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domingo, 15 de dezembro de 2013
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
Cronicas de uma viagem - Caminho de Santiago (parte IX)
Cronica 9 – O meu caminho e o caminho dos outros
Dia 10 –Padron/Santiago
Manhã fresca. Dormi
bem e acordei cheia de energia. Quando fui tomar o
pequeno-almoço na sala comum do albergue encontrei o gnomo. Deu-me um sonoro
‘bom dia!’, informou que depois de Santiago seguiria para Finisterra por uma
jornada de mais dois ou três dias. Pediu para tirar uma foto comigo. Perguntei-lhe sobre
os albergues até Santiago e ele mostrou-se conhecedor e preciso, sugerindo um
que ficava a cerca de 4km da cidade e um seminário em Santiago – despediu-se
desejando Bom caminõ!
Partilhei o meu
pequeno-almoço com as duas jovens de leste (as mesmas que ontem se despediam
com muita nostalgia de um belo moço português) – despedi-me delas desejando Bom
caminõ! Depois, quando saí, ainda de noite cerrada, outros peregrinos partilharam
comigo a luz das lanternas para iluminar o caminho até amanhecer. Quando começou
a clarear o dia aceleraram o passo (ou eu desacelerei) e desejaram Bom caminõ!
A primeira paragem
foi feita após 6 Km num café em Esclavitud (que raio de nome para uma terra)
onde já estavam vários peregrinos. Entrei com a Sílvia, de Madrid, que tinha
encontrado um pouco antes e que me disse que estava aflita com bolhas nos pés.
Encontrei também as 3 fininhas de leste (afinal eram da Estónia) que comem como
ursos e que já estavam no café; vieram pedir para tirar fotos connosco porque
queriam ficar com uma recordação. Estive um pouco à
conversa com a Sílvia que me disse que não sabia se conseguia chegar a pé a
Santiago mas ia voltar para Madrid de avião porque a Ibéria tinha um desconto
significativo para peregrinos e bastava apresentar a credencial. Nesta altura
ainda não tinha decidido como voltaria para casa e fiquei a pensar na
possibilidade de voltar de avião, mas não me preocupei muito, de avião, de
autocarro ou de comboio, logo veria. Na saída do café retardei o passo para acompanhar a
espanhola até entrar na imponente igreja de Esclavitud.
[Não tenho ligado
muito aos carimbos da caderneta de peregrino e só ali é que percebi que os
peregrinos também vão carimbar nas igrejas. Até ali carimbei apenas nos
albergues, em alguns cafés de que gostei mais e ontem fui carimbada por uma
brigada da proteção civil que encontrei pelo caminho]
Depois de sairmos da
igreja deixei-me ficar a acompanhar a Sílvia que andava a muito custo. Mas ela
própria me pediu para seguir ao meu passo reforçando o que se diz por aqui, que
‘cada um faz o seu caminho’. Apesar de me fazer
sentido é uma postura nova para mim e fico a pensar no meu caminho e no caminho
de outros. Tenho ainda aquela coisa entranhada de «ajudar». Mas, bem vistas as
coisas, cada um faz mesmo o seu caminho. Embora isso não seja
entendido como um ato individualista ou egoísta, é um caminho em interação, só
que realmente é de cada um, é a metáfora da vida de cada um – no meu caso não
gostaria que alguém traçasse o caminho para mim, abdicasse do seu caminho para
fazer o meu (ou me pedisse o inverso) ou me dissesse em que passo o deveria
fazer.
Pelo caminho paro
muito. Sempre que me sinto
cansada e encontro um lugar simpático, paro. Quando me apetece petisco qualquer
coisa (normalmente fruta fresca ou seca) ou escrevo. Em algumas paragens
descalço-me, tiro as meias, ponho creme nos pés e deixo-os arejar. Depois ponho
meias lavadas, volto a calçar-me e aguento mais um troço.[Estes pequenos cuidados,
muito creme hidratante e a alternância entre dois pares de calçado têm sido as
técnicas usadas para evitar ter bolhas nos pés e até agora tem resultado a
100%]
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| Fig 2: A caminho de Santiago de Compostela |
Quando iniciei esta
etapa pensei ficar no albergue que o gnomo me tinha indicado a cerca de 4Km de
Santiago e chegar à cidade amanhã, mais fresca e descansada. Mas fui andando,
andando e começando a ficar muito cansada, ligo o piloto automático e deixo de
raciocinar. Vi algumas indicações
de albergues pelo caminho mas como implicavam desvios, não liguei e foi
prosseguindo. São 24 Km nesta
etapa, num percurso nem sempre fácil e com várias subidas acentuadas, em
especial na aproximação à cidade de Santiago.
Passei Milladoiro, a
primeira localidade verdadeiramente suburbana que encontrei, sem graça,
cinzenta, com os arruamentos em obras, com grandes aglomerados- dormitório,
espaços comerciais, um polidesportivo, um grande infantário modernaço (com
movimento de saída de crianças a chorar como leitões para a matança, arrastadas
por mães gordas e sem paciência - o eco
daqueles choros ficaram-me na cabeça durante muito tempo). Pouco depois desta
localidade, avista-se Santiago.
O momento foi
partilhado, por acaso (suponho eu) com as fininhas da Estónia que gritaram,
bateram palmas e tiraram fotografias. Mas depois do avistamento onde a cidade
aparece relativamente perto, o caminho dá voltas e mais voltas num trajeto
sinuoso até chegar finalmente ao centro da cidade.
É particularmente
difícil a subida para a cidade, por estradas e depois, por ruas que parecem não
ter fim. Fiquei com a sensação de que a entrada se faz pelo lado de trás da
cidade porque não se vê a catedral, nem o centro histórico. Ao mesmo tempo
soma-se o desconforto de entrar numa cidade a meio da tarde, suada, cansada, cheia
de pó e, provavelmente, a cheirar mal. Quando perdi as setas amarelas estava numa praça e não
sabia que direção tomar. Na dúvida e muito cansada, sentei-me numa esplanada e
pedi o de sempre: dois sumos de melocoton e um café solo.
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| Fig 3: Santiago de Compostela |
Aproveitei o descanso
para olhar em volta. O café com ar de bistrô francês chama-se Rosália Castro, a
escritora venerada por aqui (passei ao lado da sua casa-museu em Padrón). Foquei-me nas pessoas
que passavam: bem vestidas, apressadas, muitas com cara fechada e com olhar ausente,
como se fossem máquinas.
Estranhei. Durante o
caminho tinha-me habituado a ver a maioria das pessoas de caras abertas que
saudavam à passagem, esboçavam sorrisos e desejavam ‘bom caminho’. Quase me
esqueci que a vida era assim, cheia de dormências e de defesas para nos
entreter o tempo de vida em jogos de ‘papeis’ que não nos fazem felizes. Corridas
e aparências para lado nenhum. Na verdade «eu sou
mais campo» (como aquela private joke que diz ‘eu sou mais bolos») e preciso de
ir procurando alguns sentidos para a vida. Claro que, quando estou do outro
lado, ou seja, disfarçada de citadina, também devo ter o mesmo ar ausente e
alheado. O tempo ficou
enevoado e começou a cair uma chuva miudinha.
