domingo, 21 de agosto de 2016

Mês da Poesia: Nas Asas da Poesia - Mar de Sangue


Naufragou a humanidade
Nessa criança embalada
Por um mar de crueldade
Entre a espuma ensanguentada

Afogou-se a dignidade
À beira-mártir de um povo,
Jaz ali a liberdade
Num corpo ainda tão novo

O menino, sem saber
Sonha com dias de paz
E o mundo vê nele morrer
A pomba branca que traz

Pobre criança, indefesa,
Rosto perpétuo da dor
À morte nasceste presa
Por um cordão ditador

São grãos de uma fina areia
Que nos escapa da mão
Os homens mortos pela ideia
De uma opressora razão

Milhões de mães nos suplicam
Pelos filhos que ondas devoram
E em todo o mundo salpicam
Gotas do sangue que choram

Mas tarda a nova maré
Já se faz fraca a corrente
E enquanto uns perdem a fé
Outros perdem toda a gente

Quantos mata, um canhão?
Quantos mata, uma sentença?
Quantos mata, a opressão?
Quantos mata, a indiferença?

Quantos mortos pelos titãs
De uma guerra sem sentido,
Quantos corpos nos ecrãs
De um planeta adormecido?

Naquela praia tranquila,
De um sol que alto vai já,
Jaz a criança reguila
Que nunca mais sonhará,

Naquela praia serena
De areia pura e pinheiro,
Jaz uma pomba pequena
E com ela, o mundo inteiro.



P.S: O Mês da Poesia é um desafio interactivo promovido pelo Opina com o objectivo de dar espaço aos nossos leitores para partilharem os seus escritos poéticos. O Mês da Poesia será realizado regularmente de 2 em 2 meses subordinado a uma temática apresentada no primeiro poema de cada mês. O tema deste mês de Agosto é: O Mar. Enviem-nos os vossos poemas por mensagem privada na página de Facebook do Opina ou por comentário aqui no blog. No caso de haver uma enxurrada de poemas, faremos uma pré-selecção e os poemas seleccionados serão publicados, como de costume, aos Domingos. Boas leituras! 

sábado, 20 de agosto de 2016

Deadpool


Deadpool é mais um filme do universo Marvel que saltou dos quadradinhos para o cinema e que, desde a sua estreia em Fevereiro deste ano, foi elogiado por ser uma lufada de ar fresco na oleada máquina de fazer dinheiro em que se tornaram os filmes baseados em bandas desenhadas. Num período em que, por ano, saem 578 filmes e meio baseados nos universos da DC e da Marvel, numa fórmula que se repete vezes e vezes sem conta, alterando apenas detalhes cosméticos como a cor da armadura, o sotaque do vilão ou o dilema usar/não usar capa, qualquer coisa que saia do costumário arroz com feijão chama a atenção, mas resta saber se esse destaque se deve à qualidade fenomenal do filme ou à falta de inovação em que este género está mergulhado. Vamos tentar descobrir.

Numa coisa Deadpool destaca-se da maior parte dos protagonistas da Marvel: “Eu não sou um herói” diz ele com frequência. E é verdade, não é. Mas o hulk também era uma besta e passados alguns filmes já dá festinhas e abraços, pelo que o futuro deste “Anti-Herói” da Marvel não se avizinha risonho. Ainda não és um herói Deadpool, veremos. Aqui e agora, Deadpool não é um herói mas não é um vilão também (essa lufada de ar fresco ficou reservada para o esquadrão suicida), é um mercenário, mas dos porreiros, uma espécie de Sandor Clegane com sentido de humor e hiperatividade traçado Wolverine a usar as lantejoulas do Homem-Aranha.   

A trama começa em animação suspensa, num dos muitos momentos em que o filme se parodia a si próprio dando uns pós sobre o que se avizinha, um personagem invulgar no seu papel de “herói” (não sou tá bem? Não sou!) despreocupado, alheado, meio lunático, mas não obstante muitíssimo capaz de trazer à audiência aquilo para que vieram: porrada de meia-noite numa história de amor lamechas com um toquezinho de drama, tudo polvilhado com uma pitada de humorzinho sarcástico para a malta não enjoar.


