quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Rubrica Jovens Autores

É com grande entusiasmo e expectativa que o Opina anuncia que ainda no mês de Janeiro estreará uma nova rubrica cujo objectivo é aproximar leitores e autores de obras literárias num espaço de intercâmbio e partilha de experiências e perspectivas.

Esta terá o formato de entrevista sendo os ouvintes convidados a participar na sua realização através da sugestão de questões que querem ver levadas ao autor entrevistado.

A primeira escritora a participar na rubrica será Iris Palmeirim de Alfarra, autora da obra “Shinegow”, já divulgada no Opina. Iris é uma jovem autora natural de Braga, que publicou em 2011, com apenas 18 anos, a sua primeira aventura literária que, entre outras coisas, promete continuação que dê desfecho à sua mágica narrativa.
Fig 1: Iris Palmeirim de Alfarra
Assim sendo, o Opina lança aos leitores o desafio de deixar neste nosso espaço as perguntas que gostariam de colocar à autora convidada para que a entrevista possa ser o mais rica e direccionada para o interesse dos leitores possível.

Até breve,

Opina

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

The Hobbit - The Desolation of Smaug

A saga continua. Um ano depois da primeira parte da viagem de Bilbo Baggins (Martin Freeman), sob o mote "An Unexpected Journey" ter chegado ao cinema, eis que estreia a continuação da aventura da companhia de Thorin Oakenshield (Richard Armitage) da qual para além do pequeno hobbit fazem parte treze anões (Thorin, Dwalin, Balin, Kili, Fili, Dori, Nori, Ori, Óin, Glóin, Bifur, Bofur e Bombur) e o feiticeiro Gandalf (Ian McKellen). 

Fig 1: Tauriel, Gandalf, Thorin, Radagast e Legolas
Depois da atribulada (e apenas parcialmente voluntária) travessia das Misty Mountains a companhia de Thorin tem agora que atravessar os perigos de Mirkwood, sem Gandalf, que ficou retido na investigação de estranhos rumores em Dol Guldur, antes de chegar a Erebor e retomar o reino dos anões que fora saqueado e tomado pelo dragão Smaug.

Este filme, à semelhança de "The Two Towers", o segundo capítulo da trilogia "O Senhor dos Anéis" realizada, tal como "The Hobbit", pelo neo-zelandês Peter Jackson, introduz à narrativa uma tremenda dose de adrenalina e acção após um primeiro filme que, não desprovido de actividade, era mais introdutório, mais contemplativo, mais espiritual e com um toque de misticismo como ao fim e ao cabo são os inícios de todas as grandes viagens. 

Em "The Desolation of Smaug" a constante fuga dos anões e do hobbit à feroz perseguição de Azog e dos seus orcs por Mirkwood e Esgaroth e, mais tarde, o confronto com Smaug, juntam-se a novas partes da Terra Média a que a equipa de Jackson deu vida e que farão as delícias dos aficionados das obras de John Tolkien, proporcionando aos espectadores um impressionante espectáculo visual e cénico. A banda sonora continua extremamente bem trabalhada, dando grande ênfase emotiva ao filme. 

Fig 2: Uma agradável viagem de barril, a melhor maneira de conhecer a terra média de Tolkien
Um filme fantástico, uma óptica continuação do primeiro filme e uma porta aberta para uma conclusão épica desta obra de Tolkien, prequela de "O Senhor dos Anéis".

Nuno Soares

Classificação:

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Frozen - O Reino do Gelo

Frozen foi a aposta da Disney para o natal de 2013 e não se pode dizer que tenha sido uma má aposta como mostram os mais de 544 milhões de dólares já arrecadados em bilheteiras de um filme que ainda continua em exibição. 

Fig 1: Frozen - O Reino do Gelo
Frozen foi apresentado ao público como uma comédia de aventura, animada, claro está, através de um trailer que levantava o véu sobre as personagens, o enredo e o tipo de acção que o público poderia esperar. No entanto, Frozen é um musical (algo imperceptível no trailer), algo que sem tirar mérito ao filme pode defraudar as expectativas de quem viu o filme ser anunciado como algo bem diferente. 

