Foi no dia 25 de Janeiro no Grande Auditório da Universidade do Algarve que a Orquestra Clássica do Sul (OCS) apresentou para uma plateia de cerca de duas centenas de espectadores um concerto individualizado pelos comentários do Maestro José Eduardo Gomes que quis assim aproximar a orquestra do público, nas palavras do mesmo, e pela estreia de "Ónix", obra do jovem compositor português Diogo Ribeiro (25 anos).
Durante os cerca de 90 minutos de espectáculo a narração do Maestro foi contextualizando a plateia para os temas interpretados pelos fantásticos músicos que compõe a OCS e que incluíram a "Abertura Coriolano" de Beethoven obra que relata a história de um general romano que, ferido no seu orgulho pelas injustiças a que foi sujeito, se revolta contra o senado e apenas não ataca Roma pois cede às súplicas de sua mãe, Volumnia. Assim, esta obra é composta por dois temas, o primeiro, que caracteriza o belicismo e brusquidão do general e o segundo, o suplício suplicante de sua mãe, sendo uma obra emotiva e de grande contraste.
Seguiu-se a 64ª sinfonia de Joseph Haydn ou Tempora Mutantur, da citação "Tempora mutantur, et nos in illis" (Os tempos mudam e nós mudamos com eles), obra composta por quatro andamentos entusiasticamente narrados pelo Maestro José Gomes, que introduziram a obra em estreia, "Ónix" de Diogo Ribeiro, descrita pelo seu autor como simples e de fácil compreensão, algo tradicional, dotada de um carácter forte e dramático que nunca perde a tensão musical durante a sua duração.
A conclusão do espectáculo coube à "Sinfonia nº1 em Ré menor" de Prokofiev, "Sinfonia Clássica" assim baptizada pelo compositor que a escreveu no início do século XX.
Um óptimo concerto!
Classificação:
Nuno Soares
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
A Viagem do Beagle
Titulo
– A viagem do Beagle – Viagem de um naturalista à volta do mundo
Título original – The voyage of the
Beagle – A naturalist’s voyage round the world
Autor
– Charles Darwin
Editora
– Relógio D’Água Editores
Data
de edição – Fevereiro de 2009
Data
da publicação original – 1839
A
viagem do Beagle (1832-1836) narrada por Charles Darwin no seu diário é uma
obra apaixonante. Um fantástico livro de aventuras que nos traz o mundo
percepcionado por um homem do século XIX que durante quase cinco anos trilhou
as costas de Cabo Verde, Brasil, Argentina, Chile, Perú, Nova Zelândia,
Austrália e realizou inúmeras incursões pelo interior do continente americano,
australiano e visitou um sem número de ilhas de várias naturezas.
Rico
na descrição das componentes geológicas e biológicas das terras que Darwin
atravessa durante a sua viagem, este livro transmite também as percepções
sociais, morais e ideológicas que realidades tão contrastantes como o Brasil
esclavagista, as tribos canibais da terra do fogo ou a colónia inglesa
estabelecida na Austrália despertam nas crenças e valores de Darwin, sendo de
extremo interesse ver o processo evolutivo que o autor sofre ao longo da sua
viagem na maneira como vê o mundo.
Mais
do que um livro de viagens, de história ou de aventura, A viagem do Beagle é
uma janela para outro tempo e para a análise aos olhos de um homem de então, de
problemas sociais, económicos, ambientais, morais e científicos que, em certa
medida, não distam tanto quanto seria de se esperar, dos actuais problemas da
mesma natureza.
Escravidão,
religião, corrupção, colonização e civilização são alguns dos tópicos que
Darwin homem acrescenta à imensidão de fantásticas anotações, relatos,
pensamentos e explicações com que Darwin naturalista recheia o seu diário,
desde as ilhas vulcânicas e a sua flora e fauna particular, como Cabo Verde e
as Galápagos, as luxuriantes florestas do Brasil, as pampas argentinas, a
inóspita terra do fogo, os andes chilenos, as intrigantes galápagos, os recifes
de coral do pacífico, as diferenças civilizacionais e naturais entre Nova
Zelândia e Austrália, entre tantas outras experiências transmitidas ao longo de
cinco anos de viagem.