Mas não se fique a pensar pela descrição que o filme é uma desgraça ou que o padrão do fato do Deadpool me desagradou o sentido estético, nada disso. O filme não é uma miséria… mas também não é brilhante. Eu diria que está uns furinhos acima (não muitos) do que vi recentemente dentro do mesmo género e que inclui, a título de exemplo, nomes sonantes como Captain America: Civil War e X-Men: Apocalypse, ambos muito longe de serem geniais.

Para além de poupar na pontuação, Deadpool é um filme divertido com um personagem que faz rir pela sua não convencional trapalhice, quer na acção, quer no diálogo (em que frequentemente fala com o espectador), quer pela crítica ao universo em que se insere, ao próprio filme e aos clichés comuns neste tipo de películas. É ainda um filme com sequências de acção notáveis (como de resto a Marvel já nos habituou) com um trabalho que tem de ser elogiado por parte de Philip Silvera o responsável por treinar e coreografar os combates.

Entre as coisas menos fantásticas contam-se uma inclusão miserável de X-Men de 2ª categoria, uma história alimentada pelo facto de o personagem principal ter ficado feio (já lá vão os tempos de traumas psicológicos graves, perda de memória e de lavagens cerebrais que faziam perder o sentido de identidade e deixavam marcas para a vida) num processo de mutação realizado na corporation dermoestética de Londres, na cave de uma das muitas venues da capital Inglesa, e por super células imunitárias que fazem crescer mãos (incha Wolverine!).

Posto isto, vale a pena ver Deadpool? Vale. É um filme divertido (para quem prefere sarcasmo a marisco) e tem cenas de pancadaria bestiais, tripas com fartura, e mulheres semi-nuas. É um filme do caneco, uma revolução nos filmes de heróis de bande desenhada? Tanto como o Casino Royale do 007 que, de repente, tinha um Bond loiro, com ar de Russo mas que é Inglês.



Classificação:






Nuno Soares

domingo, 14 de agosto de 2016

Mês da Poesia: Nas Asas da Poesia - A mar


Os caminhos dão a mar
Eu, tu, ele, nós, vós, eles
Meu amor, só devo a mar
Eu, tu, ele, nós, vós, eles

Maior produtor primário
Chave do nosso correio
Não é nada secundário
Pois a mar vem primeiro

E amor é Roma invertido
E do a mar vem Portugal
Não tem um só sentido
A mar ninguém leva a mal

Reflectido na termoalina
De onde nos diz um olá
Da circulação salina
Em terras de maracujá

Criaste os mares
Navegaste contra a maré
Casaste pares
Até remaste de pé

Tu és o meu herói

Paulo D. de Sousa

P.S: O Mês da Poesia é um desafio interactivo promovido pelo Opina com o objectivo de dar espaço aos nossos leitores para partilharem os seus escritos poéticos. O Mês da Poesia será realizado regularmente de 2 em 2 meses subordinado a uma temática apresentada no primeiro poema de cada mês. O tema deste mês de Agosto é: O Mar. Enviem-nos os vossos poemas por mensagem privada na página de Facebook do Opina ou por comentário aqui no blog. No caso de haver uma enxurrada de poemas, faremos uma pré-selecção e os poemas seleccionados serão publicados, como de costume, aos Domingos. Boas leituras! 

domingo, 31 de julho de 2016

Nas Asas da Poesia - O que sou eu?

O que sou eu para aqueles
Com os quais cruzo e cruzei?
Serei importante ou reles?
Isso eu nunca saberei.

Consegui marcar alguém?
Ou não sou mais que indiferente?
Tento ser o melhor que sei
Mas será que é suficiente?

Eu dou minha simpatia,
Minha amizade e amor
Mas não sei se no fim do dia
Isso terá algum valor.

Sempre dei muito de mim,
Talvez mais do que devia,
Será um erro ser assim?
Ou dei-me a quem não merecia?

Disseram-me não ser banal
Que mereço mais do que dou
Mas neste mundo que é real
O que eu sinto é que nada sou.



Marco Gago

sábado, 30 de julho de 2016

Crónica dez!