Mas, sendo franco, um musical animado não é algo de mau. De todo. Frozen tem um imaginário bastante interessante que gira à volta da cidade de Arendelle e das suas duas princesas Elsa e Anna. 

Elsa nasce com a fantástica capacidade de criar e manipular gelo, habilidade que desde tenra idade é encorajada a esconder dentro de si dada a sua imprevisibilidade e perigo. Após a morte dos pais Elsa herda a responsabilidade de comandar os destinos de Arendelle mas cede à pressão das suas obrigações e ao peso que carrega, revela inadvertidamente o seu poder, fere acidentalmente a irmã e foge para as montanhas geladas que rodeiam Arendelle. 

Anna empreende então uma difícil demanda para encontrar e trazer de volta a sua irmã foragida na companhia de um vendedor de gelo e da sua rena (Kristoff e Sven). 

Fig 2: Sven
A magia é uma constante como não deixa de ser habitual nos contos da Disney e Frozen conta com Olaf, um boneco de neve que quer conhecer o verão e uma multidão de trolls mágicos para enriquecerem esta obra. 

Apesar de todos estes ingredientes que adoçam a experiência de ver Frozen, o filme peca pela superficialidade do desenvolvimento do enredo e da temática que, ainda que bem escolhida, parece, por vezes, desconexa e com lapsos. A proporção musical vs aventura/humor é também ela desfasada em relação às expectativas criadas pelo trailer, sendo que na fase inicial do filme o constante recurso a falas cantadas (que nem sempre são brilhantes) é tão frequente que afecta a capacidade de o espectador gozar a temática que a Disney montou para este filme. 

Não obstante, Frozen proporciona bons momentos e a dupla Kristoff/Sven, assim como Olaf, garantem boas gargalhadas e a aventura de Anna em salvação da sua irmã Elsa imerge os espectadores nos valores Disney, juntando a uma boa dose de amizade e ternura um omnipresente final feliz.

Um filme aprazível, longe no entanto dos mais fantásticos filmes da Walt Disney. 

Nuno Soares

Classificação: 


quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Bom Natal e Feliz Ano Novo

O Opina deseja a todos os seus leitores e colaboradores um fantástico Natal e uma entrada com o pé direito em 2014. Em Janeiro estaremos de volta com mais opinações sobre a cultura que se faz em Portugal e com uma ou duas surpresas. Até lá e bom natal!

Fig 1: Feliz Natal! De preferência perto de uma lareira.

À laia de sugestão deixa-mo-vos algumas localizações (gratuitas) para a passagem de ano 2013/2014 com os respectivos cabeças de cartaz:

- Albufeira: Richie Campbell
- Almada: Projecto BUG
- Beja: Clã
- Coimbra: Anaquim
- Lisboa (casino): Amor Electro
- Lisboa (Terreiro do Paço): Herman José
- Estoril (Casino): Deolinda
- Monte Gordo: Mastiksoul, Dj Ride, David Carreira
- Ponta Delgada: Oceanus, Banda Royal
- Portimão: Dj Deelight

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Cronicas de uma viagem - Caminho de Santiago (parte X)

Cronica 10 – O dia mais comprido


Dia 11 Santiago – Vigo- Porto – Lisboa

O dia de hoje foi o mais comprido e o mais cansativo de toda a viagem. Levantei-me por volta das 8h de quinta-feira e cheguei a Lisboa um pouco antes das 6 da manhã do dia seguinte, sexta-feira. Mas indo por partes, arrisco três: i) a parte da manhã passada em Santiago, ii) a parte da viagem até Vigo e iii) a parte de Vigo ao Porto e do Porto a Lisboa com a chegada a casa.

