terça-feira, 30 de junho de 2015

Pó na Fita - Os Verdes Anos (1963)

Quem não conhece a música “VerdesAnos” de Carlos Paredes? Conhecem o filme para o qual a música foi feita?

Regressem a Lisboa há 50 anos atrás com Júlio, Ilda e outras figuras tão tipicamente portuguesas. Vão fazer uma autêntica tour pela pujante arquitetura dos anos 40, 50 e 60 de uma cidade em crescimento, contrastante com a esvanecente ruralidade pobre às portas da urbe. Este conflito de eras e estilos de vida ganha forma na mente de Júlio, um rapaz da província que tenta ganhar a vida em Lisboa. Um permanente inadaptado, que primeiro se maravilha e depois se sente acossado por uma sociedade que não compreende. Ilda é o seu único porto seguro, a sua esperança de integração e de uma vida melhor…

Um filme de Paulo Rocha marcado por belos planos e enquadramentos, aproveitando ao máximo a cenografia de Lisboa. A música omnipresente das guitarras de Carlos Paredes e Fernando Alvim é tónica acústica e campestre em oposição ao modernismo citadino das imagens e aos momentos silenciosos das personagens. Os dois atores principais embrenham-se nesta constante justaposição campo-cidade. Rui Gomes sorumbático, plácido e naif; Ruth Gomes faladora, vibrante e cheia de alegria jovial.

“Os Verdes Anos” são uma fotografia do fim da adolescência, do peso das responsabilidades, da realidade que não se compadece dos sonhos e das origens da cada um.

P.S. Podem acompanhar com “Douro -Faina Fluvial” uma curta de Manoel de Oliveira, que nos mostra o Porto nos anos 30.


Rafael Nascimento

sábado, 27 de junho de 2015

Concurso – Razão Óbvia (volume 1) – A descoberta do génio

O livro lançado por Rui Malaquias Lopes em Março de 2015, pelas mãos da Ulmeiro editora é o prémio de um concurso a decorrer na página de facebook da obra em questão.

O livro, de ficção, é o primeiro volume de uma anunciada trilogia que dará continuidade a uma narrativa descrita como “feroz crítica social, transversal nos seus domínios, desnudando as hipocrisias das diferentes classes e ideologias”.



As condições de inscrição são bastante simples e, a quem interessar, toca a despachar que o concurso acaba já amanhã!

Boa sorte e boas leituras,

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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Nas Asas da Poesia - Conversa com a Solidão

Encontrei a solidão
Perguntei-lhe o que queria
Respondeu-me: “Nada, não
Para além de companhia.”

Disse-lhe então: “Solidão
Mas se tiveres companhia
Solidão não serás não
Pois terás mais alegria.”

Minhas palavras escutou
Olhou-me sem responder
Mas depois tudo explicou
Pra que eu pudesse entender.

“Não podes ser linear
Ao falar da solidão
Podes rodeado estar
E tê-la em teu coração.”

“Por outro lado, também
É possível que aconteça
Qu’estando tu sem mais ninguém
A solidão não apareça.”

“Estares ou não acompanhado
Não define a solidão
Sou um sentimento alado
Que voa em qualquer direcção.”

“Sei que chego a toda a gente
Sem distinção eu fazer
E é certinho que mente
Quem diz não me conhecer.”



Marco Gago

segunda-feira, 22 de junho de 2015

The Codfish Band - Devil's Tongue

A nova banda da cena Rock nacional, os “The Codfish Band”, fazem-se aos palcos para apresentar o seu primeiro álbum “Devil’s Tongue” com um concerto de estreia na FNAC de Alfragide, já no dia 25 de Junho (5ª feira), às 21h, e outro, no dia 27 de Junho (Sábado), às 23h15m, no “Starway Club” em Cascais.


A banda é composta pelo quarteto Luigi Afonso (voz e guitarra), Miguel Ros Rio (guitarra), Nuno Escabelado (baixo) e Pedro Kystos (percurssão), e estes rapazes já têm o videoclip do singleHit the road” disponível no Youtube.


É ainda de dizer, que o álbum “Devil’s Tongue” está disponível na FNAC, a partir de hoje. Podem seguir a banda, os seus concertos, e novos lançamentos pelo Facebook do grupo.