À décima crónica, o Nuno pede-me periodicidade e um dia certo para publicar. Respondo-lhe que sim, sem hesitar muito, com a primeira coisa que me vem à cabeça.
– Ok, então fica mensal e comprometo-me ao penúltimo dia de cada mês.
Reajo muitas vezes assim. Sem pensar muito. Para o bem e para o mal, muitas das coisas na minha vida aconteceram desta forma. E algumas não foram mal.
O que é paradoxal com outros lados meus, muito meditativos e procrastinadores.
Quando lhe respondo não faço a menor ideia do que vou escrever mas tenho uma espécie de fé que me faz acreditar que o vou fazer.
Ele sugere uma lista imensa de actualidades, esquecendo que não tenho veia jornalística. Não me apetece agarrar nenhuma das suas sugestões. E sei que escrever me está a ficar cada vez mais difícil.
Eu que escrevia a metro (sobretudo para mim própria e utilizando a escrita como uma coisa catártica e de externalização do meu mundo interno) experimento agora dificuldades de alinhar palavras e pensamentos. A estranheza terá a ver com o facto de a escrita agora poder ser lida por outros?

Talvez. Eu gosto de achar que não me levo muito a sério mas talvez me comece a levar um bocadinho a sério. Porque não?
Sério é o gosto que continuo a ter pela leitura e pela escrita, séria é a minha perspectiva que pode ser pouco profunda mas que é verdadeira com quem sou, séria é a humildade de me considerar do meu tamanho (nem maior, nem menor) e sem pretensões.
Interessam-me crescentemente os processos criativos. Preciso disso para não morrer de realidade, alguém me disse.
Sou uma andarilha por contextos e eventos culturais diversos. São formas que encontro de ver o mundo com outros olhos, outros sentidos, outras linguagens e de não ficar fechada na minha forma de pensar. Faz-me sentir e pensar, sentimentos e pensamentos que não teria apenas por minha conta.
Ainda agora vim de assistir a um espetáculo de dança contemporânea no Espaço Alkantara, em Lisboa, com criações a partir de O Cansaço dos Santos de Clara Andermatt (1992) e Um gesto que não passa de uma ameaça, de Sofia Dias & Vítor Roriz (2011) interpretados em duetos por alunos do Programa de Estudo, Pesquisa e Criação Coreográfica do Fórum Dança. Adorei!
São linguagens expressivas fortes, tecnicamente elaboradas e que mexem connosco, fazem pensar... e isso de fazer pensar tem muito que se diga, numa época em que se retrocedem conquistas de civilização e direitos humanos e se erguem muros a muitos propósitos.
Por outro lado fui ganhando consciência de que escrever pode ser um acto criativo. Um acto de grande responsabilidade mas democrático, no sentido em que pode estar ao alcance de qualquer um e não apenas de artistas classificados.
Como dizia Foucault[1] (autor de As Palavras e as Coisas) uma das maiores tarefas do pensamento tem a ver com o problema do sujeito e a sua relação com a escrita.
Qual a minha relação com a escrita? E sobre quê então quero eu escrever?

Confesso que não ligo muito a bem materiais, ando seduzida por inspirações budistas e por filosofias de partilha mas por hoje quero falar de heranças, de legados, também de bens e de propriedades que tomam conta dos proprietários.
Falar não será bem o caso, porque só tenho interrogações.
Interrogo-me sobre qual o legado que quero deixar? E sobre as formas como lido com o legado que recebi?
As coisas e o resto. Sobretudo as coisas pelo valor real e simbólico que têm.
Que passagem de testemunho? Como é que os meus filhos irão entender-se (ou entender) com esse testemunho quando eu não estiver?
Gosto daquela ideia que só morremos quando morre a última pessoa que se lembra de nós.
Será que caí na velha armadilha da busca da eternidade?
Porque é que isto me ocupa?