Primeira parte – Em Santiago

Tomei um belo pequeno-almoço na esplanada do café ao lado da pensão - adoro tomar um bom pequeno-almoço, num sítio bonito, descansada e sem pressas. Deixei a mochila a guardar na pensão e sai ligeira para dar uma volta pela cidade, ir à missa do peregrino que acontece todos os dias na catedral ao meio dia e tratar das questões práticas do regresso a casa (em que transporte, a que horas e a que preço).

Santiago, agora à luz do dia, é uma cidade bonita, enfeitada com muitas flores e muito bem cuidada. Vive do turismo e faz por merecer o agrado de quem a visita. Coexistem centenas de lojas de ‘recuerdos’ vulgares (caríssimos e mais ou menos industrializados e desinteressantes) com lojas tradicionais de artigos muito bons e outras inovadoras de design artístico (e preços ainda mais proibitivos). Também é percetível um movimento artístico e cultural bem enraizado mas com novas abordagens bem interessantes.

Fig 2: Santiago
Viajar de mochila e com um orçamento muito limitado também resolve o problema das lembranças para a família e amigos – comprei o mínimo, umas fitas de Santiago tipo ‘senhor do bom fim’ para algumas pessoas com quem quero partilhar este acontecimento e umas pulseiras mais elaboradas com símbolos antigos para os mais chegados (em quase nada ainda gastei mais do que gostaria).

Um dos momentos mais bonitos que vivi neste passeio turístico por Santiago foi ficar a ouvir um músico de rua que tocava acordéon. Sentei-me num degrau e fiquei parada a ouvir a sua música nuns momentos que me lavaram a alma. Mais perto do meio-dia aproximei-me da catedral. A praça monumental, estava cheia de gente. Gente de todas as maneiras e feitios. Devoção, turismo, curiosidade…e aqueles grupos patéticos de ‘turistas de pacote’ com as inevitáveis guias de bandeirinha – deprimentes!

Entrei na catedral deviam ser umas 11 e meia e, apesar da escala ser enorme, já estava apinhada. Os confessionários em várias línguas estavam a funcionar em pleno. E as ‘relações públicas’ da igreja viam-se ‘em palpos de aranha’ para arrumar as «ovelhas», algumas acabadas de chegar da peregrinação, ainda com as mochilas. Muita gente estaria pelo pitoresco, pelo ritual, pelo espetáculo, outras pela devoção. Algumas pessoas estavam em meditação, outras com expressão de sofrimento, algumas só cansadas e outras atentas. Uns mais respeitosos do que outros. 

Gente do mundo inteiro reunida na Catedral. Que sei eu? Eu própria tinha razões paradoxais para estar ali.
Gostei particularmente das palavras da freira que iniciou a comunicação com o público e resumiu a «coisa» a uma trilogia que me fez sentido e podia ser unificadora, para além de qualquer catecismo: Fé, Esperança e Amor. Depois começou a cantar com uma voz magnífica e não deixa de ser comovente ouvir um coro de 1000 vozes entoando os cânticos. De resto, o ritual da missa é normal. Saí na parte das hóstias.

Não fiz as rotas turísticas de abraçar o santo, nem fui à tumba agradecer – já o tinha feito no altar da natureza quando senti que era a hora e não me fazia sentido voltar a fazê-lo por uma qualquer obrigação folclórica. Mas gostei de participar naquele momento da missa e, de alguma maneira, marcar o fim do Caminho, agradecendo pela possibilidade de o ter feito.

Segui para procurar comer qualquer coisa e acabei por almoçar num restaurante muito bonito perto da pensão. Ofereci-me uma refeição completa porque também já não me fazia sentido continuar a comer aquelas sandes, com sumos e fruta que tinham constituído as minhas refeições durante o caminho. Fui buscar a mochila e segui em direção à estação de comboios que ficava relativamente perto (entretanto, tinha decidido voltar de comboio porque é o transporte de que gosto mais e ficava a um preço razoável).

