domingo, 15 de novembro de 2015

Crónica Social - A minha aldeia



Soube hoje que o Sr. César e a D. Clementina passam longos tempos na sua aldeia – a célebre Galveias, que é também título recente do escritor José Luís Peixoto. Foi a filha destes vizinhos já velhotes que me contou. Disse que a mãe, doente crónica e deprimida, ganhava vida por lá, à conversa com as pessoas da aldeia e que o pai, já muito debilitado pela doença, se sentia melhor e estava um pouco mais ativo.
Ela própria e o marido tinham tentado ir viver na aldeia mas não correu bem, ele ficou sem emprego e tiveram que voltar.

- Quem sabe se na segunda vez dá certo…, dizia-me ela antes de nos despedirmos.

Todos temos uma aldeia.
Existem várias no meu mapa afectivo. Por mais que seja alfacinha nascida na Maternidade Alfredo da Costa e criada num lugar à beira do Tejo, que nem uma aldeia era. Por mais que tenha crescido sem as rotinas de ‘ir à terra’. Por mais que os meus pais não tivessem por hábito visitar os parentes e amigos que ficaram nas aldeias de origem. Por mais que tivesse crescido num tempo histórico em que as cidades e, em particular os subúrbios de lisboa, começaram a ser urbanizados. E com essas casas e bairros que cresciam em altura, crescia uma certa ideia de anonimato, de progresso, de mobilidade social, de independência do controlo social típico das aldeias, com o sonho de estilos de vida urbanos mais próximos das grandes capitais europeias e mundiais dos países tidos como desenvolvidos – ganhava terreno o Individualismo exacerbado.

Nas décadas de 70 e 80 do século passado, as aldeias ficaram conotadas com um certo ‘atraso’ que era necessário superar. Embora em simultâneo e um pouco paradoxalmente, persistisse um sentimento de que era nas aldeias que tinham ficado redutos essenciais de autenticidade.

Durante muitos anos ir para o campo, por oposição a ir para a praia, significava descansar e ‘carregar baterias’ com uma noção mais ou menos romanceada e idealista da vida rural. Como um postal. Ou uma opção menor. Identificada com uma certa pobreza, um certo despojamento do que se acreditava ser o desenvolvimento. Fazia-se turismo quanto muito. As aldeias eram pitorescas mas não eram locais onde se desejasse viver.

Hoje é diferente. As aldeias estão na moda.
Infiltra-se em todo o lado a necessidade de êxodo urbano. Por moda ou por argumentos vários, cultivam-se hortas, fazem-se passeios pedestres, participa-se na vida cívica e cultural.

Nas aldeias fazem-se projectos inovadores. É lá que se experimentam movimentos, que se agregam pessoas. É para lá que vão viver estrangeiros e nacionais esclarecidos. É por lá que circulam capitais culturais diferenciados. É lá que se escapa ao estilo de vida dominante e se constroem tecidos sociais novos. Mas ainda não é um movimento demográfico ao contrário.

Onde é que me sinto verdadeiramente em casa?
É na aldeia que estão as minhas raízes. Por mais que no meu caso sejam raízes aéreas.
Como eu não sou uma árvore, posso enraizar em vários sítios. Uma teia de aldeias, um rizoma com muitas ramificações.

Os meus pais eram migrantes rurais da zona Oeste, com as suas aldeias bem identificadas nos afectos, nas maneiras de ser e nas convicções. Só mais tarde, já eu era mãe, é que regressei à aldeia do meu pai. Onde tínhamos casa e por onde, durante duas décadas, organizámos uma transumância de Verão que alimentava a força anímica da minha mãe e servia de resposta familiar nas férias escolares dos meus filhos.

Na minha juventude fui adoptada pela aldeia de uma amiga perto da serra da Lousã. Foi lá que aprendi a lavar roupa na levada que vinha da serra, a falar com sotaque, a gostar de broa feita em forno caseiro, a comer almece, a colher milho, a perceber as famílias grandes e alargadas, a ir aos bailes de aldeia e a lidar com a censura social. Na Suíça, vivi também numa aldeia num ano de 1979 em que o meu mundo ficou muito maior.

Cresci e vivo na quase aldeia chamada Caxias. Vivi duas décadas noutra aldeia próxima chamada Barcarena. Nasci, trabalhei e estudei em Lisboa e percebi que é uma cidade com muitas aldeias dentro. Fiz parte de socializações nos diferentes trabalhos muito semelhantes à vida de aldeia.
Em todas estas aldeias lancei raízes e estes territórios fazem parte da minha história.

