sábado, 6 de junho de 2015

Festival Eurovisão da Canção: representação cultural do país ou desperdício de dinheiros públicos?

Mais um ano passado, mais um fracasso da representação Portuguesa no Festival Eurovisão da Canção, certame único a nível europeu que junta anualmente, há 60 anos, talentos musicais dos quatro cantos da europa.

Aproveitando a deixa da apresentadora Joana Teles, que disse, e muito bem, que este festival, quando apareceu, fazia parar o país, urge aos organizadores, promotores e financiadores (vulgo, povo português) da participação nacional no festival da canção, perceber o porquê de tal sucesso e interesse se ter esbatido ao longo das décadas em Portugal. Esse processo de entendimento seria sem dúvida, um bom começo para que se possa mudar, melhorar e corrigir, o modelo medíocre e ineficaz que vem sendo usado de há uns anos a esta parte.

Mas cada coisa a seu tempo. Comecemos por onde se deve, o princípio; o Festival RTP da Canção, que escolhe, através de júri (os compositores das músicas a concurso) e do voto popular, o representante nacional no Festival Eurovisão da Canção.


Fig. 1: A vencedora do Festival RTP da Canção 2015 - Leonor Andrade

E porque nem tudo é desgraça, começo por salientar um ponto positivo na edição de 2015 do Festival RTP da Canção, a inclusão de banda em palco que dá, para além de credibilidade (e bem que ela é precisa), o ar de que realmente se trata de um festival de música na televisão, ao invés de uma montra de jingles publicitários.

Parabéns pela iniciativa e pela coragem de querer melhorar e tornar o festival mais autêntico.

Infelizmente, outras apostas não correram tão bem.

O conceito de dar espaço a novas e velhas glórias do festival na abertura do mesmo, permitindo que estas apresentem os anfitriões da gala, está interessante e podia acrescentar valor ao programa, se dois pressupostos simples fossem cumpridos: o primeiro, é que se tratam de glórias do festival (Suzy?) e o segundo, é que conseguem articular palavras e fazer frases com nexo (Suzy?). Felizmente, na 2ª semi-final, o par composto por Lúcia Moniz e Eládio Clímaco fez muito melhor figura, em ambos os capítulos, do que a parelha Suzy – António Calvário, que abriu a 1ª semi-final.

Em termos musicais, o Festival RTP da Canção, apresentou-nos 12 músicas de 12 intérpretes nacionais, nas quais quero destacar pela positiva um interessante equilíbrio entre a aposta em jovens talentos (a mais nova intérprete, Rita Seidi, tem 17 anos), e nomes conhecidos e muito mais experientes como Adelaide Ferreira e Simone de Oliveira. Pela negativa destaco a falta de diversidade musical, apostando-se, mesmo comparando com outros anos, em receitas gastas e datadas, que já nem o nosso pequeno Portugal entusiasmam, e a falta de vontade, coragem ou saber para desenvolver a fundo os conceitos apresentados, nomeadamente a nível cénico, caindo-se na monotonia e vulgaridade, raramente aproveitando as potencialidades dos temas apresentados. Exceptuando um honroso par de músicas, faltou carácter, força e acima de tudo espectáculo, a músicas que, de resto, até conseguiram, em alguns casos, trazer a palco boas vozes, boas letras e composições interessantes.

“Lisboa, Lisboa” foi a música de Sara Tavares e Kalaf Epalanga a que Rita Seidi deu voz. Com uma ritmicidade muito própria e dando uso às influências africanas, este tema apresentou-se como uma música quente, bem-disposta e fácil de ouvir, o que não fez dela uma grande candidata ao prémio ou uma canção fenomenal por valor próprio. Uma letra longe de ser extraordinária (talvez pela urgência em ser feita, como disse a Sara) e a necessidade de uma voz mais cheia, dinâmica e potente (quiçá a da Sara), que, sem desmérito para a intérprete, Rita Seidi não tem, deitaram por terra as ambições deste grupo de trabalho.

Miguel Gameiro, dos Pólo Norte, compôs uma música interessante, com uma base mais rock, que com uma interpretação algo insegura de Leonor Andrade na semi-final, conseguiu ainda assim chegar à final, onde, com mais confiança na voz, fez por ganhar uma viagem a Viena. Claramente mais confortável nos registos mais baixos da música mas sem destoar nos agudos, mesmo após uma subida de tom, Leonor trouxe à música um ar de, quase Amor Electro, faltando à voz a capacidade de encher o palco com a sua presença e pecando por uma notória falta de investimento em produção cénica, que foi aliás, uma das grandes limitações da maior parte das participações neste festival.