A
notar ainda as anotações e referências com que Darwin dotou o texto e que
acrescentam pormenores valiosos e deliciosos à obra e à percepção do
funcionamento da comunidade científica internacional à época.
Por
último interessa referir o único ponto negativo que merece referência nesta
obra: a tradução. Talvez por o trabalho ter sido feito por diferentes
tradutores em diferentes partes do livro (algo pouco compreensível tendo em
conta que a obra original foi escrita em Inglês) o texto é por vezes minado por
uma tradução algo inconsistente que perturba a experiência da leitura sendo
necessário recorrer a outras referências, que nem sempre serão ao alcance do
leitor casual, para que se entenda o que está a ser transmitido.
Em
suma, apesar da tradução, uma fantástica obra escrita por um homem
interessantíssimo que, com base nesta viagem, criou uma das teorias científicas
que mais viria a abalar a maneira como percepcionamos o mundo e a nós mesmos,
um grande livro de aventuras e uma incomparável viagem no tempo.
Classificação:
Nuno
Soares
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Rubrica Jovens Autores
É com grande entusiasmo e
expectativa que o Opina anuncia que ainda no mês de Janeiro estreará uma nova
rubrica cujo objectivo é aproximar leitores e autores de obras literárias num
espaço de intercâmbio e partilha de experiências e perspectivas.
Esta terá o formato de entrevista
sendo os ouvintes convidados a participar na sua realização através da sugestão
de questões que querem ver levadas ao autor entrevistado.
A primeira escritora a participar
na rubrica será Iris Palmeirim de Alfarra, autora da obra “Shinegow”, já
divulgada no Opina. Iris é uma jovem autora natural de Braga, que publicou em
2011, com apenas 18 anos, a sua primeira aventura literária que, entre outras
coisas, promete continuação que dê desfecho à sua mágica narrativa.
Assim sendo, o Opina lança aos
leitores o desafio de deixar neste nosso espaço as perguntas que gostariam de
colocar à autora convidada para que a entrevista possa ser o mais rica e direccionada
para o interesse dos leitores possível.
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| Fig 1: Iris Palmeirim de Alfarra |
Até breve,
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
The Hobbit - The Desolation of Smaug
A saga continua. Um ano depois da primeira parte da viagem de Bilbo Baggins (Martin Freeman), sob o mote "An Unexpected Journey" ter chegado ao cinema, eis que estreia a continuação da aventura da companhia de Thorin Oakenshield (Richard Armitage) da qual para além do pequeno hobbit fazem parte treze anões (Thorin, Dwalin, Balin, Kili, Fili, Dori, Nori, Ori, Óin, Glóin, Bifur, Bofur e Bombur) e o feiticeiro Gandalf (Ian McKellen).
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| Fig 1: Tauriel, Gandalf, Thorin, Radagast e Legolas |
Depois da atribulada (e apenas parcialmente voluntária) travessia das Misty Mountains a companhia de Thorin tem agora que atravessar os perigos de Mirkwood, sem Gandalf, que ficou retido na investigação de estranhos rumores em Dol Guldur, antes de chegar a Erebor e retomar o reino dos anões que fora saqueado e tomado pelo dragão Smaug.
Este filme, à semelhança de "The Two Towers", o segundo capítulo da trilogia "O Senhor dos Anéis" realizada, tal como "The Hobbit", pelo neo-zelandês Peter Jackson, introduz à narrativa uma tremenda dose de adrenalina e acção após um primeiro filme que, não desprovido de actividade, era mais introdutório, mais contemplativo, mais espiritual e com um toque de misticismo como ao fim e ao cabo são os inícios de todas as grandes viagens.
Em "The Desolation of Smaug" a constante fuga dos anões e do hobbit à feroz perseguição de Azog e dos seus orcs por Mirkwood e Esgaroth e, mais tarde, o confronto com Smaug, juntam-se a novas partes da Terra Média a que a equipa de Jackson deu vida e que farão as delícias dos aficionados das obras de John Tolkien, proporcionando aos espectadores um impressionante espectáculo visual e cénico. A banda sonora continua extremamente bem trabalhada, dando grande ênfase emotiva ao filme.
