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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Crónica Social - Agora não me importa. Não quero saber.


Neste mês de Outubro fiz o Caminho de Santiago pela Costa, a partir de Caminha.
Um percurso de aproximadamente 176 Km, feito em oito etapas de cerca de 20 Km, durante 10 dias – considerando um dia para ir e outro para voltar para casa.
Foi uma espécie de segundo parto. Já sem as angústias e as inseguranças da primeira vez - que aconteceu em 2013, num Caminho de Ponte de Lima a Santiago. Mas com magia igual.
Maior tranquilidade. Já sabia ao que ia e já sabia que me era possível – o que não é de menos.
Foram o mesmo número de dias, sensivelmente os mesmos quilómetros, a mesma organização fluída e pouco pré-determinada, a mesma mochila emprestada, o mesmo orçamento financeiro em regime low cost e a mesma vontade de limpar a cabeça de lixos e problemas. Tudo o resto foi diferente.
Fui com uma amiga que ia fazer o Caminho pela primeira vez. Escolhi o Caminho da Costa e acabei por ficar em outros albergues – a partir de Redondela segui pelo mesmo caminho que já tinha percorrido e repeti apenas o albergue de Padron.
Reconheci muitos troços do caminho que já tinha feito mas, de facto, tudo era diferente. Até eu, três anos depois, estava diferente. Cada Caminho é único.
De resto eis as razões pelas quais recomendo o Caminho:

 - Pode ser feito à sua medida
Se a ideia de descanso activo lhe faz sentido e tem mais motivação espiritual do que religiosa, então esta aventura pode ser sua sem necessidade de cumprimento de promessa ou expiação.
O planeamento, detalhado ou fluido, está dependente de muitos factores que só lhe dizem respeito a si: a condição física (qualquer pessoa pode fazer o caminho desde que se conheça e o adapte às suas possibilidades), a idade, o seu gosto por ir sozinho ou acompanhado, os seus medos, a sua vontade de se inspirar, ou não, na abundante partilha de outros peregrinos que está disponível na internet, o orçamento que quer afectar, a altura do ano em que pretende ir e, muito importante, a consciência das razões porque quer fazer o Caminho.
Na certeza, confirmada pela experiência destas duas peregrinações, de que só existem os nossos limites para o fazer. E que cuidar de nós é fundamental.

Vamos ser sinceras. Eu gosto de viajar. Gosto de ir, de partir.
O dia de viagem para a partida aconteceu a 02 de Outubro, num percurso de comboio de Santa Apolónia a Caminha e terminou com a travessia do rio Minho de barco e a passeata de 5 km até à primeira cidadezinha galega - A Guardia.
A viagem de comboio permite passar por sítios diferentes dos não-lugares das auto-estradas. Mais humanos e próximos da vida, com mais natureza, onde se percebe a estação do ano em que estamos.
À medida que o comboio avança, ganho distância e a minha disponibilidade aumenta. Vêm-me à cabeça rotinas, ocupações e preocupações, mas deixo ir, agora não quero saber. Agora não me importa.
Chegadas ao Albergue de Caminha um simpático senhor informa-nos que a travessia do rio não se faz à segunda-feira. Decidimos atravessar para Espanha e não dormir em Caminha.
Esta possibilidade de ajuste, para mim é condição necessária. Embora saiba que muitas pessoas privilegiam a previsibilidade de marcações prévias e de uma planificação menos flexível. Faça-o à sua medida.

Perguntamos pelo albergue na vila piscatória e um local dispõe-se e ir connosco até lá, contando a história da terra, das dificuldades atuais para ganhar a vida e da migração e imigração das gentes novas para outras paragens.
Chegadas ao albergue aguardámos. Estava fechado com um letreiro na porta para contactar a polícia local. Um peregrino ciclista já o tinha feito e, passado pouco tempo, vieram os polícias que nos registaram a entrada. Instalámo-nos na camarata e depois de descansarmos um pouco fomos dar uma volta pela terra e jantar um polvo cozido a saber a mar numa esplanada virada para o porto e para o passadiço que o contornava – ponto de encontro das gentes locais. Terminámos o dia com um belo pôr-do-sol.

- Garantia de tranquilidade e contacto com a natureza
A maior parte dos percursos que fiz, tanto neste Caminho, como no anterior, são de emersão na natureza. Apesar de atravessarmos cidades (Baiona, Vigo e Pontevedra) e de termos alguns troços de circulação pela estrada N 550, a maioria do percurso é feita por caminhos muito bonitos em meio natural, atravessando bosques, troços de via romana, passando por pequenas aldeias e vilas em estradas secundárias sem movimento ou em trilhos de terra batida.
Neste Caminho, o tempo com manhãs frescas e suaves, permitiu começar as etapas mais tarde e a um ritmo tranquilo. Aliás, caminhar ao nosso ritmo é uma das sugestões que vale a pena seguir.
Apreciar verdadeiramente os ambientes por onde passamos, sentir os cheiros, as texturas, os sons, as cores, o nascer e o pôr do sol, as casas e as gentes é um dos privilégios deste jogo de sentidos.
Quando andamos a pé vemos as coisas de outra forma, prestamos atenção a pormenores que não nos são habituais. Para mim essa é uma das formas de entrar no meu ritmo, de me conectar com a natureza e comigo própria.
Ao longo do caminho cruzámo-nos com outros peregrinos, bastantes mais a partir de Redondela quando apanhamos o Caminho Português - existe uma disponibilidade, um espírito de solidariedade e simpatia que une os peregrinos e permite ter curtas, honestas e profundas conversas com quem não conhecemos de lado nenhum, nem provavelmente voltaremos a encontrar. Também é uma forma de treino da nossa humanidade e a nossa condição humana sai reforçada.

A primeira etapa decorreu de A Guardia a Mougás, num percurso de cerca de 20Km por trilhos planos e perto do mar. Casas dispersas pela falésia, casas-abrigo improvisadas e terrenos vedados sem casas dão nota de uma procura por gente com menos dinheiro do que vontade de estar próxima destas belas paisagens. Paragem para almoço numa esplanada fronteira ao imponente Mosteiro de Oia.
Uma interessante conversa com a minha amiga sobre ocupação do tempo e sobre o tempo que o trabalho por conta de outrem ocupa na vida. Dizia-me ela, reformada à 3 anos, que já não conseguiria ter essa distribuição de tempo na vida dela, muito embora faça imensa coisa. Este é um assunto ‘quente’ para mim e reforçou-me a urgência de pensar em outras formas de gestão da vida (e do tempo e do rendimento) que não passem por ter o grosso do dia e da energia ocupados por um trabalho assalariado.
Chegàdas ao albergue de Mougás, descansei um pouco. Depois fui até ao mar molhar os pés e acabámos a noite a jantar uns mexilhões gigantes, à conversa com outros peregrinos e a ouvir um Americano que tocava guitarra e cantava baladas.