Filipa Baptista foi a eleita por Augusto Madureira para interpretar o seu tema “A noite inteira”, num registo de pista de dança. Filipa teve a falta de sorte ou de gosto (ou as duas), de ir ao Festival RTP da Canção representar Suzy, a vencedora do ano anterior. Tudo na sua interpretação fez lembrar a actuação de Suzy em 2014 (à excepção do peito). Letra medíocre, ritmo e melodias banais e uma… coreografia/interacção com um dançarino, que nos põe a pensar se estes profissionais são devidamente pagos por aquilo que têm que passar. Filipa não tem, de todo, má voz, mas nesta actuação foi só isso que teve a seu favor.

Fig. 2: Filipa Baptista in Suzy 2

Nuno Feist e Nuno Marques da Silva foram compositor e letrista de uma das poucas obras que arrancou aplausos espontâneos entre a audiência do programa. “Outra vez Primavera” contou com uma composição interessantíssima, óptima interpretação musical, e uma fantástica, potente, e bastante expressiva voz de Yola Dinis, tudo acompanhado por uma letra digna de ser chamada poema. Infelizmente, e apesar de se ter apurado na 1ª semi-final, o fado de Yola não conseguiu nem o voto do público, nem o dos compositores (?) e ficou-se pelo 4º lugar na final nacional.

Foi o sobrinho de José Cid que compôs e interpretou “Tu tens uma Mágica” mas podia ter sido o septuagenário cantor, pois Gonçalo Tavares é uma cópia a papel químico de Cid (que colaborou na fantástica letra), sem a franja e com 30 anos a menos. Mas as diferenças acabam aí. Uma frase repetida durante 3 minutos, 4 acordes no piano com uma ritmicidade e melodia que nos levam 30 anos para trás (o que não é necessariamente bom), e os tiques de cabeça, fizeram-me sentir num lagar. Curiosamente, esta obra conseguiu o voto do júri, quer na semi-final, quer na final, o que, de todo, não abona a favor dos compositores.

Adelaide Ferreira foi Adelaide Ferreira. A sua presença trouxe, tal como a de Simone de Oliveira, uma maturidade diferente ao festival. No entanto, ao contrário de Simone, que chegou à final, a música que Adelaide trouxe consigo, não conquistou os Portugueses. “Paz” tinha uma mensagem mas faltou-lhe a força e a elaboração para a fazer chegar ao público. Nem a postura e voz expressiva, nem a habilidade teatral da cantora compensaram uma música regular, que não encaixou particularmente bem no conceito do festival e que não puxou pela voz de Adelaide como outros temas que interpreta.

E assim se fecha a 1ª semi-final.

Fig. 3 - Yola Dinis, uma grande cantora

A 2ª trouxe-nos uma melhor apresentação, mais natural e fluída, com a dupla Sílvia Alberto – José Malato, e alguns temas interessantes.

Começando por “Quando a lua volta a passar” de Sebastião Antunes. Tenho que confessar que Sebastião tem uma sonoridade que me apraz, gosto da influência country presente nos seus trabalhos, e da maneira particular de cantar histórias através da música. No entanto, desta feita, Sebastião não foi feliz na escolha da intérprete. Rubi Machado não soube ou não conseguiu soltar-se e dar a leveza, alegria e agilidade que a música exigia, tendo resultado num estranho contraste entre uma composição viva e dinâmica interpretada por uma cantora pesada e mortiça na sua voz.

Churky usou a potente voz de José Freitas para dar vida a um blues ao estilo de Elvis Presley que, sendo diferente do habitual no programa, mostrou bom serviço e mais que mereceu o lugar na final nacional. A lamentar fica a produção cénica que, neste programa, parece consistir exclusivamente em gente a dançar em fundo. Não acrescenta nada a esta música, não encaixa no estilo musical e é foleiro que dá dó, inovem.

Teresa Radamento interpretou “Um fado em Viena” de Fernando Abrantes e Jorge Mangorrinha, um fado-valsa de composição simples e melodia alegre. A voz acompanhou de maneira razoável, tímida a princípio, mas crescendo em confiança ao longo da música. Apesar da música se ouvir bem, Teresa Radamanto, não é uma voz genial, e as suas limitações são evidentes na canção. Cenicamente pobre.