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| Fig 2: Uma agradável viagem de barril, a melhor maneira de conhecer a terra média de Tolkien |
Um filme fantástico, uma óptica continuação do primeiro filme e uma porta aberta para uma conclusão épica desta obra de Tolkien, prequela de "O Senhor dos Anéis".
Nuno Soares
Classificação:
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Frozen - O Reino do Gelo
Frozen foi a aposta da Disney para o natal de 2013 e não se pode dizer que tenha sido uma má aposta como mostram os mais de 544 milhões de dólares já arrecadados em bilheteiras de um filme que ainda continua em exibição.
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| Fig 1: Frozen - O Reino do Gelo |
Frozen foi apresentado ao público como uma comédia de aventura, animada, claro está, através de um trailer que levantava o véu sobre as personagens, o enredo e o tipo de acção que o público poderia esperar. No entanto, Frozen é um musical (algo imperceptível no trailer), algo que sem tirar mérito ao filme pode defraudar as expectativas de quem viu o filme ser anunciado como algo bem diferente.
Mas, sendo franco, um musical animado não é algo de mau. De todo. Frozen tem um imaginário bastante interessante que gira à volta da cidade de Arendelle e das suas duas princesas Elsa e Anna.
Elsa nasce com a fantástica capacidade de criar e manipular gelo, habilidade que desde tenra idade é encorajada a esconder dentro de si dada a sua imprevisibilidade e perigo. Após a morte dos pais Elsa herda a responsabilidade de comandar os destinos de Arendelle mas cede à pressão das suas obrigações e ao peso que carrega, revela inadvertidamente o seu poder, fere acidentalmente a irmã e foge para as montanhas geladas que rodeiam Arendelle.
Anna empreende então uma difícil demanda para encontrar e trazer de volta a sua irmã foragida na companhia de um vendedor de gelo e da sua rena (Kristoff e Sven).
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| Fig 2: Sven |
A magia é uma constante como não deixa de ser habitual nos contos da Disney e Frozen conta com Olaf, um boneco de neve que quer conhecer o verão e uma multidão de trolls mágicos para enriquecerem esta obra.
Apesar de todos estes ingredientes que adoçam a experiência de ver Frozen, o filme peca pela superficialidade do desenvolvimento do enredo e da temática que, ainda que bem escolhida, parece, por vezes, desconexa e com lapsos. A proporção musical vs aventura/humor é também ela desfasada em relação às expectativas criadas pelo trailer, sendo que na fase inicial do filme o constante recurso a falas cantadas (que nem sempre são brilhantes) é tão frequente que afecta a capacidade de o espectador gozar a temática que a Disney montou para este filme.
Não obstante, Frozen proporciona bons momentos e a dupla Kristoff/Sven, assim como Olaf, garantem boas gargalhadas e a aventura de Anna em salvação da sua irmã Elsa imerge os espectadores nos valores Disney, juntando a uma boa dose de amizade e ternura um omnipresente final feliz.
Um filme aprazível, longe no entanto dos mais fantásticos filmes da Walt Disney.
Nuno Soares
Classificação:
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
Bom Natal e Feliz Ano Novo
O Opina deseja a todos os seus leitores e colaboradores um fantástico Natal e uma entrada com o pé direito em 2014. Em Janeiro estaremos de volta com mais opinações sobre a cultura que se faz em Portugal e com uma ou duas surpresas. Até lá e bom natal!