- Uma forma de fazer Exercício
Adoro andar a pé mas sou relativamente sedentária, não gosto de ginásios e não tenho uma prática física regular. De resto, tenho uns quilos a mais e já passei os 50 anos.
Se se identifica com alguma destas características, pode ser para si o exercício físico que o caminho permite. Não é que os percursos sejam de dificuldade extrema, pelo menos os que fiz, mas a extensão das etapas e o relevo, acrescentam alguns desafios físicos.
Encaro assim como uma espécie de check-up integral de corpo e mente. Vamos lá ver como é que o meu ‘equipamento’ está? Será que ainda dá conta do recado?
Na verdade, muitas vezes e durante anos a fio, vivi sem me preocupar muito com o corpo.
A não ser que ficasse doente ou tivesse sintomas incómodos, dei por garantida a funcionalidade deste equipamento fantástico que é o nosso corpo. Entretanto fui tomando consciência do pouco e do mal que o utilizava.
O Caminõ pode dar esse contributo de alerta vivido do teste e do cuidado consigo.

A segunda etapa foi de Mougás até Ramalhosa. A etapa teria sido menos extensa e cansativa se não tivéssemos largado as setas durante a maior parte do percurso (fomos pela ciclovia ao lado da N550, junto ao mar, num percurso plano e que contorna todas as curvas da costa enquanto o caminho das setas subia a montanha) e se não tivéssemos passado o Albergue de Ramalhosa convencidas que não era aquele.
Estes erros representaram um acréscimo de mais uns 5 km. Felizmente voltámos para trás e embora muito cansadas, tivemos um fim de dia tranquilo num solar - convento. ‘Tudo é mui cercano’ dizia-nos o senhor que nos desfez o engano e que, à laia dos alentejanos, desvalorizou o nosso cansaço.
Esta etapa teve marcos na mudança da paisagem. A passagem pelo Cabo que faz a transição entre as Rias Baixas e as Rias Altas e o avistamento da enorme baía onde se situa Baiona, encaixada pelo verde das montanhas e por uma linha de ilhas, de diferentes tamanhos no mar.
À minha amiga (que viveu em Macau e conhece a Ásia) fez lembrar as paisagens do sul da China. Certo é que é uma panorâmica belíssima. Baiona é uma cidade muito agradável e Ramalhosa também. Cidades cuidadas, limpas, voltadas para a natureza esfuziante daquela localização e a denotar a atratividade de classes sociais com muito maior capacidade económica.
A conversa (de manhã enquanto não estamos muito cansadas) andou pelas dificuldades da comunicação e por partilhas de recursos tentados e a tentar, para melhorar as nossas formas de expressão e relação.

  

-      - Necessidade de alguma Auto-Confiança
Decidir fazer o Caminho tem alguma coisa de corajoso. Percebo que é necessário contornar medos e ter um mínimo de autoconfiança. Em nós e nos outros. Na vida.
Percebo que estou por minha conta (mesmo que vá acompanhada), que tenho que me conhecer e confiar nos meus recursos e que é necessário cumprir metas. Mesmo com algumas hipóteses de improviso - para aqueles, que como eu, se permitem improvisar.
A concentração das forças físicas e mentais no andar representa uma espécie de ritual de cobra, de renovação da pele.
Passa pela cabeça desistir, passa pela cabeça apanhar um transporte entre etapas ou de ali para fora mas no final de cada etapa, existe um sentimento de superação. E percebesse claramente que esta história do Caminho é um post-it de lembrança para a vida, passo a passo, etapa a etapa, com previsibilidade e imprevisibilidade, com coisas boas e difíceis, com confortos e desconfortos. Que o caminho nos confronta, nos desafia, nos coloca muitas questões mas que, como na vida, em última análise, o que importa é como agimos.

Na terceira etapa deixámos a costa e embrenhámo-nos na serra, rumo ao albergue do Freixo, a cerca de 08 km da cidade de Vigo. Nesta etapa cruzámos rotas, deixando a rota do Caminho Português da Costa e atalhando para irmos encontrar o Caminho Jacobeu. Tomei maior consciência da profusão de Caminhos possíveis e também dos riscos de nos perdermos das setas.
O que são marcos? O tempo e a distância podem ser contados de muitas maneiras. Quanto falta? Perguntamos. E as duas ou 3 horas que obtemos por resposta, é sempre um marco que nos parece subjetivo.
A etapa, difícil e bonita, atravessou bosques fechados e frondosos, riachos e aldeias. E, de facto, esta viragem para as serras muito florestadas convida a um recolhimento, a um ‘ir para dentro’ diferente de quando estamos à beira-mar.
Na Associação de Vizinhos que geria o albergue onde ficámos passava-se de tudo um pouco. Ao final da tarde, enquanto esperávamos pelo jantar,chegavam senhoras, jovens e menos jovens, com ar urbano para uma aula de aeróbica, havia crianças a brincar, homens e mulheres que bebiam cerveja e conversavam, aguardando as aulas de folclore das crianças, alguns velhotes com ar rural que conversavam e o casal responsável pela gestão, ele enorme e bem nutrido que adorava cozinhar e nos fez um belíssimo jantar, ela rechonchuda e vestida à minie de aldeia que servia ao balcão do café improvisado.
Um dos homens que estava à conversa na esplanada meteu conversa connosco. Que éramos irmãos mas que tínhamos traído os galegos com alianças com os ingleses. Que eles, galegos, eram depreciativamente tratados por Portugueses em Madrid.Que tinham amigos chegados portugueses.
Apesar dos nos termos deitado cedo, fomos interrompidas pela chegada de uma Russa jovem que estava exaurida e assustada após ter feita uma mega etapa de mais de 50 km e de ter sido surpreendida pela noite na travessia das serras. Foi salva pelo telemóvel com internet e pela solidariedade de uma local que lhe deu boleia até ao albergue.Conversámos um pouco e tentámos tranquilizá-la.
A pequena camarata ficava contigua à sala de trabalho da direção da Associação e, pelas 23h ainda me levantei para lhes perguntar se ficariam a trabalhar toda a noite? Responderam que não e saíram passado pouco tempo.