Cheguei à estação um pouco antes das 2h da tarde e apanhei um susto porque só vi destinos espanhóis. Será que não havia comboios para Portugal? Fui às informações e lá soube que teria que fazer o circuito Vigo-Porto-Lisboa. Comprei bilhete e esperei pela partida às 16.29h. Os intervalos de espera neste dia foram desesperantes mas estas primeiras duas horas até serviram para descansar. Apesar da sensação um pouco amarga de que tinha acabado a ‘festa’.

Segunda parte – Rewind do Caminho (viagem de comboio entre Santiago e Vigo)

O troço entre Santiago de Compostela e Vigo faz-se com conforto, num comboio do tipo TGV e dura 1h e meia. O trajeto é quase paralelo ao Caminho e deu-me uma estranha sensação de estar a rebobinar a cassete do que tinha vivido naqueles dias. Parecia que tinha entrado num túnel do tempo e que estava em ‘rewind’ a olhar para aqueles locais (a casa que parecia um castelinho, a igreja de Esclavitud, a casa de Rosália de Castro, aquele bosque, os campos de milho, a estação de Padrón…). Foi quase doloroso. Às páginas tantas, deixei de olhar pela janela porque não gostei da sensação e concentrei-me nas recordações ainda frescas que trazia do Caminho. Gostei de o fazer. Gostei de o ter acabado. Gostei de ter gerido bem o esforço e de ter feito as pazes com o meu corpo que se portou tão bem e de quem eu nem sempre cuido como devia. Gostei de ter passado férias sozinha e de ter percebido que sou boa companhia. Gostei de me ter atrevido a fazer algo diferente e que adiava há muito.

Gostei do ambiente acolhedor do Caminho, da gentileza entre os peregrinos e das palavras de ânimo e incentivo que ouvi por todo o lado. Pensei em muita coisa mas nem tudo consigo alinhar agora. Sinto que as ‘ondas de choque’ desta caminhada vão ecoar me mim por muito tempo e que provavelmente daqui para a frente vão haver coisas que ganharão novos sentidos. Embora não tenha a sensação que algumas pessoas descrevem de que ter feito o caminho lhes mudou a vida. É verdade que fiz o Caminho como uma metáfora da vida e acho que fico com a responsabilidade de não esquecer e prolongar «este espírito peregrino» pelo resto dos meus dias, esteja onde estiver. 

A estação de Vigo é feia. Fica numa zona industrial e inóspita. Felizmente está sol. O intervalo entre comboios é de quase duas horas, muito tempo de espera mas pouco tempo para dar um passeio pela cidade, sobretudo quando se tem uma mochila às costas. Leio uma revista que comprei, escrevo umas notas soltas, vou pedir para carregar o telemóvel no café da estação (tem a bateria viciada e descarrega com facilidade, sobretudo depois de o usar para tirar umas fotos) e fico a ver TV enquanto espero. Nestes locais, a televisão ocupa um lugar estupidamente central. 

Lá, como cá, notícias da crise, manifestações de descontentamento, empobrecimento progressivo das populações, cortes nas reformas, dramas pessoais – uma mãe com 6 filhos que se suicidou aparentemente por dificuldades financeiras. Estas notícias fazem disparar ‘o meu botão’ de Assistente Social entalado entre um compromisso com o desenvolvimento das pessoas, uma empatia terapêutica, uma postura de ajuda à realização do potencial de cada um e o lado do compromisso social com um modelo de sociedade mais justa e mais respeitosa dos direitos humanos. Que não pode ser esta sociedade neoliberal e capitalista em que estamos agora.

Revolta ou transição pacífica? Conformidade ou dissidência? Adaptação ou reinvenção? Estas são algumas das dualidades que ainda não consigo ultrapassar.

Terceira parte – De volta a casa (viagem de comboio entre Vigo, Porto e Lisboa)

Fiz esta viagem entre as oito da tarde com saída de Vigo já num velho comboio português, as 21.00, hora a que cheguei à estação de Campanhã (Primeiro ainda pensei dormir a noite no Porto mas fiz contas à vida e achei que era pouco tempo para o dinheiro que iria gastar; por isso decidi seguir viagem até Lisboa), a longa espera de quase 5h em Campanhã e o regresso a Lisboa num comboio velho e tremeliquento.

