloroso sobre Deixar ir. Com histórias de moral surpreendente. Existem dores tão avassaladoras que têm potencial transformador.
Já fiz alguns lutos próximos e sei que é impossível ficar igual. Depois senti necessidade de activar a vigilância sobre os meus traços mais vincados – o que nos salva é o que nos mata.
Como nos harmonizamos?

Irrita-nos o outro ou o que o outro faz mexer em nós? Não me refiro aos ‘diferentes’ que estão no outro lado do mundo, mas aos ‘diferentes’ que estão ao nosso lado. Diferenças de ‘olhar’, de valores, de prioridades, de formas de ser e de estar.
By the way…Como é que ficamos Rosas?
Escrever dói.


Isabel Passarinho


[1] Este reconhecido autor contemporâneo ‘pinta com as palavras’. Ficou célebre com a obra ‘A minha luta’ com uma narrativa obsessivamente autobiográfica- utilização de excertos da entrevista na Revista ‘E’ do Jornal Expresso de 12 de Novembro de 2016, em artigo de Cristina Margato .

         [2]Do realizador catalão J.A.Bayona. Inspirado numa ideia original da escritora Siobhan Dowd que morreu de cancro em 2007.

domingo, 27 de novembro de 2016

Nas Asas da Poesia - Sofrimento


Vejo, à minha volta, gente
Que tanto está a sofrer
E sinto-me impotente
Por pouco poder fazer.

Quero ajudar os que amo
Quero vê-los a sorrir
E à felicidade clamo
Que os possa descobrir.

O sofrimento que vejo
É físico e também mental
E tudo o que eu mais desejo
É que tudo volte ao normal.

Que a paz possa crescer
Dentro destas almas perdidas
E que as noites a sofrer
Sejam memórias esquecidas.

Marco Gago

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Som na Fita - It follows

Buhhh¡ E com um susto sopramos o pó da fita e passamos a ter “O Som na Fita!”

A primeira ilustração sonora que chega aos nossos ouvidos vem do filme It Follows. A película de terror, que evoca as velhas glórias dos anos 80 do cinema de horror, pinta-se com uma banda sonora negra (novidade!). Puxando dos sintetizadores (RIP John Carpenter), a música acompanha o drama de Jay, perseguida por uma entidade asquerosa, silente e incansável. Desesperada, a rapariga foge por entre um genérico subúrbio em decadência, assombrada pela ominosa banda sonora…
Aqui vos deixo com uma música opressora e deprimente (by Disasterpeace) que acompanha um soberbo filme de terror. Poderá acompanhar também os vossos dias? 


Rafael Nascimento

domingo, 20 de novembro de 2016

Nas Asas da Poesia - Mais


Os ais demais
Não são ais a mais

Os ais dos nossos pais
O ai o carago
Os ais dos hospitais
Os ais de quando vais 
Ai agora aposta-se no mar
Ai que agora é que vai ser
Ai minha nossa Senhora, meu deus do céu
Ai, ai que me queimei no tacho
Ai que grande cabeçada na esquina
Ai onde é que deixei as chaves?
Ai que dia é hoje?
Ai que horas são?
Ai a minha prima!
Ai a tua prima!
Ai que me esqueci de lhe dizer!
Ai! Os meus genitais
Ai o aquecimento global
Os ais dos geniais
Ai que me roubaram o carro
Ai que nem posso
Ai o forno!
Os ais das avaliações ambientais
Ai onde anda a minha cabeça?
Ai que me assaltaram a casa.
Ai sim?
Ai que treta
Ai o Will Smith
Ai o João Pedro Pais
Ai os meus sinais aumentaram de tamanho
Ai que estou tão gordo
Ai a roupa no estendal!
O ai que me enganei nas contas!
Ai que não comprei a manteiga
O ai credo
O ai raios
O ai de ti
O ai de mim
Os ais dos suspiros finais

Paulo D. de Sousa

domingo, 13 de novembro de 2016

Nas Asas da Poesia - Frio


Um novo dia a nascer
E nós, de novo, a acordar
Sentimos os dentes bater
E todo o corpo a tremer
Porque está um frio de rachar.

O frio a nós nos abraça
Na rua e em nosso lar
Mas, para nós, o frio passa
E nem pensamos na desgraça
De quem não tem onde morar.

Temos tudo e eles nada
Nem mesmo família ou amigos
E, em noites de trovoada,
Vão andando pela estrada
Procurando por abrigos.

Faça chuva ou faça frio
Andam aí a sofrer
Com a vida por um fio
Vão, eles, lutando com brio
P’ra poder sobreviver.

Vivem com o que não têm
Sobrevivem com querer
Em algo melhor eles crêem
Um futuro que não vêem
Morrem sem ninguém saber.

Marco Gago

domingo, 6 de novembro de 2016

Nas Asas da Poesia - Os eternos ais



Ai Joana Vasconcelos!
Ai Miguel Sousa Tavares
Ai os galos de Barcelos
Ai que me faltam os ares

Ai agora tudo a dar ao Costa
Ai o Bagão, ai o Vitorino
Ai façam-me mas é uma tosta
Ai não se esqueçam do Lino

Ai o Sócrates e o Barroso
Ai o Guterres nas Unidas
Ai o Miguel Esteves Cardoso
Ai as crónicas desenxabidas

Ai meto-vos todos num saco
Ai a minha paciência a acabar
Ai ao menos já saiu o Cavaco
Ai agora é ver isto a afundar

Ai que malta mais chata
Ai que chato me tornei
Ai, mas que grande lata
Ai agora muda-se a lei


Paulo D. de Sousa