Num mundo globalizado é importante reconhecer a nossa família, que pode ser de sangue e afectos e o nosso território pode ser formado por uma teia de espaços; e talvez até por lugares entre esses espaços.
Na verdade tenho muita facilidade de me sentir bem nas aldeias dos outros. E não consigo eleger só uma das minhas aldeias. São lugares que me fazem sentir saudades quando não estou lá. Lugares de muitas referências. Lugares de vivências, de memórias e sonhos. Se aumentar a lente, a minha aldeia pode ser Portugal. Pode ser o planeta Terra.

A minha aldeia é feita de muitos habitantes. De caras conhecidas e desconhecidas, de pessoas que fazem parte da minha vida e de outras de quem nada sei. Pessoas que dão raízes e pessoas que não se prendem. Neste meu tempo de vida e de inscrição histórica, a alma de viajante seduz-se também pela ideia de ser hortelã. Eu sei que não combina. Mas não me sinto obrigada à coerência e descobri que podemos ter projetos ‘por enquanto’. Ainda sinto o dilema de apelos muito diferentes e não sei se quero decidir onde será a minha aldeia.
 Eu Sou do Tamanho do que Vejo
Da minha aldeia veio quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema VII"
Heterónimo de Fernando Pessoa




Isabel Passarinho

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Nas Asas da Poesia - Bonito Serviço

 Vim da anilha alhada em pólen
O plástico é ninho de centopeias
Onde nascem as bactérias do cólon
Arborizam ramadas de gotas cheias

Estou num parafuso embrulhado
Abrindo intempéries de caracol
Onde colmeias orvalham piado
Cinzeiro luz nesga de girassol

Espalho-me no muro da colmeia
Pendente nas vinhas d´um coqueiro
Onde o cacho enrosca e serpenteia
Aram araras na flor do centeio

Vou-me tornar vómito de babuíno
Renascer em blocos de azinha
Fuinha suando um suíno
Danada daninha doninha

E quando o pimento queimar
Cristaleira em caruma de chão
Os vermes irão colonizar
As magnólias da minha mão


Paulo D. de Sousa

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Nas Asas da Poesia - Lágrimas

Uma lágrima a nascer
Nesse teu olhar profundo
Duas lágrimas a correr
Vão até ao fim do mundo.

Essas lágrimas que correm
Correm sem ninguém saber
Só tu sabes, mais ninguém,
O que elas querem dizer.

Serão lágrimas de dor,
Física ou emocional,
Ou serão de um amor
Muito mais do que banal?

Serão de contentamento,
Felicidade, alegria?
Serão elas do momento
Mais marcante do teu dia?

Serão elas da tristeza
Que te consome por dentro?
Serão, com toda a certeza,
Verdadeiro sentimento.

Toda a lágrima carrega
Dentro dela a emoção
Que foi crescendo sem trégua
E transborda do coração.


Marco Gago

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Petróleo em Portugal? Não, obrigado!

Em Março deste ano, em resposta a contratos celebrados entre o estado Português e a petrolífera Espanhola Repsol no ano de 2011, foi criada a Plataforma Algarve Livre de Petróleo (PALP), com o intuito de sensibilizar a população Portuguesa para o que está a ser feito neste momento na nossa costa, sem o conhecimento da maior parte da população e que acarreta riscos sérios para a saúde e bem-estar dos Portugueses, assim como para o ambiente e para a economia do país.

Tais contratos, que podem ser vistos aqui, contemplam a prospeção e exploração de hidrocarbonetos de origem fóssil (petróleo e gás natural) ao longo da costa Algarvia, Sudoeste Alentejano, Arrábida, e toda a zona costeira de Peniche a Esposende (podem ver o mapa, aqui). A esta área de prospeção pouco alargada, juntam-se ainda perfurações em terra, ao longo da Beira Litoral, Estremadura e Algarve.

O processo de prospeção já começou em algumas regiões e a Associação de Surf e Actividades Marítimas do Algarve (ASMAA) lançou o alerta através de um vídeo (abaixo, a partir dos 10 segundos) feito na praia do Amado, Alzejur, onde se pode ver o efeito do petróleo na areia e na pele, com o objectivo de sensibilizar as pessoas para o que pode acontecer com maior frequência e numa escala incomparavelmente maior se a exploração petrolífera avançar na nossa costa.