A viagem de Vigo ao Porto ainda foi simpática. Tinha ao meu lado uma família com crianças que se fartaram de conversar e fazer jogos – de vez em quando não podia deixar de sorrir com a traquinice das meninas. E uma hora passa num instante. Pude apreciar um belo pôr-do-sol e o nascimento de uma enorme lua cheia que coincidiram com a passagem do rio Minho. Depois, de Valença ao Porto passei por terras e terrinhas com nomes inusitados que não conhecia mas já era noite e acabei por desligar da paisagem e ficar a ler a minha revista.

Chegada a Campanhã aguardava-me a pior espera do caminho: cinco longas horas. Fiz de tudo, comi, andei de um lado para o outro, fui à casa de banho, fumei uns cigarritos, li as revistas, fiz palavras cruzadas, olhei as pessoas, ouvi as conversas e …desesperei. Quem me conhece sabe que eu tenho hora de Cinderela, à meia-noite começo a transformar-me numa abóbora – e foi isso que aconteceu, travei uma luta enorme com o sono e isso cansou-me muito.

Fig 3: Ferrovia, Porto
Só o bom vernáculo nortenho que se ouvia por todo o lado (nas conversas dos taxistas parados em frente da estação, na boca de uma rapariga tipo ‘top model de discoteca de alterne para bimbos endinheirados’, na conversa de um senhor de meia-idade que veio largar uma pré adolescente à estação, nas conversas de 3 jovens amigos com ar de estudantes universitários que jogavam com os seus portáteis…) ajudou-me a manter o estado de alerta.

No entanto, entre a uma da manhã e as cinco e meia, que foi o período da viagem até Lisboa, já estava em estado vegetativo. O comboio seguiu com pouca gente mas foram subindo bastantes pessoas pelo caminho, sobretudo homens jovens que aproveitavam os três bancos em linha e sem apoio de braços para se deitarem. Eu não me atrevi. Doíam-me as pernas da imobilidade. Ainda me descalcei durante um período. Dormitei mas em modo alerta. Comecei a achar que não cheirava muito bem (devia ser da roupa porque tomei banho). Tive frio. Finalmente Lisboa. 

Fig 4: Lisboa
A S. tinha insistido em vir-me buscar, se bem que eu lhe tenha dito que não valia a pena, que poderia apanhar um táxi até Sete Rios onde tinha deixado o carro. Na chegada a Sta. Apolónia estava um delicioso cheiro a bolos quentes no ar, apesar de não haver nenhum café aberto. Da S., nem sombra (tinha adormecido e vinha a caminho). E pronto, lá estava eu, sentada nas escadas da estação de Sta. Apolónia com mochila às costas, ar de sem abrigo e meia bêbada de sono. A cidade estava naquela transição entre as criaturas da noite e a alvorada, que trazia novas criaturas para habitar o dia. 

Chegou a minha boleia e fomos comer qualquer coisa quente em Santos e meter a conversa em dia. Mas eu estava exausta e sou fraca contadora de histórias. Preciso de dormir. Preciso de recuperar desta direta. Preciso de processar lentamente esta viagem…

Isabel Passarinho

domingo, 15 de dezembro de 2013

1000 visualizações!

O Opina atingiu o marco das 1000 visualizações no passado dia 11 de Dezembro!

A todos os nossos leitores, aos autores e aos que continuam a criar e a divulgar cultura um muito obrigado!

Continuem a opinar connosco!


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Cronicas de uma viagem - Caminho de Santiago (parte IX)

Cronica 9 – O meu caminho e o caminho dos outros

Dia 10 –Padron/Santiago

Manhã fresca. Dormi bem e acordei cheia de energia. Quando fui tomar o pequeno-almoço na sala comum do albergue encontrei o gnomo. Deu-me um sonoro ‘bom dia!’, informou que depois de Santiago seguiria para Finisterra por uma jornada de mais dois ou três dias. Pediu para tirar uma foto comigo. Perguntei-lhe sobre os albergues até Santiago e ele mostrou-se conhecedor e preciso, sugerindo um que ficava a cerca de 4km da cidade e um seminário em Santiago – despediu-se desejando Bom caminõ!