Perguntei ao jovem
empregado de mesa pela Catedral e pelo Seminário Menor, o albergue de que o
gnomo me falara, mas não me fiz entender e ele respondeu qualquer coisa, que eu
também não entendi. Quando a chuva parou
e eu me senti mais restabelecida pus-me a caminho. Á toa porque não voltei a
ver as setas, segui a intuição (ou lá o que seja) e fui dar com o Campus Universitário. É curioso não achar a
catedral numa cidade como esta e achar a universidade – dá que pensar. Talvez
porque a relação com o conhecimento tem maior peso na minha vida do que a
espiritualidade ou talvez por acaso. Sei lá.
Passei num parque
urbano com a sensação de que estava a dar uma volta redonda. Perguntei pela
catedral a uma senhora e ela deu-me a indicação. Estava perto. Mais
uns minutos e avistei-a – imponente. Impossível de passar despercebida. Afinal
tinha dado uma volta, por fora, ao centro histórico e não encontrei a
tradicional entrada do caminho português, a Porta Faxeira. Agora que estava
localizada, era preciso pensar em alojamento. O cansaço não permite grandes
buscas e opto por uma pensão que me parece com bom ar numa envolvente simpática
(31.00€ pela noite é um preço possível).
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| Fig 4: Catedral de Santiago |
Quase ao pé fica o
Instituto profissional de S. Clemente, numas instalações conventuais
recuperadas e pelos jovens que circulam nas imediações, deduzo que deve ser uma
escola profissional de segunda oportunidade para jovens com percursos mais difíceis. Penso no meu filho
G. e na sua relação desastrada (ou desastrosa) com a educação e nas
coincidências do que me surge no caminho – tenho a certeza de que, apesar do
traçado do Caminho Português ser só um, o caminho tem desafios diferentes
consoante as pessoas e cada peregrino fará as suas próprias associações e
interpretações.
Depois de um bom
banho e muito creme, deitei-me e adormeci. Acordei pelas cinco horas da tarde e
obriguei-me a ir à rua (se tivesse feito a vontade ao corpo teria ficado a
dormir). Começava a ficar
escuro e chuviscava. As ruas do centro
histórico estavam repletas de gente e muito animadas. Atuações musicais,
esplanadas cheias, gente de todo o mundo nesta cidade que é património da
humanidade e que faz por merecer a distinção, está cuidada, investida,
preparada para receber os visitantes. Fui à majestosa praça
da catedral, entrei na catedral e sai num registo de instantâneo fotográfico. Não
ia com uma intenção precisa, estava apenas a dar uma volta de reconhecimento
porque já não me lembrava da cidade e … encontrei o gnomo. Perguntou-me se
estava sozinha e se queria ir tomar algo com ele. Concordei e fomos andando por
aquelas ruas e conversando.
O gnomo é um expert (diz
que faz o caminho à 12 anos, que não liga à igreja e que é sobretudo para
treinar as pernas, para gerir o stress e para conhecer pessoas de todo o mundo)
e aconselhou-me logo a ir aos Serviços do Peregrino (habitualmente com filas de
várias horas) carimbar o passaporte e buscar a ‘Compostela’ – uma espécie de
certificado da viagem. Aproveitei o guia e
lá fui carimbar o Passaporte (é recomendado que seja carimbado em todas as
paragens do caminho) e receber a Compostela -passada apenas aos peregrinos que
tenham feito pelo menos 100 km a andar ou 200 Km de bicicleta ou a cavalo.
Depois escolhemos uma
esplanada numa artéria animada ao lado de um teatro e pedimos 2 copos de vinho
para fazer uma saúde – ele escolheu um Rioja muito agradável e nada caro (pagámos
apenas €2,00 cada um por um copo de balão bem fornecido). Brindámos ao caminho
e à vida, com o inevitável desejo de saúde para nós e para «os nossos».
O gnomo gosta de
falar: é um homem rústico, vive numa vila de montanha lá para os lados de
Alicante, numa terra cujo nome não fixei, que tem 2000 habitantes e onde toda a
gente se conhece. Planta a sua horta e, pelo que percebi, está reformado. Vai
prosseguir o caminho até Finisterra e de lá vai a Vigo ver um jogo de futebol –
conta que uma das estrelas da equipa é um jovem seu conterrâneo que lhe
ofereceu o bilhete para o jogo e que faz muito gosto, sobretudo porque gosta do
rapaz e enaltece-lhe as qualidades de não ficar envaidecido com o sucesso e
ajudar a família.
Este foi um dos encontros
improváveis que o caminho proporciona - não gosto de fazer perguntas sobre a
vida dos outros nem de falar de mim, por isso depois de trocarmos umas
generalidades, a conversa esgotou-se. Começou a chover com maior intensidade e despedimo-nos
com votos sinceros de continuação de bom caminho. Cada um seguiu em direções
opostas.
São 21h. Estou no
quarto de uma simpática pensão em Santiago de Compostela e antes de dormir
penso nesta aventura e no quanto ter feito o caminho me iluminou as ideias? Ou as
deixou mais claras? Ou ajudou a tomar decisões? O que é que eu ganhei com esta
viagem? Hoje está claro que o
meu projeto, qualquer que ele seja, tem de ter raízes em contexto rural e que
os velhos e os deficientes estão no meu caminho… mas isto eu já sabia. Pronto, não vou tirar
mais ilações… Estou cheia de sono.
Isabel Passarinho
(continua...)
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Cronicas de uma viagem - Caminho de Santiago (parte VIII)
Cronica 8 – Agradecer
Dia 9 – Caldas dos Reis/Padron
Ontem temi a chuva
mas a madrugada estava bonita e até aqui foi uma festa para os sentidos,
caminhar por bosques, ao lado de rios de leitos suaves, com vegetação tenra e
frondosa, a ver a luz da alvorada nos prados numa sucessão de pequenos lugares: Lavandeira, Rego dos Fornos, Santa Marina de Carracedo, Gorgillon,
Casalderrique. Já fiz uns bons
quilómetros. São 9h em Portugal e
10h em Espanha.
Parei um pouco
retirada do Caminho para fazer uma necessidade fisiológica e na volta,
aproveitei para fumar um cigarro e escrever um pouco. Depois passei para a
estrada nacional e perdi-me das setas, mais uma vez. Quando achei que já
era caminho a mais em estrada, entrei num café e a senhora deu-me indicações
para voltar ao caminho que passava quase ao lado. [Se me lembrar das
vezes em que me perdi associo sempre a estes malditos troços de estrada
nacional. Circular a pé por esta estrada faz parecer que os carros viajam em
teletransporte dando uma noção de velocidade completamente diferente da que se
tem ao volante de um carro].
Confiro o restante
itinerário do caminho que passa duas serras altas e três rios (Bermana, Valga e
Vila): Casal de Eirigo, Pino, San Miguel de Valga, Fontelo, Condile, Infesta,
Herbon, Pontecesures e Padron. Acabei de descer uma das serras, passando
sempre por dentro de bosques frondosos e cheios de sombra, com árvores
seculares - o percurso era tão intensamente belo que me comoveu e senti-me
verdadeiramente agradecida: à vida que me permite ter esta experiência, ao
planeta, aos homens que ainda não estragaram tudo, aos romanos que fizeram esta
estrada e a todos os que têm preservado este caminho. Agradeci também a todos
que tenho encontrado, peregrinos e habitantes locais, pelo ânimo, pelo
incentivo e pelo espírito positivo que me permitiu confiar na minha capacidade
de fazer o caminho.