Uma banda a acompanhar!

Nuno Soares

terça-feira, 16 de junho de 2015

Nas Asas da Poesia - Estou doente

Estou contaminado por cactos
Que me picam as raízes na terra
Contaminado por surreais factos
Em caminhos cansados da serra

Estou contaminado por aves
Pelo caracol de cornos ao sol
De músicas feitas em caves
Da cor amarela do ovo mole

Contaminado pelas japoneiras
De joaninhas que floram do chão
Pela luz das amendoeiras
Calor felpudo de um minhocão

Que sente no dedo as abelhas
Que voam na asa da codorniz
Pela raiz do chão crescem azelhas
Em saudades de osga petiz


Paulo D. de Sousa

quinta-feira, 11 de junho de 2015

De Mim para Mim - Carolina Tendon

Título – De Mim para Mim
Autor – Carolina Tendon
Editor – João Pina
Data de edição – Setembro de 2014
Data da publicação original – Junho de 2014

Hoje trago-vos um livro que não é como os outros e, não o é, porque para além de ser, como diz a autora, um livro de mensagens ao invés de um livro com mensagem, é também um livro com uma história muito particular.

Fig. 1: Capa do "De Mim para Mim" de Carolina Tendon

Carolina é uma jovem entusiasta pela vida, cheia de energia, alegria, ambições e projectos. Estudou veterinária em Évora, dançou até não poder mais, escreveu desde cedo o que lhe ia na alma, e com a tinta da imaginação coloriu um mundo que aos poucos foi montando em seu redor, um mundo alegre e vivaço, à sua medida, não sem sacrifício, mas que com esforço e aprendizagem a levou pelos caminhos que percorreu, que há que dizer, não foram poucos.

Carolina faleceu em Fevereiro de 2014, tinha 22 anos, e o resto… bem o resto (um bocadinho) está no parágrafo que acabaram de ler. Carolina partiu sem aviso, partiu porque sim, mas o pequeno mundo que foi construindo com a sua imaginação e expandindo com as suas vivências, conquistas, desilusões, alegrias e tropeções não a acompanhou na sua viagem, pelo menos não todo, criando, talvez, uma ponte etérea e eterna entre aquilo que deixou feito e aquilo que inspirou e inspirará a fazer.

Após a morte de Carolina, o seu namorado Pedro Pinto, e a família da Carolina juntaram força, inspiração, coragem, uma determinação sem limites e um amor a toda a prova, para reunirem os escritos da Carolina e publicarem o “De Mim para Mim”, um livro póstumo em que dão a conhecer mais do que o que ela escreveu, a própria Carolina.

Esta obra, de 144 páginas, junta poemas, pequenos textos e pensamentos, que a Carolina escreveu ao longo da sua vida, desde os seus 10 anos e que, sem dúvida, surpreendem pelo domínio do verso e pela clareza de pensamento em jovem de tão tenra idade. Tudo isto é acompanhado por fotografias e imagens, nem todas tiradas pela Carolina, mas relacionadas consigo ou com o conteúdo dos seus textos, como que um complemento tanto da obra como da autora. “De Mim para Mim” contém ainda, as mensagens póstumas dos seus familiares, do namorado e de uma amiga-irmã, e que elevam este livro a uma verdadeira, imponente, emocionalmente gigante mas não derradeira, homenagem à vida e ao espírito muito particular de Carolina, aos seus sonhos e ideais.

Fig. 2: Mapa das apresentações do "De Mim para Mim"

Desde o lançamento, no 23º aniversário de Carolina, a 21 de Junho de 2014, o “De Mim para Mim”, já correu o país de Norte a Sul, pelas mãos do namorado Pedro, que incessante e incansavelmente, continua a edificar e a levar ao mundo, o mundo que, ele como ninguém partilhou, idealizou e começou a construir com Carolina Tendon.  

Um livro a adquirir, uma história a conhecer, uma pessoa a não esquecer!