Partilhei o meu pequeno-almoço com as duas jovens de leste (as mesmas que ontem se despediam com muita nostalgia de um belo moço português) – despedi-me delas desejando Bom caminõ! Depois, quando saí, ainda de noite cerrada, outros peregrinos partilharam comigo a luz das lanternas para iluminar o caminho até amanhecer. Quando começou a clarear o dia aceleraram o passo (ou eu desacelerei) e desejaram Bom caminõ!

A primeira paragem foi feita após 6 Km num café em Esclavitud (que raio de nome para uma terra) onde já estavam vários peregrinos. Entrei com a Sílvia, de Madrid, que tinha encontrado um pouco antes e que me disse que estava aflita com bolhas nos pés. Encontrei também as 3 fininhas de leste (afinal eram da Estónia) que comem como ursos e que já estavam no café; vieram pedir para tirar fotos connosco porque queriam ficar com uma recordação. Estive um pouco à conversa com a Sílvia que me disse que não sabia se conseguia chegar a pé a Santiago mas ia voltar para Madrid de avião porque a Ibéria tinha um desconto significativo para peregrinos e bastava apresentar a credencial. Nesta altura ainda não tinha decidido como voltaria para casa e fiquei a pensar na possibilidade de voltar de avião, mas não me preocupei muito, de avião, de autocarro ou de comboio, logo veria. Na saída do café retardei o passo para acompanhar a espanhola até entrar na imponente igreja de Esclavitud. 

[Não tenho ligado muito aos carimbos da caderneta de peregrino e só ali é que percebi que os peregrinos também vão carimbar nas igrejas. Até ali carimbei apenas nos albergues, em alguns cafés de que gostei mais e ontem fui carimbada por uma brigada da proteção civil que encontrei pelo caminho]

Depois de sairmos da igreja deixei-me ficar a acompanhar a Sílvia que andava a muito custo. Mas ela própria me pediu para seguir ao meu passo reforçando o que se diz por aqui, que ‘cada um faz o seu caminho’. Apesar de me fazer sentido é uma postura nova para mim e fico a pensar no meu caminho e no caminho de outros. Tenho ainda aquela coisa entranhada de «ajudar». Mas, bem vistas as coisas, cada um faz mesmo o seu caminho. Embora isso não seja entendido como um ato individualista ou egoísta, é um caminho em interação, só que realmente é de cada um, é a metáfora da vida de cada um – no meu caso não gostaria que alguém traçasse o caminho para mim, abdicasse do seu caminho para fazer o meu (ou me pedisse o inverso) ou me dissesse em que passo o deveria fazer.

Pelo caminho paro muito. Sempre que me sinto cansada e encontro um lugar simpático, paro. Quando me apetece petisco qualquer coisa (normalmente fruta fresca ou seca) ou escrevo. Em algumas paragens descalço-me, tiro as meias, ponho creme nos pés e deixo-os arejar. Depois ponho meias lavadas, volto a calçar-me e aguento mais um troço.[Estes pequenos cuidados, muito creme hidratante e a alternância entre dois pares de calçado têm sido as técnicas usadas para evitar ter bolhas nos pés e até agora tem resultado a 100%]

Fig 2: A caminho de Santiago de Compostela
Quando iniciei esta etapa pensei ficar no albergue que o gnomo me tinha indicado a cerca de 4Km de Santiago e chegar à cidade amanhã, mais fresca e descansada. Mas fui andando, andando e começando a ficar muito cansada, ligo o piloto automático e deixo de raciocinar. Vi algumas indicações de albergues pelo caminho mas como implicavam desvios, não liguei e foi prosseguindo. São 24 Km nesta etapa, num percurso nem sempre fácil e com várias subidas acentuadas, em especial na aproximação à cidade de Santiago.