Este sentimento de
gratidão é algo que eu aprendi a reconhecer e que se manifesta sobretudo na
contemplação de espaços naturais. Não é nada religioso, pensado ou planeado. É
apenas um sentimento que se instala e me faz agradecer. Cheguei ao albergue
por volta das 13h espanholas. Está muito bem equipado e fica num edifico
antigo, recuperado a preceito e situado ao lado de uma Igreja imponente (Igreja
del Carmen) e de um convento.
| Fig 2: Padron |
Fiz as rotinas do
costume e fui dar uma volta pela vila – outra terra bonita, com um troço de rio
reto que a atravessa e uma zona histórica bem preservada. A minha intenção era compensar-me
do esforço da caminhada comendo um Kebab com batatas fritas numa esplanada que
tinha visto ao chegar, mas o estabelecimento estava fechado e só reabria às
18h. Fui passear sem
grande vontade. Muito comércio estava fechado pelo horário de sesta mas também
se notavam os sinais da crise, como por cá. Sem disposição,
passei por um supermercado para abastecimento.
Regressei ao albergue
e comi sozinha, uma tortilha e fruta. Depois voltei a sair.
Também não me apetece dormir.
Arrasto-me de sítio
para sítio, do sol para a sombra, da sombra para o sol mas não estou bem em
lugar nenhum. Estou inquieta. Desde ontem à noite
que tenho a cabeça cheia de aborrecimentos pessoais, que chegaram pelo
telefone. Deixei para trás alguns problemas familiares e outros, coloquei-os
entre aspas na esperança de que encontre formas novas de lidar com eles ou que
deixem de me importar.
Quando eram 6 e tal
da tarde rumei ao kebab mas em terra de marisco foi uma opção menor. Soube-me bem, estava
bom, ainda conversei com o gnomo que passou na esplanada mas quando cheguei ao
albergue, o cheiro que vinha da cozinha era muito tentador: dois portugueses
jovens fizeram arroz de marisco e as 3 mulheres magríssimas de leste tinham um
verdadeiro banquete, com uma cataplana de mariscos, uma salada e muitas frutas. É nestas alturas que
eu lamento ser «bicho-do-mato» e ganhar peso com facilidade. A primeira
característica impediu-me de meter conversa com os conterrâneos e partilhar o
jantar deles e a segunda fez-me olhar com uma certa inveja para aquelas 3 almas
de leste estão sempre a comer e são escandalosamente magras. Não me parece nada
justo!
Fui assistir à missa
na tal igreja monumental que ficava ao lado do albergue. Meio por acaso. Estava a apreciar a
vista fantástica do átrio frontal quando percebi que a porta estava aberta.
Entrei, apreciei a igreja e acabei por ficar na missa. Estavam poucas
pessoas e algumas eram peregrinas. O padre era velhote e eu não percebia tudo o
que ele dizia. Aproveitei o ambiente e pensei em mim, na vida e nos outros que
me povoam os afetos. Acabou por ser um momento de meditação e paz interior que
me soube muito bem. Na saída, olho para o
cruzeiro ao pé do albergue com uma virgem e um menino (as cruzes dos cruzeiros
no Caminho estão cheias de figuras de pedra) e penso na maternidade, essa
condição simultaneamente fabulosa e ‘incurável’ que nos faz passar pelas maiores
alegrias e também por dores muito profundas…e penso também em como seria bom se
existissem milagres. Vou dormir.
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| Fig 3: Albergue de Padrón |
Antes de adormecer
ainda ouço algumas despedidas entre peregrinos mais jovens que se conheceram no
Caminho. E sinto a nostalgia de estar quase a terminar – amanhã será a última
etapa. Mas não me sinto capaz de balanços.
Isabel Passarinho
(continua...)
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
Cronicas de uma viagem - Caminho de Santiago (parte VII)
Cronica 7 – A pé é tudo muito longe
Dia 8 – Barro/Caldas dos Reis
Fiz uma etapa de
aproximadamente 14 Km até Caldas dos Reis, num percurso por San Mauro, Rio
Agra e Briallos. A estrada romana segue pelo meio dos campos, quase sempre em
trajetos planos – o que também tem um efeito restabelecedor (…ainda acuso o
desgaste da etapa de ontem nos pés e na anca).
Este traçado
silvestre, alterna depois com a passagem por muitas aldeias e pelas suas zonas
circundantes com os campos mais cultivados, alternando com zonas florestadas. Dormi bem – o tempo
refrescou e a camarata tinha menos pessoas, o que também favoreceu a noite
retemperadora. A cereja em cima do bolo foi haver pequeno-almoço; o inesperado
‘presente’ soube mesmo muito bem e acabei por deixar registado o meu agrado no
livro do albergue.
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| Fig 2: Caldas de Reis |
Na primeira parte do
caminho não se vê vivalma, nem peregrinos, nem locais nem um café. Omnipresentes só os
corvos/gralhas com o seu piar um pouco lúgubre… Provavelmente a maior
parte dos peregrinos ficou em Pontevedra o que me deu um avanço de
aproximadamente 10Km. Já a manhã ia bem adiantada quando passaram por mim os
primeiros peregrinos ‘conhecidos’, o homem com ar de segurança e a mulher mais
velha, os 3 homens língua-de-trapos que me ajeitaram a vieira, o companheiro
gnomo da Alice de Málaga sem ela e dois jovens que me pareceram do leste
europeu… [Eram lindos de
morrer, umas verdadeiras obras da arte. Soube mais à frente, quando finalmente
encontrei um café onde eles também foram, que um é Arménio e fala italiano e o
outro é russo e fala razoavelmente bem o espanhol]
Diverti-me com o ar
espantado com que alguns peregrinos ‘conhecidos’ olhavam para mim nos primeiros
encontros, provavelmente surpresos por me encontrarem à frente (normalmente
fico para trás porque vou em passo mais lento e descanso muito) e fantasiei que
se lembravam da história da lebre e da tartaruga.
Ao mesmo tempo,
gostei que esta etapa fosse mais solitária - cruzei –me com pouca gente e os
habitantes locais estavam ocupados, sobretudo a trabalhar nos campos, não dando
muitas vezes pela minha passagem – o que não mau. Sentia-me desconfortável com
a indumentária (as calças da Quetcha não secaram e vesti umas legings pretas,
tinha umas botas de cabedal curtas cobertas de pó, uma t-shirt branca comprida,
um casaco polar cinzento e uma echarpe lilás – imagine-se esta indumentária
numa estrutura baixa e rechonchuda …) e apetecia-me ser invisível [ou transparente,
como dizia uma professora deprimida].
A questão do
«embrulho» tem a sua importância. Se é verdade que viajar com o mínimo de
bagagem obriga a um maior despojamento, também tem sido verdade que às vezes é
despojamento a mais. Apesar de estar lavada e de estar numa rota de peregrinos
senti-me, em algumas circunstâncias, com ar de pessoa sem-abrigo. Claro que isto são
tudo inseguranças e estereótipos; mas pensei muito na importância que se
atribui às aparências e à leitura superficial dos outros, nos julgamentos,
naquele jeito provinciano de ser … Tenho pensado também
nas minhas certezas e nas respostas que arranjo para mim e para explicar os
outros; na importância de manter espaço para o espanto, deixando em aberto
algumas questões como as que aparentemente surgem como coincidências.