As áreas das concessões de exploração são adjacentes a mais de uma dezena de zonas protegidas ou de especial valor ambiental, entre as quais, de Norte para Sul, se destacam o Parque Natural do Litoral Norte, Litoral de Vila do Conde e Reserva Ornitológica do Mindelo, Dunas de S. Jacinto e Ria de Aveiro, Reserva Natural das Berlengas, Reserva Natural do Estuário do Tejo, Parque Natural da Arrábida, Reserva Natural do Estuário do Sado, Lagoas de Sto. André e Sancha, Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, Ria de Alvor, Parque Natural da Ria Formosa e Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António.

Para além do risco de derrames e do seu impacto para o turismo, a diversidade animal e a qualidade das águas, o processo de prospeção de petróleo em fundos marinhos utiliza tecnologia baseada em ondas sonoras de alta frequência que causa efeitos devastadores na vida marinha e nos sectores económicos, como a pesca, que sobrevivem da captura sustentável de tais recursos. A OCEANA, uma ONG focada na preservação dos oceanos partilha informação sobre o assunto, à qual podem aceder aqui.

Nos últimos meses a PALP tem vindo a organizar várias iniciativas de sensibilização e de tomada de acção, como a exposição Oilgarve, que se realizou durante o mês de Outubro, em Faro, e a petição contra a exploração de petróleo e gás natural na nossa costa que conta já com mais de 7200 assinaturas.

Vários artistas, entre eles, Dário Guerreiro (Môce dum cabréste), Pedro Pinto (Reflect) e Edgar Valente (Criatura) juntaram-se a esta iniciativa, ajudando a passar a mensagem de que algo precisa de ser feito para parar a prospeção e exploração de petróleo antes que os seus efeitos se façam sentir.

Não deixem que este problema vos passe ao lado pois, no próximo verão, a coisa pode já estar preta (e pegajosa).

Por um Portugal livre do flagelo do petróleo, assinem a petição, informem-se e partilhem a informação.



Nuno Soares

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Nas Asas da Poesia - Eu não sei o que procuro

Eu não sei o que procuro
Nem sei se o hei-de encontrar
Abro os olhos mas, no escuro,
Nada posso vislumbrar.

Onde estás? – pergunto eu
Mas é silêncio que ouço
Pouco do que tenho é meu
Pouco sou daquilo que posso.

Esta escuridão me cega
E o silêncio ensurdece
Nesta vida, sigo à espera
De algo que não aparece.

Creio e espero que um dia
Algo irei encontrar
Mas de saber gostaria
Quanto mais irei esperar.


Marco Gago

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Pó na Fita - O Grande Ditador (1940)

Voltamos de férias! E já que estamos em altura de eleições, que tal uma lição de história?


Com certeza conhecem o Charlot! Sim? Não?
Desta vez, as desventuras deste simpático e ingénuo senhor decorrem entre duas grandes guerras. Numa sucessão de pitorescas rábulas, a personagem passa de soldado raso, a barbeiro desfavorecido num gueto judeu, a combatente pela liberdade nas horas vagas!
Por entre estes episódios, desenham-se outros, igualmente hilariantes, mais mordazes, sobre o ego de um certo ditador (caricatura perfeita de outro certo infame tirano muito muito conhecido). Estas duas figuras jogam em pólos opostos da sociedade e da personalidade, personificando virtudes (o barbeiro) e defeitos (o ditador) comuns na humanidade.

O Grande Ditador é um filme com uma clarividência atroz, uma vez que previu todo o desenrolar da 2ª Guerra Mundial, no dealbar da mesma. Uma película que expôs os crimes de Hitler e comparsas, mesmo antes de estes se tornarem mais públicos! Atentai contudo à performance de Charlie Chaplin, quer como ator, macaqueando a figura do fulgurante ditador com fortes agulhadas ao seu ego, quer como contador de uma história muito bem desenvolvida e montada.

O final, o único momento verdadeiramente sério do filme, é de levar às lágrimas, de te arrepiares, de levares como credo político e de dares aos teus filhos (isto se não fores um ditador claro!)


P.S.S. Já que estamos numa de discursos ao coração, aqui fica o FMI de José Mário Branco, para acompanhar





Rafael Nascimento

domingo, 18 de outubro de 2015

Muthure's Place - Poem to Self

I look into the mirror with you
Every morning.
I see the image;
Hard hair,
Face all nose and forehead,
Full, bushy eyebrows,
Only one dimpled cheek.
Tongue, pink and lovely.
You fold and curve and run it along
The inside of your mouth when in deep thought.
Firm imprint of your molars on its sides
From all the years of biting down on it in deep sleep.
You curse it sometimes
For being an instrument
In the orchestra of hurtful and selfish words,
Tumbling out and rolling over those lips.
Lips that turn upward ever-so-slightly only sometimes,
But more often than that
Open to reveal
The reason you refused to go to school one day
In nursery school if not ‘fixed’ immediately-
Inexplicable small dents on the four front lower teeth.
I take it in everyday,
I can draw it all blind-folded.