Passei Milladoiro, a primeira localidade verdadeiramente suburbana que encontrei, sem graça, cinzenta, com os arruamentos em obras, com grandes aglomerados- dormitório, espaços comerciais, um polidesportivo, um grande infantário modernaço (com movimento de saída de crianças a chorar como leitões para a matança, arrastadas por mães gordas e sem paciência  - o eco daqueles choros ficaram-me na cabeça durante muito tempo). Pouco depois desta localidade, avista-se Santiago.

O momento foi partilhado, por acaso (suponho eu) com as fininhas da Estónia que gritaram, bateram palmas e tiraram fotografias. Mas depois do avistamento onde a cidade aparece relativamente perto, o caminho dá voltas e mais voltas num trajeto sinuoso até chegar finalmente ao centro da cidade.

É particularmente difícil a subida para a cidade, por estradas e depois, por ruas que parecem não ter fim. Fiquei com a sensação de que a entrada se faz pelo lado de trás da cidade porque não se vê a catedral, nem o centro histórico. Ao mesmo tempo soma-se o desconforto de entrar numa cidade a meio da tarde, suada, cansada, cheia de pó e, provavelmente, a cheirar mal. Quando perdi as setas amarelas estava numa praça e não sabia que direção tomar. Na dúvida e muito cansada, sentei-me numa esplanada e pedi o de sempre: dois sumos de melocoton e um café solo.

Fig 3: Santiago de Compostela
Aproveitei o descanso para olhar em volta. O café com ar de bistrô francês chama-se Rosália Castro, a escritora venerada por aqui (passei ao lado da sua casa-museu em Padrón). Foquei-me nas pessoas que passavam: bem vestidas, apressadas, muitas com cara fechada e com olhar ausente, como se fossem máquinas. 

Estranhei. Durante o caminho tinha-me habituado a ver a maioria das pessoas de caras abertas que saudavam à passagem, esboçavam sorrisos e desejavam ‘bom caminho’. Quase me esqueci que a vida era assim, cheia de dormências e de defesas para nos entreter o tempo de vida em jogos de ‘papeis’ que não nos fazem felizes. Corridas e aparências para lado nenhum. Na verdade «eu sou mais campo» (como aquela private joke que diz ‘eu sou mais bolos») e preciso de ir procurando alguns sentidos para a vida. Claro que, quando estou do outro lado, ou seja, disfarçada de citadina, também devo ter o mesmo ar ausente e alheado. O tempo ficou enevoado e começou a cair uma chuva miudinha.

Perguntei ao jovem empregado de mesa pela Catedral e pelo Seminário Menor, o albergue de que o gnomo me falara, mas não me fiz entender e ele respondeu qualquer coisa, que eu também não entendi. Quando a chuva parou e eu me senti mais restabelecida pus-me a caminho. Á toa porque não voltei a ver as setas, segui a intuição (ou lá o que seja) e fui dar com o Campus Universitário. É curioso não achar a catedral numa cidade como esta e achar a universidade – dá que pensar. Talvez porque a relação com o conhecimento tem maior peso na minha vida do que a espiritualidade ou talvez por acaso. Sei lá.

Passei num parque urbano com a sensação de que estava a dar uma volta redonda. Perguntei pela catedral a uma senhora e ela deu-me a indicação. Estava perto. Mais uns minutos e avistei-a – imponente. Impossível de passar despercebida. Afinal tinha dado uma volta, por fora, ao centro histórico e não encontrei a tradicional entrada do caminho português, a Porta Faxeira. Agora que estava localizada, era preciso pensar em alojamento. O cansaço não permite grandes buscas e opto por uma pensão que me parece com bom ar numa envolvente simpática (31.00€ pela noite é um preço possível).
Fig 4: Catedral de Santiago
Quase ao pé fica o Instituto profissional de S. Clemente, numas instalações conventuais recuperadas e pelos jovens que circulam nas imediações, deduzo que deve ser uma escola profissional de segunda oportunidade para jovens com percursos mais difíceis. Penso no meu filho G. e na sua relação desastrada (ou desastrosa) com a educação e nas coincidências do que me surge no caminho – tenho a certeza de que, apesar do traçado do Caminho Português ser só um, o caminho tem desafios diferentes consoante as pessoas e cada peregrino fará as suas próprias associações e interpretações.