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| Fig 1: Feliz Natal! De preferência perto de uma lareira. |
À laia de sugestão deixa-mo-vos algumas localizações (gratuitas) para a passagem de ano 2013/2014 com os respectivos cabeças de cartaz:
- Albufeira: Richie Campbell
- Almada: Projecto BUG
- Beja: Clã
- Coimbra: Anaquim
- Lisboa (casino): Amor Electro
- Lisboa (Terreiro do Paço): Herman José
- Estoril (Casino): Deolinda
- Monte Gordo: Mastiksoul, Dj Ride, David Carreira
- Ponta Delgada: Oceanus, Banda Royal
- Portimão: Dj Deelight
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Cronicas de uma viagem - Caminho de Santiago (parte X)
Cronica 10 – O dia mais comprido
Dia 11 Santiago – Vigo- Porto –
Lisboa
O dia de hoje foi o
mais comprido e o mais cansativo de toda a viagem. Levantei-me por volta
das 8h de quinta-feira e cheguei a Lisboa um pouco antes das 6 da manhã do dia
seguinte, sexta-feira. Mas indo por partes,
arrisco três: i) a parte da manhã passada em Santiago, ii) a parte da viagem
até Vigo e iii) a parte de Vigo ao Porto e do Porto a Lisboa com a chegada a
casa.
Primeira parte – Em Santiago
Tomei um belo
pequeno-almoço na esplanada do café ao lado da pensão - adoro tomar um bom pequeno-almoço,
num sítio bonito, descansada e sem pressas. Deixei a mochila a
guardar na pensão e sai ligeira para dar uma volta pela cidade, ir à missa do
peregrino que acontece todos os dias na catedral ao meio dia e tratar das
questões práticas do regresso a casa (em que transporte, a que horas e a que
preço).
Santiago, agora à luz
do dia, é uma cidade bonita, enfeitada com muitas flores e muito bem cuidada.
Vive do turismo e faz por merecer o agrado de quem a visita. Coexistem centenas de
lojas de ‘recuerdos’ vulgares (caríssimos e mais ou menos industrializados e
desinteressantes) com lojas tradicionais de artigos muito bons e outras
inovadoras de design artístico (e preços ainda mais proibitivos). Também é
percetível um movimento artístico e cultural bem enraizado mas com novas
abordagens bem interessantes.
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| Fig 2: Santiago |
Viajar de mochila e
com um orçamento muito limitado também resolve o problema das lembranças para a
família e amigos – comprei o mínimo, umas fitas de Santiago tipo ‘senhor do bom
fim’ para algumas pessoas com quem quero partilhar este acontecimento e umas
pulseiras mais elaboradas com símbolos antigos para os mais chegados (em quase
nada ainda gastei mais do que gostaria).
Um dos momentos mais
bonitos que vivi neste passeio turístico por Santiago foi ficar a ouvir um
músico de rua que tocava acordéon. Sentei-me num degrau e fiquei parada a ouvir
a sua música nuns momentos que me lavaram a alma. Mais perto do
meio-dia aproximei-me da catedral. A praça monumental, estava cheia de gente.
Gente de todas as maneiras e feitios. Devoção, turismo, curiosidade…e aqueles
grupos patéticos de ‘turistas de pacote’ com as inevitáveis guias de
bandeirinha – deprimentes!
Entrei na catedral
deviam ser umas 11 e meia e, apesar da escala ser enorme, já estava apinhada. Os
confessionários em várias línguas estavam a funcionar em pleno. E as ‘relações
públicas’ da igreja viam-se ‘em palpos de aranha’ para arrumar as «ovelhas»,
algumas acabadas de chegar da peregrinação, ainda com as mochilas. Muita gente estaria
pelo pitoresco, pelo ritual, pelo espetáculo, outras pela devoção. Algumas
pessoas estavam em meditação, outras com expressão de sofrimento, algumas só
cansadas e outras atentas. Uns mais respeitosos do que outros.
Gente do mundo
inteiro reunida na Catedral. Que sei eu? Eu
própria tinha razões paradoxais para estar ali.
Gostei
particularmente das palavras da freira que iniciou a comunicação com o público
e resumiu a «coisa» a uma trilogia que me fez sentido e podia ser unificadora,
para além de qualquer catecismo: Fé, Esperança e Amor. Depois começou a cantar
com uma voz magnífica e não deixa de ser comovente ouvir um coro de 1000 vozes
entoando os cânticos. De resto, o ritual da
missa é normal. Saí na parte das hóstias.
Não fiz as rotas
turísticas de abraçar o santo, nem fui à tumba agradecer – já o tinha feito no
altar da natureza quando senti que era a hora e não me fazia sentido voltar a
fazê-lo por uma qualquer obrigação folclórica. Mas gostei de
participar naquele momento da missa e, de alguma maneira, marcar o fim do
Caminho, agradecendo pela possibilidade de o ter feito.