Hoje, tive alguns
‘dejá vu’ com lugares e pessoas: passei por duas pequenas aldeias seguidas com
os nomes de S. Sebastião e S. Amaro que me lembraram outras duas com os mesmos
nomes em Penela (será que estes dois santos andam sempre de carreirinha?) e por
algumas mulheres com uma fisionomia particular (com uma pele muito fina e
branca, cabelos loiros escuros ou arruivados bastante lisos e fortes e as
estruturas sólidas das mulheres viking) que me lembraram a mãe de uma amiga que
foi muito importante na minha adolescência.
Achei curioso…
Após três horas de
caminhada, sem café e sem tabaco, comecei a ressacar. Se tivesse juízo, não
voltava a comprar tabaco mas provavelmente não tenho. [Tenho fumado pouco,
mas achei que era muito sacrifício eliminar o tabaco, por isso sai de Lisboa
com um maço quase cheio e em Valença comprei outro maço, que durou até agora] Estou instalada no
albergue em Caldas dos Reis - chama-se D. Urraca e à frente tem uma casa
comercial brasileira - não podiam ser referências mais familiares.
O albergue tem o
necessário mas está em instalações provisórias e não oferece aquelas boas
condições dos edifícios requalificados ainda com ar de novo; mas tem uma
excelente localização e uma envolvente magnífica. Caldas dos Reis é uma
vila histórica, pequena e bonita (fazendo lembrar Chaves pelas águas termais
quentes ou Caldas da Rainha, pelo seu parque verde no meio da cidade).
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| Fig 3: Caldas de Reis |
Conheci no albergue
um casal de Boston, os dois muito magros e velhos (talvez na casa dos 70 e
muitos anos ou oitenta) mas cheios de energia e boa disposição que consolidaram
a minha convicção de que qualquer pessoa pode fazer o caminho, dependendo de
como se organiza para o fazer. E também a certeza de que o caminho não se faz
com os pés, faz-se com a cabeça, no sentido de que me parece determinante
a(s)motivação(ões) e a organização.
O que faz tanta gente
tão diferente neste Caminho?
Procuram-se? Fazem
penitências? Promessas? Passeiam? Testam-se? Procuram respostas?
Na longa tarde que
vai desde a altura em que me instalo no albergue até ir dormir existe tempo
para tudo (até para achar difícil passar o tempo): tempo para tomar duche,
fazer uma sesta, para lavar e estender roupa, para dar uma volta pela vila,
para ficar sentada a apanhar sol nos bancos de pedra ao lado da ponte romana
(um cenário lindo) olhando as águas límpidas do rio, para fazer o abastecimento
utilitário para hoje e para a viagem de amanhã (privilegiei uma pequena
mercearia tradicional), para escrever, para ler, para pensar. [ … não sei se tenho
grandes pensamentos neste caminho, ou sequer se deveria tê-los, mas estas novas
rotinas favorecem que pense, alternando com os períodos de maior cansaço em que
não penso em nada e parece que esvazio a cabeça].
O tempo ameaça chover
e está a ficar mais frio, à medida que a tarde avança. Fui para o albergue
beber chocolate quente (lembro-me sempre da minha mãe quando bebo chocolate
quente), rever a rota de amanhã e ler um bocadinho antes de adormecer. [Os planos de me
deitar mais cedo não resultaram em dormir logo porque a minha cama estava
alinhada com uma maldita luz florescente e ficava na rota das casas de banho.]
O que é a solidão?
Estar sozinha ou sentir que se está sozinha?
Naquela leitura
quântica ‘estar sozinha’ é uma impossibilidade técnica dado que todos estamos
energeticamente ligados…então, porque é que a solidão mete tanto medo?! Talvez seja sobretudo
o medo da perda ou afastamento de quem nos é querido e importante, ou o medo de
ficar parada nas perdas, de não seguir viagem… A pé é tudo muito
longe mas como diz o poeta ‘o caminho faz-se caminhando…’ Lembro-me das gralhas. Não me sinto nada
‘iluminada’ (deveria estar?) quanto aos meus dilemas, mas tenho retirado muito
lixo da cabeça. Espero conseguir chegar ao fim.
Isabel Passarinho
(continua...)
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Cronicas de uma viagem - Caminho de Santiago (parte VI)
Cronica 6 – Sobre erros e voltar atrás
Dia 7 – Redondela/Barro
Esta foi a maior
etapa que fiz no Caminho, com cerca de 30 Km. Inicialmente, planeei
ir até Pontevedra, sendo o percurso descrito como acidentado e passando pelo
Alto da Lomba (5Km), Fonte, Arcade, Alto da Canicouva (12 Km), Rio Tomeza (15
Km) e Pontevedra (18Km). Mas um erro de atenção fez com que eu falhasse o
albergue de Pontevedra e estava tão cansada e com tanto calor que não quis
voltar para trás e andar 10 minutos até ao albergue. Paradoxalmente, prossegui:
fui atravessando a cidade à espera de encontrar uma pensão simpática no caminho
e, quando dei conta já estava a sair da cidade.
Decidi continuar na
esperança de que o próximo albergue não ficasse muito longe, mas os 12 Km que
fiz a seguir foram bastante sofridos. Nesta etapa, pensei
várias vezes em parar e dormir ao relento (nas traseiras de uma igreja, debaixo
de uma latada, debaixo da copa de um castanheiro…) mas acabei por não ter
coragem de o fazer e, com longos períodos de descanso, lá fui prosseguindo até
encontrar o albergue do Barro já no final do dia. Dormi lá a melhor noite do
Caminho.
Este engano e,
sobretudo a decisão insensata que tomei de seguida, quase me fizeram desistir. Na verdade, quando
decidi fazer o Caminho deixei sempre em aberto a possibilidade de, por qualquer
boa razão, poder desistir e como não fui em penitência, isso não seria
desastroso. Mas desistir não é
algo que eu goste de fazer; talvez por isso fui persistindo, persistindo até ao
final da etapa – e é assim que muitas vezes conduzo as dificuldades da vida,
nem sempre bem mas com alguma resistência em deixar «coisas» a meio e muita
dificuldade em «voltar atrás».
Quando sai de
Redondela, ainda de noite como de costume, apanhei bastantes troços de estrada
com grande espaçamento entre setas, o que me dava aquele frio na barriga de
pensar que podia estar enganada. Os primeiros peregrinos que encontrei (o casal
com a mulher mais velha e o homem com ar de segurança) voltavam atrás porque
também pensavam que se tinham enganado mas ali eu estava segura (tinha visto
uma seta à pouco) e pude assegurar-lhes que estavam bem. Deram meia volta e
prosseguiram à minha frente, com um passo muito mais rápido do que o meu, pelo
que depressa deixei de os ver.
Esta etapa tem troços
florestados muito bonitos e belas vistas panorâmicas sobre o mar (que aqui
parece um lago ou albufeira). Numa destas vistas, a Alicia de Málaga pediu para
tirar uma fotografia a si e ao seu companheiro de viagem, um homem pequenino
com ar de gnomo simpático. Depois, pediu para eu tirar uma fotografia com eles
os dois para recordação – achei estranho mas consenti e acabei por também eu
pedir para o gnomo me tirar uma foto com a Alicia. Estranho estes
momentos, questionando-me sobre o que pensarão as pessoas (será que também me
atribuem personagens?) e o que as levará a meterem conversa comigo; apesar de
eu dificilmente tomar a iniciativa de conversar com alguém, estes momentos
ajudam a descontrair.