Depois de um bom banho e muito creme, deitei-me e adormeci. Acordei pelas cinco horas da tarde e obriguei-me a ir à rua (se tivesse feito a vontade ao corpo teria ficado a dormir). Começava a ficar escuro e chuviscava. As ruas do centro histórico estavam repletas de gente e muito animadas. Atuações musicais, esplanadas cheias, gente de todo o mundo nesta cidade que é património da humanidade e que faz por merecer a distinção, está cuidada, investida, preparada para receber os visitantes. Fui à majestosa praça da catedral, entrei na catedral e sai num registo de instantâneo fotográfico. Não ia com uma intenção precisa, estava apenas a dar uma volta de reconhecimento porque já não me lembrava da cidade e … encontrei o gnomo. Perguntou-me se estava sozinha e se queria ir tomar algo com ele. Concordei e fomos andando por aquelas ruas e conversando.

O gnomo é um expert (diz que faz o caminho à 12 anos, que não liga à igreja e que é sobretudo para treinar as pernas, para gerir o stress e para conhecer pessoas de todo o mundo) e aconselhou-me logo a ir aos Serviços do Peregrino (habitualmente com filas de várias horas) carimbar o passaporte e buscar a ‘Compostela’ – uma espécie de certificado da viagem. Aproveitei o guia e lá fui carimbar o Passaporte (é recomendado que seja carimbado em todas as paragens do caminho) e receber a Compostela -passada apenas aos peregrinos que tenham feito pelo menos 100 km a andar ou 200 Km de bicicleta ou a cavalo.

Depois escolhemos uma esplanada numa artéria animada ao lado de um teatro e pedimos 2 copos de vinho para fazer uma saúde – ele escolheu um Rioja muito agradável e nada caro (pagámos apenas €2,00 cada um por um copo de balão bem fornecido). Brindámos ao caminho e à vida, com o inevitável desejo de saúde para nós e para «os nossos».

O gnomo gosta de falar: é um homem rústico, vive numa vila de montanha lá para os lados de Alicante, numa terra cujo nome não fixei, que tem 2000 habitantes e onde toda a gente se conhece. Planta a sua horta e, pelo que percebi, está reformado. Vai prosseguir o caminho até Finisterra e de lá vai a Vigo ver um jogo de futebol – conta que uma das estrelas da equipa é um jovem seu conterrâneo que lhe ofereceu o bilhete para o jogo e que faz muito gosto, sobretudo porque gosta do rapaz e enaltece-lhe as qualidades de não ficar envaidecido com o sucesso e ajudar a família.

Este foi um dos encontros improváveis que o caminho proporciona - não gosto de fazer perguntas sobre a vida dos outros nem de falar de mim, por isso depois de trocarmos umas generalidades, a conversa esgotou-se. Começou a chover com maior intensidade e despedimo-nos com votos sinceros de continuação de bom caminho. Cada um seguiu em direções opostas.

São 21h. Estou no quarto de uma simpática pensão em Santiago de Compostela e antes de dormir penso nesta aventura e no quanto ter feito o caminho me iluminou as ideias? Ou as deixou mais claras? Ou ajudou a tomar decisões? O que é que eu ganhei com esta viagem? Hoje está claro que o meu projeto, qualquer que ele seja, tem de ter raízes em contexto rural e que os velhos e os deficientes estão no meu caminho… mas isto eu já sabia. Pronto, não vou tirar mais ilações… Estou cheia de sono.

Isabel Passarinho

(continua...)