Nuno Soares

terça-feira, 9 de junho de 2015

Crónica Social - O Xico da Tina

O Xico faz hoje anos - 84 anos de uma vida dura de trabalho. Está casado há muitos anos. Nem sabe ao certo. Vive numa aldeia com a Tina, com alguma família e vizinhos por perto mas já com muitas baixas na sua geração. Não têm filhos. Com uma certa mágoa.

- Ninguém tem obrigação de nos ajudar! Diz a Tina. Cada um tem a sua vida e nós aqui estamos até que Deus queira.

O Xico é muito poupado nas palavras.

- Estamos cá de empréstimo, diz em nota filosófica.

Não vivem mal. Têm casas, terras, amealharam, não se renderam ao consumo, não gastam muito e ainda amanham uns bocadinhos de terra perto de casa de onde vão buscar cereais, os legumes, os frescos e algum sentimento de ocupação e utilidade.

Um pouco por todo o nosso pequeno país, sobretudo nos meios mais rurais, é frequente as pessoas serem designadas por uma relação especial. É uma espécie de identidade relacional em que a definição de um se faz a partir de uma relação geradora com outro. Mas o Xico e a Tina estão velhos e pesa-lhes a vida. E a solidão. A velhice é uma chatice!

Por mais que se fale em envelhecimento ativo e que a publicidade utilize cada vez mais senhores e senhoras de cabelos brancos, sorriso jovial e aparentemente sem problemas, desconfio que seja uma fase da vida menos simpática.

Bom, na verdade cada fase da vida tem os seus desafios e provavelmente aquela que estamos a viver é sentida como a mais dura.

Já tenho algumas amigas que contraíram velhice e que se queixam. As perdas (de dentes, de audição, de cabelo, de elasticidade, de frescura, de paciência…) parecem superar os ganhos - de peso, de gravidade, de sabedoria, de dores…

- Já viste a pele das minhas mãos? – Perguntava-me uma delas, à beira dos 60 e visivelmente alarmada.

E a memória? Ou as suas falhas. E o sentimento de aproximação ao fim de linha? E a dificuldade em voltar a acreditar, a ter sonhos, a desejar qualquer coisa ou alguém? E o pânico de ficar dependente, de não ser autónoma? E a perda de relações significativas?

Mas afinal quando é que estamos velhos ou velhas?
Recuso o limiar instituído dos 65 anos. Até porque já não corresponde à idade da reforma, que era o marco da improdutividade a partir do qual já podíamos ser velhos.

Conheço velhos de 20, de 30 anos, de 50, de 70 e de 80 e muitos. São todos diferentes, é verdade. Mas também não caio na esparrela de dizer que a velhice é um estado de espírito. Conheço velhos cheios de medo de morrer. Tristes. Desconfiados. Avarentos. Sós. Amargurados. E outros que não. Algumas pessoas parecem não ter idade.

Ou melhor, poderiam ter qualquer idade porque esse é um dado que não importa muito. Pessoas que não desistem. Que riem e choram. Que tem dias bons e outros nem por isso mas que não se deitam sem agradecer, seja à vida ou a qualquer outro ser ou entidade. Pessoas que continuam a aprender, a desafiar-se, a querer estar melhor consigo e com os outros. Que têm amigos de todas as gerações. Que vão ao baile ou ao museu. Que arriscam compreender outras perspetivas.

O Xico teve recentemente um pequeno AVC que o deixou estranho. Fala ainda menos, já não vai à horta, dá uma volta à casa e senta-se, cansado. O seu território ficou mais estreito e mais doméstico. A televisão ficou mais longe. Olha para ela sem ver, sem ouvir, sem interesse.

A Tina, que é uma mulher de saúde frágil, desmultiplica-se em cuidados e desvelos para ver o seu homem novamente ativo e cheio de afazeres. Teme por ele e por si. Está triste. Sente a vida como um calvário a cumprir, como um problema sem solução. E zanga-se quando lhe apontam algumas possibilidades.

Na sua forma de entender a vida, os cuidados profissionais e as respostas institucionais não são opção. Não para si nem para o seu marido.

O Xico sente a vida gasta e as palavras também. Gostava de ver mais crianças na aldeia. Isso e os campos todos tratados e cheios de árvores de fruto como quando eram novos…

Isabel Passarinho