  

A quarta etapa, de Freixo a Redondela foi a mais dura deste Caminho. Consigo distinguir 3 troços diferentes, o 1º ainda em serra a contornar Vigo e já dentro da cidade por uma belíssima mata ao longo de um rio, o 2º em meio urbano, que para mim é sempre mais duro, e o 3º pelo ‘caminho da água’ que decorre a meia encosta, sem grandes desníveis, parte por estrada secundária bem assinalada e parte por terra batida. Sobretudo neste último troço, muito longo, o caminho acaba por ser um pouco monótono e já só me apetecia amandar para o chão e fazer uma birra.
Sobretudo quando estamos em serra, desistir não é uma opção. É preciso descansar mas prosseguir até ao final da etapa e isso representa um puxar de limites, que também tem a sua importância.
Chegadas a Redondela, o albergue oficial estava lotado mas foi fácil encontrar alternativa. Acabámos por ficar no centro num pequeno hostal, com ar esotérico chamado ‘Consciência 33’ e gerido por uma Rosa Abreu. Nome português? Sim, pelo lado da mãe. Também o dono do Café Central onde a minha amiga foi levantar a mochila (optou pelo serviço de transporte de bagagem) era português. E terminámos a cantar os parabéns em português a um jovem de 29 anos que fazia anos, a convite da Rosa. Uma fatia de bolo, um copo de sidra e uma conversa com outro peregrino, mais velho que nós, inglês residente em Hong Kong, com quem a minha amiga esteve a recordar os tempos e os conhecimentos daquelas paragens.
O Camiño tem disto, põe-nos em contacto com esta roda gigante que é o mundo. E afinal somos todos tão semelhantes e diferentes. Tão gente.



 - Desafio Low-cost
Dormir e comer bem são as necessidades básicas das quais não abdico.
Apesar das necessidades de conforto serem muito variáveis, chego à conclusão que sou pouco exigente – basta-me uma cama razoável num quarto sossegado, uma casa de banho asseada, uma copa para tomar o pequeno-almoço e um tanque com estendal para passar por água e estender roupa - tudo isso os albergues oferecem.
Com a caderneta de peregrino, o custo de noite nos albergues oficiais é de €6,00. Quando estão esgotados, existe muita outra oferta, sendo que no máximo paguei €15,00 por quarto duplo ou pequena camarata de 4 pessoas, onde por vezes ficámos só nós as duas.
Mas se tem maiores exigências de hospedagem também não terá problemas.
A comida também é assunto fácil de resolver. Comemos em restaurante uma ou duas refeições por dia a preços justos. Procurámos comer produção local e de estação, cozinhados simples, acompanhados por umas taças de vinho branco da região ou sidra.
Não saímos dos albergues sem tomar um bom pequeno-almoço e um café (em algumas etapas a minha necessidade de café matinal fez-nos andar mais um quilómetro), levávamos sempre alguma coisa leve para comer durante as etapas (fruta fresca e seca, ovos cozidos, alguma coisa que sobrou do jantar anterior e foi transformada em sandes…), bebi muita água e ao jantar, comemos sempre bem e a preços simpáticos.
      

Na quinta etapa percorremos um percurso entre Redondela e Ponte Vedra que me pareceu fácil, com um grande troço feito por estrada romana em lindíssimos bosques de carvalho.
Nesta etapa eu já reconheci o caminho. Identifiquei alguns sítios, em especial os locais onde tinha feito paragens e lembrei-me de um maior cansaço e solidão.
Tinha dormido muito bem na noite anterior e a manhã estava fresca e ideal para caminhar.
Tomei nota de receitas de doces não convencionais que a minha amiga partilhou. É curioso ela dizer que nesta fase da vida privilegia o fazer, apesar de ter sido docente e ter uma vida intelectualmente muito ativa.
Percebo isso porque nesta altura do caminho a minha cabeça está quase desligada e o corpo ativado.
O albergue em Ponte Vedra é gigante e inclusivo. Tem um grupo de pessoas com deficiência que fazem o caminho em grupo com outras pessoas sem deficiência, todos em bicicleta, sendo umas adaptadas, em modelos extraordinários que eu nunca tinha visto. Tem também famílias, com crianças pequenas, que também ainda não tinha encontrado.

A sexta etapa, entre Ponte Vedra e Caldas dos Reis foi um pouco maior, embora sem dificuldades de registo. Conversámos sobre espiritualidade e religiosidade, sobre a culpa cristã e o espírito de sacrifício que nos aperta, mesmo quando temos consciência dele. Falámos da procura de algo que nos centre na nossa humanidade ligada com os outros e com a natureza, com os nossos lados solares e lunares, ou com as nossas qualidades e defeitos – o bem e o mal, como parte integrante de ser pessoa.
Já em Padrón, seguimos as indicações de duas peregrinas espanholas com quem estivemos à conversa enquanto demolhávamos os pés num tanque de aldeia e ficámos numa hostal sossegada e limpa.
A minha amiga lembrou-se, e bem, de perguntar num dos hotéis das termas (água quente não sulfurosa, muito parecida com a de Chaves) se era possível fazer uma sessão termal não estando alojadas no hotel.
Foi possível. Fomos à vez porque só ela é que tinha trazido bikini e pagámos €12 cada uma por uma retemperadora sessão de meia hora numa piscina com água termal, jacuzi e jactos de água que massajavam todo o corpo.
Foi um luxo acessível que me fez um bem imenso e me deixou retemperada.

-     - O que Levar?
Existe a possibilidade de ter a mochila transportada a um preço variável entre €5 e €7 por etapa. De qualquer maneira, para mim a opção foi por levar uma mochila leve e com os pertences muito bem escolhidos.
Um par de calçado suplente, pouca roupa, leve, de algodão, legings, uma toalha pequena, um páreo, roupa interior com destaque para um número razoável de meias que convém mudar com frequência, bolsa de higiene com embalagens pequenas, onde não pode faltar um creme hidratante com que se massaje várias vezes ao dia os pés e as pernas, um impermeável, cantil e uma lanterna pequena. Um pequeno caderno para notas e uns óculos de sol. Uma fita para prender cabelos desalinhados que não vêm cabeleireiro nem secador.
  