Habito uma câmara de tortura, em caixa de vidro com projecções de contextos de vida – casa, trabalho, família, amigos, lazer. Um cubo mágico. Nessa caixa faz de conta existem várias torturas.
Às vezes é uma das faces que me esmaga, com realidade ampliada. O estado de não relação com aqueles que amo. Outras vezes é o chão que desaparece e deixa-me suspensa. Tento não respirar para não cair mais, com medo do abismo, da queda livre, do desconhecido. Outras vezes ainda é o espaço entre o tecto e o chão que diminui e me esmaga. Fico sem ar, sem horizonte e sem perspectiva. Sem acção. Outras vezes corre bem. Tenho momentos descontraídos, de alegria e de nutrição.
Mas nunca sei quando a seguir a caixa decide uma tortura diferente. E também não posso saber se aguento a próxima tortura. E perguntarão, porque raio não saio da caixa?
Não saio porque tenho medo. Também tenho medo ficando, mas é um medo conhecido.
Os limites das prisões que construímos laboriosamente são muito reais.

Acreditando que os planos para a vida são desarrumados pela própria vida, na maioria dos caos, sinto necessidade de preparar a velhice, sabendo que é impreparável.
Talvez não seja bem isso.
Talvez seja mais da ordem do que é que eu ainda quero fazer? Como é que sonho outra vez? Como é que engano a solidão?
Não sei muito bem. Estou numa fase da vida que me apetecia estar mais ligeira, mais desprendida e ando às voltas com o que me deixaram e com o que gostaria de deixar.
As coisas evocam memórias, contam histórias e exigem ser cuidadas.
Ainda mais no caso da minha família de origem modesta onde o património foi conseguido com sacrifício e muito trabalho.

Se ganhar perspectiva posso pensar que, em regra, o património subsiste apenas a algumas gerações e depois passa de mão, degrada-se ou transforma-se. São coisas, casas, terras, utensílios…nada por que valha a pena ocupar a vida.
Só que… um dia as casas que habitámos estavam cheias.



Isabel Passarinho


[1] Foucault, Michel (2015) O que é um autor? Lisboa: Editora Passagens

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Pó na Fita - Er Ist Wiedar Da (2015)

Santinho! Tanto pó que este filme de 2015 acumula que o seu título nos faz espirrar! Não é antigo, eu sei, mas traz ao mundo contemporâneo uma figura antiga e incontornável da história mundial - Adolf Hitler!

A premissa é simples, o Hitler antes do seu suicídio em 1945 desperta num parque infantil de Berlim de 2015. A partir deste ponto, observamos a adaptação que esta figura tem com um mundo novo para si, através de uma série de episódios caricatos, destacando as selfies com turistas e a lavagem da farda numa lavandaria de emigrantes . Por outro lado, vemos a resposta do nosso mundo ao tratante louco, que se julga o ditador mais temido da história. Se neste choque de realidades juntarmos o poder dos media, nomeadamente a TV e o Youtube, temos um cocktail explosivo e com resultados enigmáticos!

O filme brinca com este conceito “E se…” , tornando-o num verosímil ensaio sobre a interação do Adolfo com o Homem atual. O actor principal, desconhecido para nós, como que possuído pelo demónio do bigode curto, devolve a humanidade a esta figura, fazendo com que nos esqueçamos (por momentos) da sua dimensão genocida. Desprovido de toda a estrutura nazi, que o deificava, o Hitler é retratado como um político sagaz e conquistador de espíritos.

Para o fim, fica a dúvida e a reflexão: e se uma figura semelhante surgisse no presente, com a capacidade de influenciar opiniões através das redes sociais, reality shows e vídeos virais…


P.S. Se gostam desta temática, sugiro como digestivo o documentário que fala da experiência “ A Terceira Onda” http://www.lessonplanmovie.com/

Rafael Nascimento

domingo, 24 de julho de 2016

Nas Asas da Poesia - O Inútil

Petrifica o cansaço 
Descreve tudo
O Sado não é aço
É só mundo mudo

Nomeando tudo
Semeando nada
Insapiente surdo
Numa estrada

Bosque de anseios
Climas, suposições
Sapos nos ribeiros
Chovem aflições

Preconceitos na palavra
Em casca de carvalho
E as mágoas da cigarra
Coragem de espantalho

Condensa um ecoar
Gravilha d´azevinho
Do céu um coaxar
São fetos d´alto Minho



Paulo D. de Sousa