I know your body.
Birth mark below left knee,
Beauty spot on right foot,
Stretch-marked bottom,
Masculine hands,
Toned legs,
Short, fat toes,
Slight curve of belly,
Breasts larger than you desire.
And the scars…
Shadow of a few stitches on your right palm,
Tick-shaped scratch on your left shin,
And more.
As if your childhood memories,
Afraid of being forgotten,
Etched themselves in your flesh.
And it’s difficult to,
When they’ve left a playful map on your skin.
Skin that’s smooth for the most part,
Not chocolate but not quite toffee either.
Something in between perhaps.
I’m slowly learning to appreciate it all.

I know your dreams.
Outrageous.
Silly.
Lofty and impractical,
Delicately rooted in your every thought.
I want to let you know
That it’s okay to dream.
It’s okay to be ambitious.
And that sometimes
You should speak them aloud
Because not everyone will ridicule you,
And that you’ll be braver for it.

I’ve touched your heart.
I alone know its temperatures.
Its intentions.
All its different colours.
I’ve watched you try walk away from it,
And in turn felt it go cold,
The only sign
That lets me know
We’re expecting some sort of blow soon.
Sometimes it opens up wide though
And I’m left in awe.
I watch it smile occasionally,
The sight of which has never failed to move me
All these years later.
Once in a while I feel a deep tremble,
The definition of a hearty laugh.
And it’s then you really let go.
I’ve felt it love.
I’ve seen it shatter.
I held it up for you when you couldn’t bring yourself to.
I’m here to tell you all this will happen again.
I want you to understand.
That you will love again.
And you will break again.
And that it’s okay.

I must say,
I don’t quite like
This strange tenant in your cartilage and tissue,
Making your joints creak so loud sometimes
It jolts me.
Crook of elbow;
Fit to hold a child,
Mind and body not ready to believe
You’ll ever hold one of your own.
Bend of knee;
Moving with every step you take,
Walking towards destruction at times,
Running from the world at others,
Once in a while just managing crawling to safety,
But always moving all the same.
Crack of knuckles;
Perpetually trying to find... ways,
Words to put down
To try keep track of marathon-running thoughts.
Spinning ideas.
And never quite catching up.



Many long, wakeful and restless nights have past,
And I’ve been your only company.
The only one you told your nightmares.
I’m the interpreter of them all,
And sometimes I may have been wrong.
I apologise.
I do my best though, to let them not haunt you.
I try to make your dreams nice.
Make them wonderful,
Just to have you wake up with a smile so subtle,
Even you don’t know about it.
But you feel it.
That distinct tiny little warm glow you can’t explain,
Making you want to listen to that specific playlist.
I know most of the songs off the top of my head..

Let’s just say
I’ve studied you.
That I know you.
And I realise that I’ll still never know enough.
This isn’t to inform you of anything really,
Because you know just as much as I do.
It’s to remind you of things you forget.
It’s to try to calm your sometimes too impatient soul,
To make you take time to look and not just see.
It’s to touch you in places you’ve neglected in a while.
It’s to kiss you.
It’s to converse with you,
We hadn’t spoken in a while.
It’s to try make you understand,
That I quite simply... love you.
Sometimes without good reason,
But I love you all the same.
And to let you know that I’ll be watching you...

Joy Muthure

_________________________________________________________________________________


I am female and in my mid-20s. Sometimes I dabble in writing, from prose to pieces penned to be spoken out loud. A few of my other interests include: [reading] literature, music, laughing, listening, loving and living (I am a big fan of life in general). I am intrigued by animals -ourselves included- thus my background in Zoology. Some of my “lofty” dreams consist of trying to bring ecosystem health to a balance, through improving the health of humans, animals and the environment they share. To this end I studied One Health (do look it up, you [probably] won’t be disappointed that you did!). I am an East African local with what I hope to be the mentality of a global citizen. I’m all about connectivity, and tend not to see things in isolation so feel free to connect with me!

Joy Muthure

_________________________________________________________________________________

Miss Joy Muthure will share with us her writings and thoughts regularly on Muthure’s Place, every month, here at Opina. Hope you enJoy!

Opina