A sétima etapa, entre Caldas dos Reis e Padrón(terra da grande poetisa Rosália de Castro, contemporânea da nossa Florbela Espanca), foi suave e sem dificuldades de maior.
Inevitável pensar naquela frase – tanta casa sem gente e tanta gente sem casa…
Nesta travessia da Galiza percebe-se que foi uma terra onde a vida nem sempre foi fácil, onde muitos imigraram e onde as casas, em regra enormes, aparentam um valor simbólico na luta pelo sucesso. Mais ou menos conseguido. Com investimentos variáveis e marcas do tempo, nem sempre generoso. Algumas casas foram ocupadas pela natureza e davam sinais de desamor e abandono.Outras mostravam o investimento e a estima – O jardim está bonito, sim, mas dá-me tanto trabalho!respondeu-nos uma senhora
Pelo meio da etapa cruzámo-nos com pessoas que fazem pequenos troços do caminho, no contexto de  excursões e depois retomam os autocarros em pontos combinados. Destaco também a conversa com um Finlandês entradote que vinha a fazer o caminho desde Lisboa. Estava a adorar mas tinha saudades da família, em especial dos filhos e dos 4 netos, que queria trazer com ele num próximo caminho.
Almoçamos muito bem uma favada (feijoada) acompanhada por pimentos padron num daqueles sítios à beira da estrada com um restaurante e uma loja vende tudo.
Saímos pela primeira vez sem abastecimento porque era domingo e não encontrámos nada aberto. Ao longo do caminho, quebrei a regra de não ‘chinchar’ e comi figos, medronhos, tomates e maças. Nada me fez mal.
Entretanto, fomos construindo a ideia de fazer uma sopa, inspirada na portuguesa sopa da pedra, com o que o caminho nos dava – castanhas, uns vagens de feijão (uns frescos e outros maduros), um pimento vermelho, uma maçã e umas folhas de couve galega, apanhadas já perto do albergue de Padrón. No albergue, onde encontramos sempre coisas que outros peregrinos deixam, juntámos uma pitada de sal e um pouco de azeite, um bocadinho de gengibre e uma pitada de arroz. Estava uma delícia e encheu a cozinha de um belíssimo aroma. Seguindo o uso dos albergues, partilhamos a sopa com quem quis e estivemos a comer com um brasileiro que estava a fazer o caminho com familiares e amigos.

A oitava e última etapa de Padrón a Santiago foi a mais longa e talvez a menos interessante. 25 km por sítios nem sempre bonitos, com tantas subidas e descidas que se torna saturante. Geri sentimentos ambivalentes com a vontade e a pena de chegar a Santiago. Com mais tempo teria ido a Finisterra e descansaria um dia, mas desta vez não podia ser assim.
Antes das 9h já estávamos na rua prontas a caminhar e deitámo-nos já passavam das 23h, numa hostal em Santiago. Fizemos paragens muito simpáticas em cafés e roulotes ao longo do caminho que serviam de descanso, convívio e abastecimento. Para além do inevitável carimbo na caderneta.
À medida que nos aproximamos de Santiago aumentam os peregrinos, em grupo ou sózinhos e a conversa sobre os Caminhos. As jovens polacasque faziam troços do caminho a rezar em voz alta. O jovem casal russo que tinha uma ideia muito contestária do ponto atual da civilização ocidental. A velha senhora do Canadá que seguia mais devagar mas que tinha vindo desde Lisboa com uma energia que metia qualquer jovem num chinelo.Gente de todo o lado, como é costume e com um espírito de inter-ajuda e de incentivo ao outro.
Chegámos exautas a Santiago por volta das seis da tarde.  A cidade,  que vive dos peregrinos e da industria da fé, está tomada por homens de farda cinzenta, que não permitem entrar em lado nenhum com mochilas, que  estão à entrada da catedral e de outros monumentos e que, de repente, nos fazem sentir desajustadas. Mal vindas. Como se não fizéssemos parte do turismo desejável.
Enfrentámos a fila para receber a Compostela (discutindo com o homem cinzento que governava a fila e cuidava para que as mochilas não entrassem), a minha amiga foi buscar a mochila ao Seminário de Santiago Maior (um hotel bastante luxuoso no centro da cidade) onde não tivemos vaga, tentámos perceber o horário dos comboios de regresso para Portugal, fomos à Catedral - e com isto era 20h, estávamos cansadas e carregadas e não tínhamos onde dormir.
Fomos salvas pelo encontro com a jovem russa que tínhamos conhecido no Freixo. Fizemos uma festa e ela indicou-nos o albergue onde estava, perto da estação – o que era simpático porque eu tinha decidido sair às 5 h da manhã (só saiam 2 comboios com transbordo para Portugal e o mais tardio, não tinha ligação do Porto para Lisboa). A minha amiga ficaria mais um dia em Santiago.
Atravessamos meia cidade para ir comer a um restaurante que lhe tinha recomendado e que, de facto, era muito agradável – espaço cuidado ao estilo rústico com charme, respirando cultura, ponto de encontro de intelectuais e artistas, galegos e portugueses. Só tive pena de estar tão cansada que não tirei todo o partido, mas ainda assim foi um belo e retemperador jantar.
De novo atravessámos meia cidade até ao hostal. Era acolhedor, limpo e simpático. Tomei banho e dormi 4 horas num sono só.