Noutra paragem,
passou o Hans Joaquim e conversámos um pouco antes de ele se pôr a caminho de
novo (não o veria mais); ainda fiquei a comer alperces secos e nozes. De
seguida pararam ao pé de mim 2 portugueses de Águeda, que vinham a pé desde
casa, fizeram 40Km/dia nas duas primeiras etapas e diziam ter os pés cheios de
bolhas. «Mas as bolhas são para pisar, não é?», dizia o mais novo com ar um
pouco abrutalhado, quando ambos seguiram caminho em boa velocidade. Achei-os
bastante lunáticos…mas cada um sabe de si.
De qualquer forma eu
hoje ando a passo de caracol e tenho a sensação que todos os peregrinos passam
por mim. Até os passeantes de domingo – sim, porque neste troço vi muitas
pessoas que deviam ser habitantes locais a fazer a sua caminhada de domingo. Um destes passeantes
(acompanhado de uma senhora) depois de desejar bom caminho, como todos faziam,
perguntou de onde eu era; quando disse que era de Lisboa, o sorriso abriu-se e
disse que tinha estado 4 anos em Portugal e tinha gostado muito. Seguiram, muito mais
ligeiros do que eu, deixando-me com aquela ideia de que os estrangeiros
apreciam mais Portugal do que os próprios portugueses.
Parei a 1km de
Pontevedra num café/tasca regional para a ração do costume: água, dois sumos de
fruta e um café – esta é outra constância do caminho. Falhei o albergue de
Pontevedra. Vi o sinal, mas
fiquei na dúvida se deveria seguir ou virar à direita. Optei por prosseguir,
seguindo os 3 homens «língua-de-trapos» que me ajudaram a ajeitar a vieira na
mochila quando a comprei.
[Apenas em Arcade, localidade
conhecida pela sua ponte medieval, encontrei os habitantes a vender vieiras aos
peregrinos, provavelmente aproveitando o recurso que o mar-lago lhes deposita à
porta. Comprei a minha por 2 € a uma jovem e simpática senhora marroquina que tinha
duas crianças pequenas a espreitar pela porta entreaberta]
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| Fig 2: Pontevedra |
Andando pelo meio da
cidade mais 10 minutos sob um sol escaldante encontrei uma peregrina espanhola
com quem já me tinha cruzado e perguntei-lhe pelo albergue; ela confirmou que
teria de voltar para trás. Era uma da tarde,
estava um calor incrível e decido seguir em frente, até porque é domingo e não
me apetece ver monumentos nem passear sozinha. No atravessamento da
cidade percebo que é bonita, que tem um centro histórico muito antigo e bem
preservado mas saí pela Ponte do Burgo tão depressa quanto pude.
Parei de novo à
sombra de um bosque. Descalcei-me e inspecionei os pés: será que aguentam? Qual
a distância que terei que fazer até outro albergue? 12 Km para Barro? Apetece-me desistir.
Em Pontevedra passei no terminal rodoviário e apeteceu-me apanhar o primeiro
autocarro para casa. Hoje andei todo o dia
a perguntar-me porque é que estou a fazer isto? Porquê e para quê? Não posso negar que
tem o seu quê de ‘sacrifico’ mesmo que eu não lhe atribua penitência nenhuma.
Mas para quê?
Passam muitas ideias na
minha cabeça, entre elas a ideia de «esticar a máquina», como os carros velhos
que de vez em quando precisam de andar a mais velocidade. Mas não é só isso.
Também não é aquela coisa dos pecados, das promessas e da salvação, para as
quais não tenho paciência nem convicção. Como é que me meti nestes ‘trabalhos’?
Lembro-me que a
propósito de outras caminhadas (nomeadamente os percursos formativos mais
longos e mais próximos da Terapia Familiar ou do Doutoramento) também me
questionei assim. Às tantas parece que tenho que provar algo – o quê? A quem?
Será que preciso de
me lembrar do que ainda sou capaz?
Será que preciso de
segurança para seguir com o meu projeto? Qual é o meu projeto?
Talvez seja isso,
talvez a decisão de fazer este caminho seja a forma que encontrei para me dar
tempo de descobrir o que quero fazer da vida que me resta?
A verdade é que eu
estou numa fase em que tenho o passado mais ou menos ‘resolvido’, tenho o
presente tão ‘arrumado’ quanto pode estar nestes tempos de incertezas e não
tenho projetos para o futuro. No meio de muita coisa que «era gira», que «podia
ser», simplesmente não é, não sei ao que me proponho, não sei para onde vou,
não sei se ainda quero algo. Talvez fazer o
caminho signifique procurar sentidos e significados para o que ainda quero da
vida.
Já acabei a água no
cantil e as fontes por onde tenho passado não são seguras. Perdi a noção das
distâncias e já não sinto nada, pareço um autómato. Só me vem à cabeça o
disparate de não ter ficado em Pontevedra…
O caminho é quase plano,
à beira rio e bastante sombreado. Tem passado poucos peregrinos a pé, mas
alguns de bicicleta e outros a cavalo. Vou parando amiúde, mas não tenho
coragem de pedir água a quem passa, nem sequer pedir informação sobre a
distância do próximo albergue. Tenho um aperto no
peito.
Penso em como estarão
os meus filhos e algumas pessoas que me são próximas. [São 8 da noite em
Portugal e 9 em Espanha. Já estou no albergue do Barro de banho tomado e roupa
lavada, está fresco e é quase noite. Cá fora estão outras pessoas à conversa,
sentadas em cadeiras de jardim; fui para uma mesa sozinha para escrever]
Estava eu, em
desespero, sem me achar capaz de fazer o resto do caminho quando passa um jovem
e percebo pelo sotaque do «bom caminho» que é português. Saudamo-nos e
começamos a falar, vai de regresso de Santiago e eu pergunto-lhe se falta muito
para uma aldeia ou para um albergue. Diz-me que não, que no fim da subida
existe uma aldeia e que o albergue é um pouco mais à frente.
Ganho ânimo e faço-me
ao caminho. No cimo da subida, ainda antes da aldeia encontro um casal de
velhotes em passeio de fim de tarde, perguntam-me de onde venho? Sozinha? Dizem-me que o
caminho é muito duro e que é bom fazer etapas mais pequenas (agora sei que têm
razão). Dizem-me também que na aldeia posso parar, comer uvas e dormir, se
quiser. Despeço-me deles com
o coração aquecido porque me pareceram pessoas boas.
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| Fig 3: Rio Barosa, Barro |
Na entrada da aldeia,
paro num café com ‘hostel’ privado. O café tem uma esplanada coberta por uma
latada linda e eu fico por ali a beber o sumo e o café da praxe. Servem-me ‘Compal’ e
eu, alegre e surpresa, pergunto como é que fizeram esta opção? A senhora diz-me
que o vendedor apareceu e que gostaram muito do sumo, que é melhor do que as
marcas espanholas. Concordo e bebo dois.
Peço indicações sobre o albergue e a senhora diz que é perto, apenas um km.