Simone de Oliveira apresentou um belo poema de Tiago Torres da Silva, com uma composição à altura por Renato Júnior. Simone fez valer a sua experiência, segurança inabalável e grande carisma. A apontar fica a opinião de que, o que a música tem em harmonia não tem em força para acompanhar a grande expressividade de Simone. Uma música, não obstante, interessantíssima, com todo o potencial para vingar fora do festival.

Fig. 4 - Cheia de garra e expressividade, Simone de Oliveira

Héber Marques compôs e Filipe Gonçalves cantou “Dança Joana”, um tema num registo pop, bem ao jeito do festival da canção. De longe, o mais expressivo dos intérpretes (exceptuando talvez Simone, mas num registo completamente diferente), com muito à vontade, interactividade e presença em palco. Apesar do cheiro a verão, uma letra pouco inspirada pode ter pesado contra “Dança Joana”, que não passou da semi-final.

O tema “Maldito tempo” de Carlos Massa foi desqualificado por não cumprir os regulamentos do concurso pois, apesar de original, não era inédito, o que, estando para além de argumentação (o regulamento factualmente foi incumprido), é uma pena, pois a voz de Diana Piedade é um portento, a interpretação foi fluída e enérgica e o duo cénico com um dos músicos, deu uma dinâmica a este nível que faltou às restantes apresentações.

De toda esta mescla saiu como vencedora Leonor Andrade com “Um mar que nos separa”. Não foi a melhor composição, letra, voz ou actuação do festival, mas, foi a representante escolhida. Na actuação em Viena, Leonor Andrade até nem se portou mal, cantando com confiança e esforçando-se para interagir com o público mas sem ter o carisma de uma Lúcia Moniz e com uma péssima escolha de indumentária e postura que, vá-se lá saber porquê, parecia sugerir uma improvável e pouco conseguida mistura entre rock e fado. A música interessante e a voz que não envergonha esbarraram no vazio cénico que engoliu Leonor, e resultou numa prestação muito abaixo de alguns dos seus concorrentes e na consequente eliminação na semi-final do Festival Eurovisão da Canção.

Fig. 5 - Conchita Wurst, cantor Austríaco, vencedor do Festival Eurovisão da Canção em 2014

Nas últimas 10 participações (de 2004 em diante pois tivemos um interregno em 2013), Portugal chegou à final apenas em 3 (2008, 2009 e 2010), e vai sendo tempo de a RTP repensar o modelo de recrutamento (e quiçá até o de seleção) que aplica. Abrir as portas a mais compositores, através de concurso e pré-seleção, poderia trazer mais e melhores temas, géneros musicais e intérpretes, em contraponto como o actual sistema de convite de compositores, sabe-se lá sujeito a que critérios (ou falta deles). Este seria, a meu ver, um ponto de partida, não só para renovar o interesse dos Portugueses, que passariam a associar mérito e qualidade a uma presença no festival, como para melhorar as miseráveis classificações frequentemente obtidas pelos nossos representantes.

Num certame internacional em que se investe dinheiro público, quer-se o melhor que se faz musicalmente em Portugal, um país recheado de excelentes compositores, músicos e intérpretes, algo que não é possível com este modelo de portas fechadas.

Se o Festival RTP da Canção é um programa de entretenimento, o que se exige da televisão pública, é que garanta entretenimento de qualidade e, assim, certamente, os Portugueses responderão em conformidade, com o seu apoio e entusiasmo que, de resto, é bem visível noutros países europeus que continuam a investir forte na sua representação no Festival Eurovisão da Canção, com ganhos não só culturais, mas também económicos.

Até lá, estamos condenados a deitar dinheiro ao desbarato e a vermos a nossa representação musical, ficar à sombra de grandes colossos da música europeia, como o Chipre, o Azerbaijão, Montenegro ou a Arménia.

Urge a mudança.