        
Desperta e cansada, apanhei o comboio às 05.15h para Vigo, ainda de noite.
Uma hora de espera em Vigo com um bom pequeno-almoço na estação e entretanto ficou dia. O comboio português parte às 9h e chegou ao Porto as 10,20h, hora portuguesa. O barulho do motor lembrava aquelas motos velhas que se deslocam em esforço. Na carruagem estão mais alguns peregrinos de regresso (reformados que, pela bagagem, fizeram o caminho na versão hotel), dois casais ingleses e um casal australiano. Conversam sobre o caminho, sobre a vida, sobre como gostam de Portugal, salientando a limpeza das terras e o acolhimento dos portugueses.
Vou distraída, dormito e estou pouco atenta à paisagem. Olho para fora de vez em quando e localizo algumas estações. S. Pedro da Torre. Viana do Castelo. Tamel. Midões. Nine. No Porto mudamos de comboio e entram muitos passageiros. Converso com uma jovem italiana que está a viver em Londres e viaja de visita a Portugal, bem documentada. Sai em Coimbra, depois de me ter pedido sugestões para visitar em Lisboa.
Chego às duas da tarde a Sta. Apolónia e atravesso com tranquilidade a cidade em obras até ao Cais do Sodré. Ainda paro no largo do município para beber uma limonada e fumar um cigarro.
Antes do Cais do Sodré sou abordada por uma senhora brasileira que olhou para a mochila com a Vieira de Peregrina e me perguntou se eu vinha do Caminho de Santiago. Acabada de chegar, digo-lhe eu.
- Oi moça, me conta tudo porque eu vou de viagem amanhã para fazer o Caminho de Tui a Santiago, pediu ela. E estive a conversar meia hora, partilhando as minhas experiências de peregrina.
Já no comboio suburbano lembro uma frase que estava grafitada numa parede à chegada a Santiago ‘O melhor do caminho é chegar a casa’.
Fiquei a pensar com sentimentos contraditórios. Parece-me que o tempo voou...


Isabel Passarinho


quarta-feira, 6 de abril de 2016

Desafio de Aniversário: Crónicas de uma Viagem - Algarve: dois mundos numa única região

Quando se fala no Algarve, os primeiros pensamentos que invadem as cabeças da maioria das pessoas são de sol, verão e praia mas esta região tem muito mais para oferecer a quem a visita.
As vicissitudes da minha vida tornaram-na numa constante viagem entre Sotavento e Barlavento algarvios. Esta viagem deu-me o privilégio de poder conhecer dois “algarves” distintos e aproveitar o que de melhor cada um deles tem para oferecer.
De um lado Olhão, capital da Ria Formosa, uma cidade de origem piscatória, situada no litoral algarvio. Do outro lado Monchique, uma vila no interior algarvio que pertencendo a um dos maiores concelhos algarvio sofre de um problema de diminuição e envelhecimento da população, tão típico das regiões interiores.
Nas margens da Ria Formosa (uma das sete maravilhas naturais de Portugal) ergue-se Olhão, uma cidade que, apesar de se encontrar no litoral algarvio, não é como destino de praia que é vista pelos turistas. A sua arquitetura e a sua história fazem de Olhão um destino mais cultural para todos os que visitam a cidade.



Entre os locais mais emblemáticos encontram-se a Zona Histórica da cidade, onde pode ver-se um pouco do Olhão de antigamente (antes de ser promovida a vila ou cidade) e os Mercados Municipais que são um ex-libris da cidade e apresentam uma arquitetura que os diferencia dos restantes mercados algarvios. Junto aos Mercados Municipais é possível ver uma réplica do Caíque “Bom Sucesso”, a embarcação que partiu desta mesma cidade para informar o príncipe regente D. João (futuro D. João VI) da expulsão das tropas francesas do Algarve.
A cidade de Olhão também é conhecida pela sua gastronomia, centrada em produtos oriundos do mar como o peixe e o marisco. No caso específico do marisco realiza-se na cidade, todos os anos em agosto, o Festival do Marisco no qual este é cozinhado de diversas maneiras e para todos os gostos.
Apesar de não ser visto como um destino de praia, também se encontram praias no concelho de Olhão, nomeadamente na Ilha da Armona (única ilha barreira da Ria Formosa que pertence ao concelho).
A Ilha da Armona é, na minha modesta opinião, um paraíso na Terra, um local em que podemos desligar-nos do mundo exterior e do stress do dia-a-dia e em que podemos recarregar as nossas energias. Esta ilha apresenta duas faces distintas, uma mais civilizada onde se concentram todos os cafés, restaurantes e zonas habitacionais e outra mais natural cujas paisagens se confundem com as das ilhas desertas e inabitadas.
Do litoral para o interior encontramos Monchique, uma vila perdida no meio da serra algarvia com um património natural imenso.
O seu clima particular permite que o concelho de Monchique apresente uma biodiversidade riquíssima tanto em termos de fauna como de flora.
As suas paisagens verdejantes e os ribeiros de água cristalina fazem de Monchique um destino obrigatório para os amantes da natureza. Estes podem explorar a serra tanto de carro como em passeios pedestres, podendo optar pela contemplação da paisagem ou por fazer uma paragem para um belo piquenique num dos infinitos locais propícios que irão, certamente, encontrar.
Para aqueles menos aventureiros e com menos interesse em explorar a serra, há sempre a possibilidade de ter uma visão global da mesma num dos muitos miradouros existentes no concelho, sendo que um deles se encontra no ponto mais alto do Algarve, a Fóia, a 902 metros de altitude. Nestes miradouros irão ter a privilégio de desfrutar de algumas das mais bonitas vistas do Algarve.
Na vila propriamente dita pode-se passear pelas estreitas ruas, bem como conhecer a Igreja Matriz e o Convento de Nossa Senhora do Desterro, aproveitando para observar a arquitetura da mesma.
É impossível falar de Monchique sem falar das Caldas de Monchique na qual se situam as Termas, que existem desde o tempo da ocupação romana, nas quais água termal é utilizada para fins medicinais e estéticos.
Tal como Olhão, Monchique também é uma localidade conhecida pela sua gastronomia sendo que neste caso os enchidos são os principais produtos da mesma, tendo eles uma feira própria (Feira dos Enchidos) que se realiza todos os anos no primeiro fim-de-semana de Março.
Concluindo, apesar de serem dois mundos completamente diferentes e distarem cerca de 100 quilómetros, tanto Olhão como Monchique são locais com algo de mágico a oferecer a quem os visita. Algumas pessoas irão preferir a visita a Olhão outras irão gostar mais de Monchique mas acredito que ninguém se arrependerá de visitar qualquer destas localidades.

Marco Gago

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A Viagem do Beagle

Titulo – A viagem do Beagle – Viagem de um naturalista à volta do mundo
Título original – The voyage of the Beagle – A naturalist’s voyage round the world
Autor – Charles Darwin
Editora – Relógio D’Água Editores
Data de edição – Fevereiro de 2009
Data da publicação original – 1839

A viagem do Beagle (1832-1836) narrada por Charles Darwin no seu diário é uma obra apaixonante. Um fantástico livro de aventuras que nos traz o mundo percepcionado por um homem do século XIX que durante quase cinco anos trilhou as costas de Cabo Verde, Brasil, Argentina, Chile, Perú, Nova Zelândia, Austrália e realizou inúmeras incursões pelo interior do continente americano, australiano e visitou um sem número de ilhas de várias naturezas.