Realmente, as distâncias são muito relativas, o que é 1Km para quem já andou
29? Retomo caminho e
abasteço o cantil numa fonte que a senhora do café indicou.
Um quilómetro e 400 metros
depois chego ao albergue. Ao chegar, a primeira impressão foi a de que estava a
chegar a uma comunidade terapêutica. Não sei se foi por ser recebida por 2
homens com ar hippie e com cigarros apagados na mão… ou se estou a ser
preconceituosa. Fui recebida na sala,
onde estavam outros 2 homens, um fazia sumos naturais e outro ajeitava os
legumes frescos que estavam para venda, alinhados em caixas numa das paredes; e
tudo era normal, os duches, a camarata (bastante mais pequena), o local de
lavar e secar roupa, a esplanada ajardinada lá fora.
O João e a Barbara,
um casal de peregrinos polacos foram as pessoas com quem conversei, sobretudo
com ele que era um falador (ou dominava melhor o inglês?). Fugiu ao regime
comunista, foi para Itália e de lá para o Canadá onde esteve imigrado uma série
de anos. Estão bem de vida, são católicos e fazem o caminho com motivação
religiosa. Tem achado o caminho
português muito bonito, com terras «gordas», muito férteis e cheio de água «que
brota da terra». Diz que na Polónia já sentem muito a falta de água, que é
frequentemente racionada em meio urbano e que já tem os lençóis subterrâneos
comprometidos. Gostam muito de Portugal. Reparto com eles as
últimas nozes que tenho e vou deitar-me. Está uma noite fria.
Isabel Passarinho
(continua...)
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Cronicas de uma viagem - Caminho de Santiago (parte V)
Cronica 5 – Estranhezas e Saudades
Dia 6 – Porrinõ/Redondela
Dormi bem e acordei
descansada às 5h, como já vai sendo costume. Hoje é sábado e o
tempo está um pouco mais fresco. Antes de sair fui
beber uma ‘bica’ no restaurante da pensão e fiquei à conversa com o dono, que
era de Granada e bem mais interessante e simpático do que a mulher – eu estava
bem-disposta e aquela breve conversa deu-me ânimo. Sai e deixei Porrinõ
de noite e sem saudades.
Ao raiar do dia, num
troço em estrada nacional perdi-me das setas e quando eu já desconfiava que
teria de voltar para trás, um velhote de lambreta passou por mim e ensinou-me
como é que podia fazer para retomar o caminho mais à frente; mas para se
assegurar que eu não me perdia novamente, passou um viaduto e foi levar-me à
estrada certa – foi providencial esta ajuda porque é mesmo muito difícil
qualquer orientação em território desconhecido.
Quando fiquei de novo
no caminho, comecei a encontrar outros peregrinos: a Alice, de Málaga que
caminha sem mochila meteu conversa e diz que hoje vai tomar banho na praia de
Redondela (?), uns jovens de leste que vêm em grupo conversam como pardais numa
língua desconhecida, o jovem italiano e os seus 2 amigos que me saudaram
alegremente, as 3 mulheres de leste (magríssimas, uma loira, outra ruiva e
outra morena), o casal espanhol em que ele é bastante mais novo e tem ar de
segurança de discoteca e muitos outros. Eu, de vez em quando, dou por mim a
falar sozinha com as setas «Ah, estás aí?» … isto promete.
Quem circula a pé
pode prestar atenção a muitos aspetos que habitualmente passariam
despercebidos, quer com as pessoas, quer com os espaços, sejam eles naturais ou
construídos; e nestes últimos destaco por exemplo as casas, os muros e os
portões - Casas de mostrar sucesso na vida. Portões e muros para afastar (ou
para proteger?). Casas-homem e casas-mulher. Casas feitas aos bocadinhos,
sofridas. Por todo o lado sinais de muita emigração. Esta etapa além de
ser mais bonita, passa por zonas mais habitadas, investidas e equipadas, com
bastantes cafés que tanta falta me tinham feito ontem.
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| Fig 2: Localização de Redondela num mapa da costa galêga |
Uma das paragens a
meio da manhã foi num café pastelaria na loja de uma vivenda – fiquei
impressionada com a beleza dos bolos que podiam estar na montra de uma qualquer
capital europeia; mas ainda fiquei mais impressionada com a cara de zanga da
senhora (presumivelmente a dona e pasteleira) – e pensei que devia ter uma vida
triste. Será que é ela a
artista? Quereria estar noutro sítio? A casa é enorme, meia por acabar,
descuidada; menos a loja que está improvavelmente cuidada e investida. O sol ilumina a serra
em frente com uma luz belíssima, meio enevoada, mas a senhora zangada não deve
ver esta beleza. Quem lhe comprará os bolos? Como será a sua vida? As pessoas são tão
densas…
Hoje também
experimentei o medo, primeiro à saída de Porrinõ quando comecei a ler nos muros
avisos de cuidado com assaltos de toxicodependentes (não me cruzei com ninguém
mas fiquei mais alerta); depois, quando passei por uma aldeia e me cruzei com
um homem que simulava estar a urinar mas mostrava o pénis e a terceira, já
perto de Redondela, quando passei por outro homem que estava sozinho num parque
de merendas e me pareceu suspeito. Não aconteceu nada em nenhum dos casos e nunca
saberei se os receios que estas situações me provocaram tiveram causas reais ou
fantasiosas; mesmo assim, na segunda situação soube-me bem que o casal em que
ele tinha ar de segurança, viesse logo atrás.
Por outro lado, um
dos medos que levava de casa era o de cães ferozes e os cães que tenho visto
ficam calados à passagem dos peregrinos, como se já estivessem habituados. Até agora não tinha
sentido medos, mas senti muitas vezes a vulnerabilidade aumentada com a noção
de que não sabia por onde ir, não sabia se estava no caminho certo e/ou tinha
pouco controlo sobre outros aspetos, mas ao mesmo tempo tenho sentindo um
aumento de confiança – o que parece paradoxal. E esta vulnerabilidade parece
que tem menos peso do que na vida, onde é mais fácil mascará-la. No Caminho tenho
aprendido a reforçar as hipóteses de solução e a contar com a ajuda de outros.
São 11.30h e cheguei
ao albergue de Redondela que só abre às 13h. Hoje vou ficar por
aqui. Apesar da etapa ser bonita teve várias subidas muito acentuadas e achei
que preciso de me poupar para conseguir fazer o resto do caminho: os 14 Km de
hoje chegam-me muito bem.
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| Fig 3: Albergue de Redondela |
Atravessei a cidade
guiada pelas setas amarelas e fui até ao albergue que fica num edifício
histórico recuperado mesmo no centro histórico. Estou a gostar da
experiência e, pela primeira vez, sinto-me à vontade para me descalçar e
sentar-me no chão, encostada à mochila enquanto espero que o albergue abra e
olho, com um certo embevecimento, para as botas cobertas de pó.
À entrada estão
outros peregrinos que descansam e esperam a abertura. Nesta espera percebo
a existência de chicos-espertos que caminham sem bagagem mas que agora estão à
porta do albergue com umas enormes mochilas – não percebo a ideia…mas, enfim,
cada um faz o seu caminho (é uma das frases que mais oiço por cá e que me
começa a fazer muito sentido).