Segui para procurar
comer qualquer coisa e acabei por almoçar num restaurante muito bonito perto da
pensão. Ofereci-me uma refeição completa porque também já não me fazia sentido
continuar a comer aquelas sandes, com sumos e fruta que tinham constituído as
minhas refeições durante o caminho. Fui buscar a mochila
e segui em direção à estação de comboios que ficava relativamente perto
(entretanto, tinha decidido voltar de comboio porque é o transporte de que
gosto mais e ficava a um preço razoável).
Cheguei à estação um
pouco antes das 2h da tarde e apanhei um susto porque só vi destinos espanhóis.
Será que não havia comboios para Portugal? Fui às informações e
lá soube que teria que fazer o circuito Vigo-Porto-Lisboa. Comprei bilhete e
esperei pela partida às 16.29h. Os intervalos de
espera neste dia foram desesperantes mas estas primeiras duas horas até
serviram para descansar. Apesar da sensação um pouco amarga de que tinha
acabado a ‘festa’.
Segunda parte – Rewind do Caminho (viagem de comboio entre Santiago e
Vigo)
O troço entre
Santiago de Compostela e Vigo faz-se com conforto, num comboio do tipo TGV e
dura 1h e meia. O trajeto é quase paralelo ao Caminho e deu-me uma estranha
sensação de estar a rebobinar a cassete do que tinha vivido naqueles dias. Parecia que tinha
entrado num túnel do tempo e que estava em ‘rewind’ a olhar para aqueles locais
(a casa que parecia um castelinho, a igreja de Esclavitud, a casa de Rosália de
Castro, aquele bosque, os campos de milho, a estação de Padrón…). Foi quase
doloroso. Às páginas tantas,
deixei de olhar pela janela porque não gostei da sensação e concentrei-me nas
recordações ainda frescas que trazia do Caminho. Gostei de o fazer. Gostei
de o ter acabado. Gostei de ter gerido bem o esforço e de ter feito as pazes
com o meu corpo que se portou tão bem e de quem eu nem sempre cuido como devia. Gostei de ter passado
férias sozinha e de ter percebido que sou boa companhia. Gostei de me ter
atrevido a fazer algo diferente e que adiava há muito.
Gostei do ambiente
acolhedor do Caminho, da gentileza entre os peregrinos e das palavras de ânimo
e incentivo que ouvi por todo o lado. Pensei em muita coisa
mas nem tudo consigo alinhar agora. Sinto que as ‘ondas
de choque’ desta caminhada vão ecoar me mim por muito tempo e que provavelmente
daqui para a frente vão haver coisas que ganharão novos sentidos. Embora não tenha a
sensação que algumas pessoas descrevem de que ter feito o caminho lhes mudou a
vida. É verdade que fiz o Caminho como uma metáfora da vida e acho que fico com
a responsabilidade de não esquecer e prolongar «este espírito peregrino» pelo
resto dos meus dias, esteja onde estiver.
A estação de Vigo é
feia. Fica numa zona industrial e inóspita. Felizmente está sol. O intervalo entre
comboios é de quase duas horas, muito tempo de espera mas pouco tempo para dar
um passeio pela cidade, sobretudo quando se tem uma mochila às costas. Leio uma revista que
comprei, escrevo umas notas soltas, vou pedir para carregar o telemóvel no café
da estação (tem a bateria viciada e descarrega com facilidade, sobretudo depois
de o usar para tirar umas fotos) e fico a ver TV enquanto espero. Nestes locais,
a televisão ocupa um lugar estupidamente central.
Lá, como cá, notícias
da crise, manifestações de descontentamento, empobrecimento progressivo das
populações, cortes nas reformas, dramas pessoais – uma mãe com 6 filhos que se
suicidou aparentemente por dificuldades financeiras. Estas notícias fazem
disparar ‘o meu botão’ de Assistente Social entalado entre um compromisso com o
desenvolvimento das pessoas, uma empatia terapêutica, uma postura de ajuda à
realização do potencial de cada um e o lado do compromisso social com um modelo
de sociedade mais justa e mais respeitosa dos direitos humanos. Que não pode
ser esta sociedade neoliberal e capitalista em que estamos agora.