Rico na descrição das componentes geológicas e biológicas das terras que Darwin atravessa durante a sua viagem, este livro transmite também as percepções sociais, morais e ideológicas que realidades tão contrastantes como o Brasil esclavagista, as tribos canibais da terra do fogo ou a colónia inglesa estabelecida na Austrália despertam nas crenças e valores de Darwin, sendo de extremo interesse ver o processo evolutivo que o autor sofre ao longo da sua viagem na maneira como vê o mundo.


 Mais do que um livro de viagens, de história ou de aventura, A viagem do Beagle é uma janela para outro tempo e para a análise aos olhos de um homem de então, de problemas sociais, económicos, ambientais, morais e científicos que, em certa medida, não distam tanto quanto seria de se esperar, dos actuais problemas da mesma natureza.

Escravidão, religião, corrupção, colonização e civilização são alguns dos tópicos que Darwin homem acrescenta à imensidão de fantásticas anotações, relatos, pensamentos e explicações com que Darwin naturalista recheia o seu diário, desde as ilhas vulcânicas e a sua flora e fauna particular, como Cabo Verde e as Galápagos, as luxuriantes florestas do Brasil, as pampas argentinas, a inóspita terra do fogo, os andes chilenos, as intrigantes galápagos, os recifes de coral do pacífico, as diferenças civilizacionais e naturais entre Nova Zelândia e Austrália, entre tantas outras experiências transmitidas ao longo de cinco anos de viagem.

A notar ainda as anotações e referências com que Darwin dotou o texto e que acrescentam pormenores valiosos e deliciosos à obra e à percepção do funcionamento da comunidade científica internacional à época.

Por último interessa referir o único ponto negativo que merece referência nesta obra: a tradução. Talvez por o trabalho ter sido feito por diferentes tradutores em diferentes partes do livro (algo pouco compreensível tendo em conta que a obra original foi escrita em Inglês) o texto é por vezes minado por uma tradução algo inconsistente que perturba a experiência da leitura sendo necessário recorrer a outras referências, que nem sempre serão ao alcance do leitor casual, para que se entenda o que está a ser transmitido.

Em suma, apesar da tradução, uma fantástica obra escrita por um homem interessantíssimo que, com base nesta viagem, criou uma das teorias científicas que mais viria a abalar a maneira como percepcionamos o mundo e a nós mesmos, um grande livro de aventuras e uma incomparável viagem no tempo.

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Nuno Soares

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Cronicas de uma viagem - Caminho de Santiago (parte X)

Cronica 10 – O dia mais comprido


Dia 11 Santiago – Vigo- Porto – Lisboa

O dia de hoje foi o mais comprido e o mais cansativo de toda a viagem. Levantei-me por volta das 8h de quinta-feira e cheguei a Lisboa um pouco antes das 6 da manhã do dia seguinte, sexta-feira. Mas indo por partes, arrisco três: i) a parte da manhã passada em Santiago, ii) a parte da viagem até Vigo e iii) a parte de Vigo ao Porto e do Porto a Lisboa com a chegada a casa.

Primeira parte – Em Santiago

Tomei um belo pequeno-almoço na esplanada do café ao lado da pensão - adoro tomar um bom pequeno-almoço, num sítio bonito, descansada e sem pressas. Deixei a mochila a guardar na pensão e sai ligeira para dar uma volta pela cidade, ir à missa do peregrino que acontece todos os dias na catedral ao meio dia e tratar das questões práticas do regresso a casa (em que transporte, a que horas e a que preço).

Santiago, agora à luz do dia, é uma cidade bonita, enfeitada com muitas flores e muito bem cuidada. Vive do turismo e faz por merecer o agrado de quem a visita. Coexistem centenas de lojas de ‘recuerdos’ vulgares (caríssimos e mais ou menos industrializados e desinteressantes) com lojas tradicionais de artigos muito bons e outras inovadoras de design artístico (e preços ainda mais proibitivos). Também é percetível um movimento artístico e cultural bem enraizado mas com novas abordagens bem interessantes.

Fig 2: Santiago
Viajar de mochila e com um orçamento muito limitado também resolve o problema das lembranças para a família e amigos – comprei o mínimo, umas fitas de Santiago tipo ‘senhor do bom fim’ para algumas pessoas com quem quero partilhar este acontecimento e umas pulseiras mais elaboradas com símbolos antigos para os mais chegados (em quase nada ainda gastei mais do que gostaria).

Um dos momentos mais bonitos que vivi neste passeio turístico por Santiago foi ficar a ouvir um músico de rua que tocava acordéon. Sentei-me num degrau e fiquei parada a ouvir a sua música nuns momentos que me lavaram a alma. Mais perto do meio-dia aproximei-me da catedral. A praça monumental, estava cheia de gente. Gente de todas as maneiras e feitios. Devoção, turismo, curiosidade…e aqueles grupos patéticos de ‘turistas de pacote’ com as inevitáveis guias de bandeirinha – deprimentes!

Entrei na catedral deviam ser umas 11 e meia e, apesar da escala ser enorme, já estava apinhada. Os confessionários em várias línguas estavam a funcionar em pleno. E as ‘relações públicas’ da igreja viam-se ‘em palpos de aranha’ para arrumar as «ovelhas», algumas acabadas de chegar da peregrinação, ainda com as mochilas. Muita gente estaria pelo pitoresco, pelo ritual, pelo espetáculo, outras pela devoção. Algumas pessoas estavam em meditação, outras com expressão de sofrimento, algumas só cansadas e outras atentas. Uns mais respeitosos do que outros. 

Gente do mundo inteiro reunida na Catedral. Que sei eu? Eu própria tinha razões paradoxais para estar ali.
Gostei particularmente das palavras da freira que iniciou a comunicação com o público e resumiu a «coisa» a uma trilogia que me fez sentido e podia ser unificadora, para além de qualquer catecismo: Fé, Esperança e Amor. Depois começou a cantar com uma voz magnífica e não deixa de ser comovente ouvir um coro de 1000 vozes entoando os cânticos. De resto, o ritual da missa é normal. Saí na parte das hóstias.