O albergue abriu, é
bonito e ficou cheio de peregrinos num ápice. Um dos aspetos
curiosos são as formas como cada pessoa apropria a cama beliche, mesmo sabendo
que é só por uma noite. Algumas pessoas trazem lençol e fronha de casa, outras
põem tudo muito direitinho em cima da cama, outras à balda, umas mantém quase
tudo dentro da mochila, outras não… são impressionantes as variações, sobretudo
tendo em conta que os peregrinos trazem poucas coisas consigo. Outras pessoas
(como a jovem do beliche ao lado) trazem troféus do caminho: um ouriço de
castanha, uma pinha, folhas… fazendo-me lembrar a minha costela recolectora.
Também varia o que
cada um faz, muitos ficam a descansar em cima das camas, uns escrevem, outros
telefonam ou ficam nos computadores pessoais, outros tratam logo da higiene e
lavagem da roupa, outros saem…mas nas horas a seguir à chegada, as pessoas,
façam o que fizerem, tendem a recuperar do cansaço em silêncio. Eu fiz a cama, tomei
banho, lavei roupa e dormi uma sesta de duas horas. Custou-me adormecer
porque no beliche do lado, a jovem escoteira e a sua amiga (de um qualquer país
de leste) estavam a tagarelar alto. Mexi-me, fiz cara feia para perceberem o
incómodo que causavam e mudarem de sítio – provavelmente para a sala de
convívio.
Quando acordei fui
explorar o albergue e encontrei uma exposição de pintura que apreciei com
detalhe; depois fui dar uma volta pela cidade para conhecer a tal «praia». Redondela rima com mortadela - era um nome que não me
dizia nada. Mas as baixas expectativas às vezes trazem surpresas: a cidade é
bonita, está bem cuidada, tem uma localização fantástica na confluência de
vários rios e um centro histórico bem preservado e vivido. É atravessada por
canais, tem muitas pontes de circulação pedonal e nota-se que os rios devem ter
caudais respeitosos no Inverno.
A cidade está toda envolta
por montanhas muito verdes. Depois de andar uns
20 minutos cheguei a uma albufeira (só podia ser uma albufeira, pensava eu)
…mas nada batia certo: cheirava a mar, a água tinha limos e algas marítimas, as
gaivotas andavam no lodo perto do pequeno cais de embarque e na praia, havia um
pequeno porto com barcos de pesca (semelhantes aos de Sesimbra ou Peniche),
circulavam uma espécie de cacilheiros que saiam do local onde eu estava, no
meio da albufeira havia uma ilhota com um tamanho razoável e via uma praia com
tudo o que as praias devem ter; até maré. E qualquer coisa nas características
da água e do vento me dizia que aquilo era mar.
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| Fig 4: Arredores de Redondela |
Em terra havia
vestígios de indústria conserveira e os cafés do embarcadouro eram parecidos
com os da Trafaria. Só me faltou ir provar a água e juro que não fui apenas por
acanhamento. Tudo isto é muito
estranho! Este «mar» no meio
das montanhas é dissonante, coloca-me perante evidências que não batem certo. Mas
por outro lado, porque é que não pode haver um lago disfarçado de mar no meio
das montanhas?!
Bem, eu hoje estou
«fora de pé», decididamente não estou confortável. Antes de mais, pelo
‘embrulho’ (lavei a minha roupa apresentável e estou vestida de forma pouco
airosa) e depois, pelas saudades – de casa, dos meus, da minha zona de
conforto. Também não tive
nenhum daqueles pensamentos que se impõem durante a caminhada. Quem sabe se a
aprendizagem de hoje não é essa? Sobre as saudades, sobre o valor que têm todos
e tudo na minha vida, sobre a importância de quem sabe quem nós somos e nos (re)conhece?
O tempo mudou.
Aproxima-se uma trovoada. Passar do sol è chuva era algo que não estava nos
meus planos. De volta ao albergue
(já depois de me ter abastecido para o jantar de hoje e pequeno-almoço de
amanhã) cruzei-me com uma espanhola – a Sílvia – com quem conversei um pouco.
Ganhei coragem e falei-lhe da minha estranheza no lago. Primeiro, como boa
espanhola não entendia o que eu lhe estava a tentar dizer; depois, quando
entendeu achei-a perplexa e só me respondeu com a maior naturalidade do mundo
«cheira a mar porque é mar».
E eu, de repente,
plim, fez-se luz com o recorte particular da costa galega e consegui ver
Redondela entre Vigo e Pontevedra, com as entradas de mar. Senti-me muito
palerma mas não tinha ideia de que, visto deste lado, pudesse fazer tamanha
confusão! Hoje, o melhor que
faço é ir dormir mais cedo para ver se amanhã estou menos estranha. Antes de adormecer
ainda me lembro do piar desagradável de uns grandes pássaros pretos (Corvos?
Gralhas?) que estão em todos os bosques…
Isabel Passarinho
(continua...)
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
Cronicas de uma viagem - Caminho de Santiago (parte IV)
Cronica 4 – O Caminho faz-se como se pode
Dia 5 –Valença/Porrinõ
Sai cedo, como de
costume, para fazer a etapa até Redondela contando com um percurso de cerca de
31 Km; o plano B, era parar em Moss, uns 15 Km antes, se estivesse muito
cansada. [Dormi mal com dores
nas pernas. Acordei a meio da noite e, só sosseguei um pouco, depois de uma
auto massagem com uma dose generosa de creme]
Antes de sair do
albergue ainda troquei umas palavras com umas senhoras de Cascais que me
contaram que estavam a regressar sem ter chegado a Santiago: uma porque tinha
apanhado uma intoxicação grave com fruta (tratada com produtos químicos) que
comeu pelo Caminho e as outras, por solidariedade. Avisaram para não comer nada
diretamente das árvores (o que eu registei bem) e desejaram bom caminho. Estavam
tristes, mas garantiram que iam voltar para o próximo ano.
Acho que nunca vi
tantos ‘nascer’ do sol! Habitualmente, não
sou madrugadora mas percebi que, em tempo de calor, é prudente fazer o trajeto
o mais cedo possível e que, para além da razão prática também é muito agradável
– era quando me sentia mais animada e cheia de energia.
Atravessei Valença
(com tudo fechado) com este ânimo, passei a ponte/fronteira sobre o rio Minho e
já estava em Espanha quando começou a clarear. Não tinha bebido café
e a primeira paragem foi para tomar um bom pequeno-almoço em terras galegas:
sumo de laranja natural, ‘bocadilho de ramon serrano’ e café ‘solo’ (por €5,40
– na passagem para Espanha, a diferença de preços é evidente). O café era familiar e
simpático, com uma senhora ao balcão que tinha cara de boa pessoa e falava com
os poucos clientes do sofrimento das pessoas nesta crise de emprego e de
sustento. [Apesar da maior
influência Celta, os galegos são muito parecidos com os portugueses.]
Fiz os quatro
quilómetros até Tui pela beira-rio e subi à cidade – o centro histórico, à
volta do seu mosteiro/castelo, fica bem alto. [A sinalização do
Caminho em alguns locais, sobretudo nos centros históricos das cidades, dá
ideia que foi feita também com preocupações turísticas, dando voltas e mais
voltas supostamente para nos fazer passar por locais de interesse a visitar.
Confesso que, às vezes, fico irritada porque tenho a noção que podia atalhar.