Nuno Soares



terça-feira, 2 de junho de 2015

Nas Asas da Poesia - Algo irá acontecer

Algo irá acontecer
No rastejar livre das minhas raízes sólidas
Do ar, um cócó de pássaro cai no ombro da minha folha
Esborrata-se todo no ramo e desce caminhos de voo

Algo terá que acontecer, algo irá acontecer
O galo que canta sempre cedo demais ou demasiado tarde
Sem metas e sem desafios, um galo livre de cantos
Nas veias do relvado ensopado de água

Algo irá escorrer da lava de um vulcão
Que desce com o falcão até encontrar o chão
Onde germina e cresce os seus ramos do alcatrão
Até o infinito e mais além

Algo irá voar no rio e no espaço
Bater nos galhos para os frutos comer
Frutos tais que nos fazem crescer
Na terra que emana calor fervente

Que quero eu mais do que poesia?
Quero senti-la pelos olhos dos que me vêem
Quero ser a lesma e a centopeia no chão
Na alface, na semente, numa situação

As casas enforcadas nos meus braços de sobreiro
Que sobram das sobras de algo que irá acontecer
E se o vento me partir, crescerá de novo outro ramo
A minha raiz torna-se mais forte e bebe ainda mais água

Algo irá dar a bicicleta ao outro
Vai sair por baixo sem se notar
Vai crescer flor, erva, fungo, ou arbusto
Algo irá realmente acordar

Vou crescendo a minha floresta até ao astro
E os cheiros do eucalipto que arde dia sim, dia sim
Num rodopio de borboletas ou de melgas
Um ciclo de cores que se cheira ao ouvir-se atentamente

Algo irá acontecer mesmo que espere desesperadamente
Vai sair pela toca de incêndios e subir as lianas dos meus braços
Vai de encontro ao cabelo dos meus galhos
Onde rios de pólenes se espalham para me poder proliferar

Algo irá acontecer de um cantar de um plátano
Algo com bico e penas irá acontecer
Algo com terra e areia terá que acontecer
Algo que me terá que satisfazer

Como as bolhas de água de um jacuzzi natural
Que sai de uma pocinha de água com cal
Onde os grilos da madrugada cantam voos de pássaro
E onde os voos de pássaro cantam cigarras sóbrias

Nesses voos vêem-se todas as cores da terra
Deles, nascem os frutos e as espadas de São Jorge
É desses voos que se purifica o ar das vivências
Quando não interessa se está chuva de sol, ou sol de chuva

Algo irá acontecer ao caracol com os olhos ao sol
A rola a grilar e o grilo a arrulhar, nas pedras de uma rocha maior
Que se foi desfazendo ao longo do rio formado pelos meus troncos
Sem destino e sem sentido, num córrego ainda por rastejar

Algo irá acontecer quando do cuco crescer morangos
O sabor irá ser de lama que já voou por outros ramos
Ramos que se vieram a entrelaçar numa rede de pintassilgos
Com gotas de água a brilhar em zig-zags de ninhos

Algo irá acontecer, mesmo que seja
Ter o galo de ir a Barcelos ver o galo de Barcelos,
Num fim de tarde de Domingo, feriado nacional.
Onde o sol desceu para o chão e do chão se fez luz

Algo irá pedir, pedir a esmola, pedir um favor, pedir a fatura, pedir por favor
As ruas desertas demoram a ficar com ervas nas gretas
Em valas correm relvas e musgos
Das lavas irá crescer vegetação.

Algo irá cantar, cantar muito, cantar de galo,
Cantar de pássaro, cantar acapella, cantar a São Lázaro
Em paredes de carvalhos que correm na água e nadam na terra
Terra que voa até à copa do rastejar dos colibris

Algo irá flutuar por onde as cobras rastejam
Nos túneis luminosos da escuridão
Num cantar de ramos onde não me vejam
Num mar de túlipas de grande dimensão

Algo irá rezar à mãe natureza para ter mais anos de vida, ou uma vida sem prazos.
Em ramadas de orvalho
Que vêem em meus poros

Algo que terá que ficar por aqui

Paulo D. de Sousa

domingo, 31 de maio de 2015

Comunicação

Devido a motivos alheios ao Opina – Espaço de Divulgação Cultural a parceria com o blog Tito Pinto encontra-se doravante sem efeito.

Lamentamos o incómodo. 

Opina

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Pó na Fita - Jodorowsky’s Dune (2013)

Um documentário novo sobre um filme antigo que nunca aconteceu!

Já pensaste sobre os filmes que nunca chegaram a existir? Na sua importância para os outros que de facto foram exibidos? O primeiro documentário que o Pó na Fita inaugura explica-nos, de forma apaixonante, como uma película que nunca foi realizada basicamente fundou os modernos filmes de ficção científica.