Não fiz as rotas turísticas de abraçar o santo, nem fui à tumba agradecer – já o tinha feito no altar da natureza quando senti que era a hora e não me fazia sentido voltar a fazê-lo por uma qualquer obrigação folclórica. Mas gostei de participar naquele momento da missa e, de alguma maneira, marcar o fim do Caminho, agradecendo pela possibilidade de o ter feito.

Segui para procurar comer qualquer coisa e acabei por almoçar num restaurante muito bonito perto da pensão. Ofereci-me uma refeição completa porque também já não me fazia sentido continuar a comer aquelas sandes, com sumos e fruta que tinham constituído as minhas refeições durante o caminho. Fui buscar a mochila e segui em direção à estação de comboios que ficava relativamente perto (entretanto, tinha decidido voltar de comboio porque é o transporte de que gosto mais e ficava a um preço razoável).

Cheguei à estação um pouco antes das 2h da tarde e apanhei um susto porque só vi destinos espanhóis. Será que não havia comboios para Portugal? Fui às informações e lá soube que teria que fazer o circuito Vigo-Porto-Lisboa. Comprei bilhete e esperei pela partida às 16.29h. Os intervalos de espera neste dia foram desesperantes mas estas primeiras duas horas até serviram para descansar. Apesar da sensação um pouco amarga de que tinha acabado a ‘festa’.

Segunda parte – Rewind do Caminho (viagem de comboio entre Santiago e Vigo)

O troço entre Santiago de Compostela e Vigo faz-se com conforto, num comboio do tipo TGV e dura 1h e meia. O trajeto é quase paralelo ao Caminho e deu-me uma estranha sensação de estar a rebobinar a cassete do que tinha vivido naqueles dias. Parecia que tinha entrado num túnel do tempo e que estava em ‘rewind’ a olhar para aqueles locais (a casa que parecia um castelinho, a igreja de Esclavitud, a casa de Rosália de Castro, aquele bosque, os campos de milho, a estação de Padrón…). Foi quase doloroso. Às páginas tantas, deixei de olhar pela janela porque não gostei da sensação e concentrei-me nas recordações ainda frescas que trazia do Caminho. Gostei de o fazer. Gostei de o ter acabado. Gostei de ter gerido bem o esforço e de ter feito as pazes com o meu corpo que se portou tão bem e de quem eu nem sempre cuido como devia. Gostei de ter passado férias sozinha e de ter percebido que sou boa companhia. Gostei de me ter atrevido a fazer algo diferente e que adiava há muito.

Gostei do ambiente acolhedor do Caminho, da gentileza entre os peregrinos e das palavras de ânimo e incentivo que ouvi por todo o lado. Pensei em muita coisa mas nem tudo consigo alinhar agora. Sinto que as ‘ondas de choque’ desta caminhada vão ecoar me mim por muito tempo e que provavelmente daqui para a frente vão haver coisas que ganharão novos sentidos. Embora não tenha a sensação que algumas pessoas descrevem de que ter feito o caminho lhes mudou a vida. É verdade que fiz o Caminho como uma metáfora da vida e acho que fico com a responsabilidade de não esquecer e prolongar «este espírito peregrino» pelo resto dos meus dias, esteja onde estiver. 

A estação de Vigo é feia. Fica numa zona industrial e inóspita. Felizmente está sol. O intervalo entre comboios é de quase duas horas, muito tempo de espera mas pouco tempo para dar um passeio pela cidade, sobretudo quando se tem uma mochila às costas. Leio uma revista que comprei, escrevo umas notas soltas, vou pedir para carregar o telemóvel no café da estação (tem a bateria viciada e descarrega com facilidade, sobretudo depois de o usar para tirar umas fotos) e fico a ver TV enquanto espero. Nestes locais, a televisão ocupa um lugar estupidamente central. 

Lá, como cá, notícias da crise, manifestações de descontentamento, empobrecimento progressivo das populações, cortes nas reformas, dramas pessoais – uma mãe com 6 filhos que se suicidou aparentemente por dificuldades financeiras. Estas notícias fazem disparar ‘o meu botão’ de Assistente Social entalado entre um compromisso com o desenvolvimento das pessoas, uma empatia terapêutica, uma postura de ajuda à realização do potencial de cada um e o lado do compromisso social com um modelo de sociedade mais justa e mais respeitosa dos direitos humanos. Que não pode ser esta sociedade neoliberal e capitalista em que estamos agora.

Revolta ou transição pacífica? Conformidade ou dissidência? Adaptação ou reinvenção? Estas são algumas das dualidades que ainda não consigo ultrapassar.

Terceira parte – De volta a casa (viagem de comboio entre Vigo, Porto e Lisboa)

Fiz esta viagem entre as oito da tarde com saída de Vigo já num velho comboio português, as 21.00, hora a que cheguei à estação de Campanhã (Primeiro ainda pensei dormir a noite no Porto mas fiz contas à vida e achei que era pouco tempo para o dinheiro que iria gastar; por isso decidi seguir viagem até Lisboa), a longa espera de quase 5h em Campanhã e o regresso a Lisboa num comboio velho e tremeliquento.

A viagem de Vigo ao Porto ainda foi simpática. Tinha ao meu lado uma família com crianças que se fartaram de conversar e fazer jogos – de vez em quando não podia deixar de sorrir com a traquinice das meninas. E uma hora passa num instante. Pude apreciar um belo pôr-do-sol e o nascimento de uma enorme lua cheia que coincidiram com a passagem do rio Minho. Depois, de Valença ao Porto passei por terras e terrinhas com nomes inusitados que não conhecia mas já era noite e acabei por desligar da paisagem e ficar a ler a minha revista.

Chegada a Campanhã aguardava-me a pior espera do caminho: cinco longas horas. Fiz de tudo, comi, andei de um lado para o outro, fui à casa de banho, fumei uns cigarritos, li as revistas, fiz palavras cruzadas, olhei as pessoas, ouvi as conversas e …desesperei. Quem me conhece sabe que eu tenho hora de Cinderela, à meia-noite começo a transformar-me numa abóbora – e foi isso que aconteceu, travei uma luta enorme com o sono e isso cansou-me muito.