Mas não arrisco largar as setas]
Depois da cidade, o
trajeto prossegue ao nível do Rio Louro, passando por uma zona húmida com
muitos braços de rio e prados, supostamente protegida mas nem sempre muito
preservada do ponto de vista ambiental. O trajeto passa por
algumas aldeias pobres e tristes. Complica-se, quando passa por grandes troços
de estrada nacional e por zonas de eucaliptal, sem sombra.
Uns quilómetros depois de Tui (a bem
dizer, perdi um pouco a noção da distância porque o Caminho ficou menos
agradável e eu fazia um esforço de concentração) fiz novamente uma longa pausa e
veio-me à cabeça as condições de possibilidade: o Caminho não se faz como se
quer, faz-se como se pode.
Comecei a ter a ideia de que não sabia
se os meus pés me deixavam ir onde eu queria – estava cheia de dores, não eram
bolhas, doíam-me mesmo os ossos dos pés; Também me preocupei pela veia que
sinto latejar no ouvido e continuo a deitar sangue do nariz. Fiz uma paragem longa num bosque que me
pareceu bonito e tive o cuidado de me afastar um pouco do caminho para ficar
sozinha e não ter que falar com os peregrinos que vão passando. Precisava de
descansar e até talvez dormir um pouco, mas o barulho de uma serra a cortar
madeira não deixou…
O primeiro peregrino
que encontrei ainda em Tui foi um homem inglês que não tem um braço e que já
tinha visto no Albergue – saudou-me e seguiu mais ligeiro que eu. Muito depois, noutra
paragem passou o urso alemão, que parece cada vez mais o bom gigante da
história do Guliver. Perguntou em que albergue eu ficaria e eu respondi-lhe que
talvez em Moss ou em Redondela. Reparei que o urso alemão tem os dedos de uma
mão estropeados - será sequela de guerra? Pareceu-me entender que ele tinha
sido soldado (não percebo nada de patentes). Mas fico a pensar sobre quais
seriam as tristezas que ele engoliu para ficar assim tão obeso?
Passaram mais
peregrinos que não me eram familiares mas esta foi uma etapa dura com pouca
conversa, com muita estrada, muito sol e sem cafés. Muitas vezes me passou pela
cabeça que não conseguia dar mais um passo…
Uma das longas
paragens foi à sombra de um castanheiro perto de umas casas, numa reta que
atravessava as tais aldeias com um ar deprimido. Tinha acabado a água no
cantil, não passei por nenhuma fonte de água potável e estava aflita com a veia
a latejar no ouvido.
Um tempo depois
começo a prestar atenção ao estalar dos ouriços e é de facto um espetáculo
estar de baixo de um castanheiro imenso no meio de quase nada, a ouvir a música
dos ouriços a abrir e a cair no chão atapetado. Mais improvável ainda foi o
contato com a senhora da casa ao lado (e dona do castanheiro) que veio saber
quem eu era e o que fazia ali. Disse-me com o ar desempoeirado dos galegos que
podia falar português porque ela entendia bem e perguntou se eu precisava de
alguma coisa. Perdi a vergonha e lá lhe disse que agradecia água. Levou o cantil para
casa e passados uns minutos voltou com o cantil cheio mais uma garrafa de água fresquinha
e um copo com gelo – tive a noção que este apoio me salvou.
Trocou mais umas
palavras, desejou-me bom caminho e foi assar as sardinhas (?) para o almoço,
para não perder as brasas. Antes de alcançar o portão, ficou à conversa com
outra senhora mais velha (que fiquei a saber ser sua irmã), de muletas, que
insistia em saber quem eu era. A irmã mais nova
disse-lhe que eu era peregrina, Isabel, de Lisboa e foi para dentro de casa,
depois de lhe ralhar por ela se dirigir ao castanheiro, com medo que
escorregasse.
Sozinha? Perguntou a
senhora de muletas, aproximando-se de mim. Respondi cordialmente que ‘ninguém
está sozinho’ e ela pareceu concordar. A seguir começa a falar em galego (só
apanhei algumas coisas) sobre a vida, comparando a época da guerra civil e
agora, a filha que voltou para a terra com a sua família e já não a deixa
cozinhar porque ela não sabe fazer as comidas novas que eles gostam, o marido
que morreu à 6 anos e a deixou com grande desgosto, intercalando com
comentários do género «ninguém apanha estas castanhas» ou «não sei porque estou
a falar tanto consigo se não a conheço».
Não sei se estas duas
senhoras tiveram a noção do bem que me fizeram: pelo abastecimento de água mas
também porque me fizeram lembrar a minha mãe e isso deu-me muita força.
Entretanto, a veia que latejava, parou. E eu continuei caminho.
Andei o que me
pareceu ser um caminho interminável por estrada, à chaparreira do sol e ainda
parei mais uma vez, à sombra de uma latada elevada em relação à estrada: tirei
a mochila, descalcei-me, tirei meias e deitei-me no chão a descansar (acho que
dormitei…).
Quando achei que
conseguia andar um pouco mais, pus-me a caminho e passei pela zona industrial
de Porrinõ, até entrar na cidade.
À entrada o caminho
tem duas setas, uma que vai ao longo do rio e outra que se dirige para dentro
da cidade – já não sei porquê optei por esta última. Tinha à espera um reta
interminável sem sombras, cheia de indústrias e grandes espaços comerciais (El
corte asiático, por exemplo, que prometia…). A única coisa boa, foi que também
tinha cafés.
Parei no primeiro que
vi, bebi dois sumos de fruta quase de seguida, comi uma pequena tapa e vim para
a esplanada tomar um café. Só lá estava um senhor que não resistiu a fazer
perguntas: para onde vais? De onde vens? Estás sozinha? Não tens medo? São 4
dias a andar bem até Santiago. Fiz conversa de
circunstância e logo que me achei capaz, pus-me a caminho; pelo menos, já sabia
que faltava pouco para o albergue e decidi não ir mais longe.
Estava de tal maneira
cansada e torrada com o calor que fui atrás de outra peregrina e entrei atrás
dela numa pensão com a vieira assinalada, sem perceber que não era um albergue.
Quando percebi, já estava lá dentro, a senhora já tinha mandado a filha
adolescente mostrar-me o quarto e eu já não tive coragem de me ir embora – está
limpo, custa €22,00 e pode-se lavar a roupa.
Larguei a mochila e
atirei-me para cima da cama. Passado um tempo tomei um banho, tratei da roupa e
como estava sem rede espanhola no telemóvel, fui à receção ver se resolvia o
problema mas a senhora não sabia e mandou-me a uma loja de telecomunicações. A contragosto, fui. A
senhora da loja foi muito gentil e resolveu o problema: depois fui às compras
de comida.
Achei a terra muito
feia, não me apeteceu ver nada, não tinha nenhum motivo para estar na rua e fui
para a pensão deviam ser umas 5 da tarde; mas a pensão também não tinha graça,
sobretudo agora que eu estava a gostar dos albergues e daquela condição
partilhada com os outros peregrinos.
Aproveitei para
dormir sossegada (sem roncos) e tentar restabelecer-me para amanhã poder
prosseguir caminho. E pronto, hoje é isto
que o caminho tem para mim. Amanhã, era bom que
tivesse menos dores nos pés e nas canelas das pernas…
Isabel Passarinho
(continua...)
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