Por entre desenhos, entrevistas, simulações de cenas e relatos de episódios caricatos, o espectador acompanha o processo de criação deste colossal projecto dos anos 70, que tinha por objectivo captar para o cinema o caleidoscópico universo do clássico de ficção científica Dune. Desde o pesado tomo de storyboards à contratação de Salvador Dali, todos os passos marcantes são relatados. Numa hora e meia vamos do mais puro sonho à amarga tristeza da morte de uma fantasia gloriosa.

O documentário de Frank Pavich tem o decano realizador Jodorowsky como o fio condutor, qual louco contador de histórias, revelando o seu entusiasmo lunático, nostalgia contida, a sua mente brilhante e transbordante. Numa montagem clássica, a realidade dos bastidores é baforada com laivos do que poderia ter sido um dos melhores filmes de sempre.

Uma verdadeira homenagem à luta pelos sonhos!

P.S. Neste mês fica um prémio para os leitores, o documentário está no youtube, caso entendam as línguas estrangeiras: https://www.youtube.com/watch?v=s6p2h5JSBJQ

P.S.S. Para complementar, sugiro o filme “El Topo”, do próprio Jodorowsky, caso queiras embarcar num western psicadélico e pejado de simbolismos. Para ficares com um pequeno gosto do que poderia ter sido.


Rafael Nascimento

terça-feira, 19 de maio de 2015

Nas Asas da Poesia - Sorriso

Dizem que não há magia
Mas é certo que ela existe
Um sorriso torna o dia
Bem melhor do que previste.

Seja de um conhecido
Ou de alguém que nunca viste
Pode um sorriso sentido
Ser bem mais do que pediste.

Dizem que não há magia
Mas é certo que ela existe
Traz sempre alguma alegria
Até ao dia mais triste.

Bem maior que o infinito
Bem mais quente que uma chama
Nada há de mais bonito
Que o sorrir de quem se ama.

Dizem que não há magia
Mas há-de sempre existir
Espero que ao leres esta poesia
Também tu possas sorrir.


Marco Gago

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Nas Asas da Poesia - Cantar ao desafio

Sou de poeira, de pedra, rastejo!
Sou de poeira, de pedra, rastejo!
Quando fico envolto de terra
Nem suspiro, nem rio, ou gracejo

Sou a relva, as flores e os frutos!
Sou a relva, as flores e os frutos!
Cruzamentos de perpendiculares
Não me sirvam uns cantares curtos!

Sou a proliferação dos arbustos!
Sou a proliferação dos arbustos!
Em trevo de quatro folhas ressurjo
Dou-te um cantar sem os custos

Sou sabores de amoreiras!
Sou sabores de amoreiras!
Versos para o ar sem espirrar
Em encontros de cachoeiras!

Sinto tudo até ao astro!
Sinto tudo até ao astro!
Balanças e quase que cais
Eu balanço em água de lastro

Estou aqui e pouco evidente!
Estou aqui e pouco evidente!
A água p´ra poder germinar
Canto o nascer, o morrer, a semente

Vim do caminho p´ra te cantar!
Vim do caminho p´ra te cantar!
As flores secas da primavera
Eu nem sequer te irei odiar!

Do amarelo de plantas com sede!
Do amarelo de plantas com sede!
Vou voar sem me enraizar
Em cantares pescados à rede

Beijinho, abraço e amor!
Beijinho, abraço e amor!
Em corações de ilusões
Vieste cantar c´um senhor.

Em satisfações recordadas!
Em satisfações recordadas!
Chover em solar de emoções
P´ra ti tenho coças cantadas

Passeio o passeio da estrada!
Passeio o passeio da estrada!
Venho p´ra aqui sem direções
Mas daqui tu não levas nada

Tudo na vida é poesia!
Tudo na vida é poesia!
Ainda não eras nascido
E já cantares eu fazia

Numa terra eventual!
Numa terra eventual!
Vómito lento em lodo pastoso
Em vez do teu canto banal

Em pobreza magistral!
Em pobreza magistral!
Meu canto é a beleza
O teu ao ouvido faz mal!

Em brisas de breve futuro!
Em brisas de breve futuro!
Calafrios e suores frios
Vieste a bater contra um muro!

Os sacrifícios dos pais da nação!
Os Sacrifícios dos pais da nação!
Nas músicas da minha vida
Ouves meus cantares em lição

Sem compromissos, sem esquecimentos!
Sem compromissos, sem esquecimentos!
É a vida, o mar, o ar e o luar
É um cantar, dois cantares, são quinhentos!