Revolta ou transição
pacífica? Conformidade ou dissidência? Adaptação ou reinvenção? Estas são
algumas das dualidades que ainda não consigo ultrapassar.
Terceira parte – De volta a casa (viagem de comboio entre Vigo, Porto e
Lisboa)
Fiz esta viagem entre
as oito da tarde com saída de Vigo já num velho comboio português, as 21.00,
hora a que cheguei à estação de Campanhã (Primeiro ainda pensei dormir a noite
no Porto mas fiz contas à vida e achei que era pouco tempo para o dinheiro que
iria gastar; por isso decidi seguir viagem até Lisboa), a longa espera de quase
5h em Campanhã e o regresso a Lisboa num comboio velho e tremeliquento.
A viagem de Vigo ao
Porto ainda foi simpática. Tinha ao meu lado uma família com crianças que se
fartaram de conversar e fazer jogos – de vez em quando não podia deixar de
sorrir com a traquinice das meninas. E uma hora passa num instante. Pude apreciar um belo
pôr-do-sol e o nascimento de uma enorme lua cheia que coincidiram com a
passagem do rio Minho. Depois, de Valença ao Porto passei por terras e
terrinhas com nomes inusitados que não conhecia mas já era noite e acabei por desligar
da paisagem e ficar a ler a minha revista.
Chegada a Campanhã
aguardava-me a pior espera do caminho: cinco longas horas. Fiz de tudo, comi,
andei de um lado para o outro, fui à casa de banho, fumei uns cigarritos, li as
revistas, fiz palavras cruzadas, olhei as pessoas, ouvi as conversas e
…desesperei. Quem me conhece sabe
que eu tenho hora de Cinderela, à meia-noite começo a transformar-me numa
abóbora – e foi isso que aconteceu, travei uma luta enorme com o sono e isso
cansou-me muito.
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| Fig 3: Ferrovia, Porto |
Só o bom vernáculo
nortenho que se ouvia por todo o lado (nas conversas dos taxistas parados em
frente da estação, na boca de uma rapariga tipo ‘top model de discoteca de
alterne para bimbos endinheirados’, na conversa de um senhor de meia-idade que
veio largar uma pré adolescente à estação, nas conversas de 3 jovens amigos com
ar de estudantes universitários que jogavam com os seus portáteis…) ajudou-me a
manter o estado de alerta.
No entanto, entre a
uma da manhã e as cinco e meia, que foi o período da viagem até Lisboa, já
estava em estado vegetativo. O comboio seguiu com pouca gente mas foram subindo
bastantes pessoas pelo caminho, sobretudo homens jovens que aproveitavam os
três bancos em linha e sem apoio de braços para se deitarem. Eu não me atrevi. Doíam-me as pernas da
imobilidade. Ainda me descalcei durante um período. Dormitei mas em modo
alerta. Comecei a achar que não cheirava muito bem (devia ser da roupa porque
tomei banho). Tive frio. Finalmente Lisboa.
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| Fig 4: Lisboa |
A S. tinha insistido
em vir-me buscar, se bem que eu lhe tenha dito que não valia a pena, que
poderia apanhar um táxi até Sete Rios onde tinha deixado o carro. Na chegada a Sta.
Apolónia estava um delicioso cheiro a bolos quentes no ar, apesar de não haver
nenhum café aberto. Da S., nem sombra (tinha adormecido e vinha a caminho). E pronto, lá estava
eu, sentada nas escadas da estação de Sta. Apolónia com mochila às costas, ar
de sem abrigo e meia bêbada de sono. A cidade estava
naquela transição entre as criaturas da noite e a alvorada, que trazia novas
criaturas para habitar o dia.
Chegou a minha boleia
e fomos comer qualquer coisa quente em Santos e meter a conversa em dia. Mas eu
estava exausta e sou fraca contadora de histórias. Preciso de dormir.
Preciso de recuperar desta direta. Preciso de processar lentamente esta viagem…
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