Com os amigos cantar!
Com os amigos cantar!
Enquanto lhes dou uns abraços
Tu ficas p´raí a chorar

Folhas de nervos enredados!
Folhas de nervos enredados!
Fantasmas de outras cidades
P´ra ti até de olhos vendados!

Cabelo curto ou comprido!
Cabelo curto ou comprido!
Barba grande ou aparada
O teu nem chegou ao ouvido!

As gretas de galho abano!
As gretas de galho abano!
Racham, partem e caem
É o fim do cair do teu pano!

Paulo D. de Sousa

terça-feira, 12 de maio de 2015

Crónica Social - Isto não é.

Gosto de ser contra corrente e começo por usar o não - Isto não é.

Isto não é uma rubrica sobre fofocas, vidas cor-de-rosa, fama, espetáculos, chefes de claques, partidos, cães com pedigree, crimes e desgraças exploradas, coisas caras, viagens longínquas, invejas, empresários de sucesso, nem tão pouco sobre a vida dos outros.

Mas então que espécie de crónica social poderá ser?

Podemos reinventar o termo social. E acordar por agora que nomeia a interação entre os seres humanos neste bolinha perdida no espaço, a que chamamos Terra.
Que tem que ver com as formas como os homens se organizam para viver em conjunto. E gerir os recursos e os bens comuns. Também tem que ver com trabalhar e produzir e distribuir a riqueza, nas sociedades que inventámos.
Que terá que ver com as formas como nos relacionamos connosco, com os muitos outros e com a Terra.
Só por agora. Só para nos entendermos, podemos considerar assim.

Interação entre os seres humanos?

Isso tanto podem ser as formas de viver com os nossos mais próximos – os que moram connosco ou no nosso coração, os nossos afetos e desafetos, como os outros. Ou nós mesmos na relação que temos connosco. Que será sempre uma relação mediada por outros.
Os outros vizinhos, que saudamos ou não saudamos, os outros colegas ou os outros que partilham filas de desemprego, ou de trânsito, os outros que bebem café no mesmo sítio, os outros que encontramos nas escolas dos filhos, os outros a quem chamamos amigos, os outros que trabalham voluntariamente nos bombeiros, no centro social, na biblioteca, no clube desportivo, na preservação do meio ambiente. Os outros que não têm trabalho. Os outros que nos irritam. Os que são velhos demais. Os que são novos demais.

Os outros que pensam como nós e os que pensam diferente. Os que têm os mesmos gostos. Os que foram educados de forma semelhante. Os que nos conhecem.
Os outros que são do mesmo clube da bola e os que não são. Os outros que são da mesma preferência partidária e os que não são. Os que são da nossa terra e os que não são.
Os que são de cá e os que não são.
E os outros mais distantes. Aqueles a quem atribuímos poderes especiais. Os que mandam.
Os muito ricos que não se conhecem. Os que fazem a guerra. Os que exploram e os que são explorados.
Todos somos gente em interação. Por mais que nunca tenhamos saído da nossa rua.

Por mais que não saibamos onde fica a Albânia ou a Síria ou a Namíbia. Por mais que as histórias que os media nos contam já não nos toquem. Por mais que nem sonhemos o que os media não nos contam.
Por mais que o meu dia-a-dia seja tão duro que me estou a marimbar para as múltiplas frentes de guerra. Ou para as alterações climáticas. Ou para a extinção das espécies. Ou para os transgénicos. Ou para o império das farmacêuticas. Ou para a política. Ou para o desemprego. Ou para o futuro da Europa. Ou para tudo e todos. Até para mim.

Talvez estas crónicas sejam sobre gente. Pessoas. Aqueles seres com a característica singular de serem todos diferentes e semelhantes, habitantes da mesma ‘casa’ e pertencentes a uma mesma raça humana.
Afinal talvez seja uma crónica com gente dentro. Com histórias e perspetivas de vida.

Não sou uma tudóloga (espécimem convencida que sabe de tudo e que emite opinião sobre qualquer assunto), nem me levo muito a sério. Tento não julgar, nem me pautar por moralismos.
Terei sempre uma perspetiva particular. Sem pretensão à verdade. Mas com a minha verdade.

Encontramo-nos por aí…

Isabel Passarinho

Isabel Passarinho passará a trazer-nos de forma regular a sua nova "Crónica Social"! Acompanhem! 

Opina