Fig 3: Ferrovia, Porto
Só o bom vernáculo nortenho que se ouvia por todo o lado (nas conversas dos taxistas parados em frente da estação, na boca de uma rapariga tipo ‘top model de discoteca de alterne para bimbos endinheirados’, na conversa de um senhor de meia-idade que veio largar uma pré adolescente à estação, nas conversas de 3 jovens amigos com ar de estudantes universitários que jogavam com os seus portáteis…) ajudou-me a manter o estado de alerta.

No entanto, entre a uma da manhã e as cinco e meia, que foi o período da viagem até Lisboa, já estava em estado vegetativo. O comboio seguiu com pouca gente mas foram subindo bastantes pessoas pelo caminho, sobretudo homens jovens que aproveitavam os três bancos em linha e sem apoio de braços para se deitarem. Eu não me atrevi. Doíam-me as pernas da imobilidade. Ainda me descalcei durante um período. Dormitei mas em modo alerta. Comecei a achar que não cheirava muito bem (devia ser da roupa porque tomei banho). Tive frio. Finalmente Lisboa. 

Fig 4: Lisboa
A S. tinha insistido em vir-me buscar, se bem que eu lhe tenha dito que não valia a pena, que poderia apanhar um táxi até Sete Rios onde tinha deixado o carro. Na chegada a Sta. Apolónia estava um delicioso cheiro a bolos quentes no ar, apesar de não haver nenhum café aberto. Da S., nem sombra (tinha adormecido e vinha a caminho). E pronto, lá estava eu, sentada nas escadas da estação de Sta. Apolónia com mochila às costas, ar de sem abrigo e meia bêbada de sono. A cidade estava naquela transição entre as criaturas da noite e a alvorada, que trazia novas criaturas para habitar o dia. 

Chegou a minha boleia e fomos comer qualquer coisa quente em Santos e meter a conversa em dia. Mas eu estava exausta e sou fraca contadora de histórias. Preciso de dormir. Preciso de recuperar desta direta. Preciso de processar lentamente esta viagem…

Isabel Passarinho

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Cronicas de uma viagem - Caminho de Santiago (parte IX)

Cronica 9 – O meu caminho e o caminho dos outros

Dia 10 –Padron/Santiago

Manhã fresca. Dormi bem e acordei cheia de energia. Quando fui tomar o pequeno-almoço na sala comum do albergue encontrei o gnomo. Deu-me um sonoro ‘bom dia!’, informou que depois de Santiago seguiria para Finisterra por uma jornada de mais dois ou três dias. Pediu para tirar uma foto comigo. Perguntei-lhe sobre os albergues até Santiago e ele mostrou-se conhecedor e preciso, sugerindo um que ficava a cerca de 4km da cidade e um seminário em Santiago – despediu-se desejando Bom caminõ!

Partilhei o meu pequeno-almoço com as duas jovens de leste (as mesmas que ontem se despediam com muita nostalgia de um belo moço português) – despedi-me delas desejando Bom caminõ! Depois, quando saí, ainda de noite cerrada, outros peregrinos partilharam comigo a luz das lanternas para iluminar o caminho até amanhecer. Quando começou a clarear o dia aceleraram o passo (ou eu desacelerei) e desejaram Bom caminõ!

A primeira paragem foi feita após 6 Km num café em Esclavitud (que raio de nome para uma terra) onde já estavam vários peregrinos. Entrei com a Sílvia, de Madrid, que tinha encontrado um pouco antes e que me disse que estava aflita com bolhas nos pés. Encontrei também as 3 fininhas de leste (afinal eram da Estónia) que comem como ursos e que já estavam no café; vieram pedir para tirar fotos connosco porque queriam ficar com uma recordação. Estive um pouco à conversa com a Sílvia que me disse que não sabia se conseguia chegar a pé a Santiago mas ia voltar para Madrid de avião porque a Ibéria tinha um desconto significativo para peregrinos e bastava apresentar a credencial. Nesta altura ainda não tinha decidido como voltaria para casa e fiquei a pensar na possibilidade de voltar de avião, mas não me preocupei muito, de avião, de autocarro ou de comboio, logo veria. Na saída do café retardei o passo para acompanhar a espanhola até entrar na imponente igreja de Esclavitud. 

[Não tenho ligado muito aos carimbos da caderneta de peregrino e só ali é que percebi que os peregrinos também vão carimbar nas igrejas. Até ali carimbei apenas nos albergues, em alguns cafés de que gostei mais e ontem fui carimbada por uma brigada da proteção civil que encontrei pelo caminho]

Depois de sairmos da igreja deixei-me ficar a acompanhar a Sílvia que andava a muito custo. Mas ela própria me pediu para seguir ao meu passo reforçando o que se diz por aqui, que ‘cada um faz o seu caminho’. Apesar de me fazer sentido é uma postura nova para mim e fico a pensar no meu caminho e no caminho de outros. Tenho ainda aquela coisa entranhada de «ajudar». Mas, bem vistas as coisas, cada um faz mesmo o seu caminho. Embora isso não seja entendido como um ato individualista ou egoísta, é um caminho em interação, só que realmente é de cada um, é a metáfora da vida de cada um – no meu caso não gostaria que alguém traçasse o caminho para mim, abdicasse do seu caminho para fazer o meu (ou me pedisse o inverso) ou me dissesse em que passo o deveria fazer.

Pelo caminho paro muito. Sempre que me sinto cansada e encontro um lugar simpático, paro. Quando me apetece petisco qualquer coisa (normalmente fruta fresca ou seca) ou escrevo. Em algumas paragens descalço-me, tiro as meias, ponho creme nos pés e deixo-os arejar. Depois ponho meias lavadas, volto a calçar-me e aguento mais um troço.[Estes pequenos cuidados, muito creme hidratante e a alternância entre dois pares de calçado têm sido as técnicas usadas para evitar ter bolhas nos pés e até agora tem resultado a 100%]

Fig 2: A caminho de Santiago de Compostela
Quando iniciei esta etapa pensei ficar no albergue que o gnomo me tinha indicado a cerca de 4Km de Santiago e chegar à cidade amanhã, mais fresca e descansada. Mas fui andando, andando e começando a ficar muito cansada, ligo o piloto automático e deixo de raciocinar. Vi algumas indicações de albergues pelo caminho mas como implicavam desvios, não liguei e foi prosseguindo. São 24 Km nesta etapa, num percurso nem sempre fácil e com várias subidas acentuadas, em especial na aproximação à cidade de Santiago.

Passei Milladoiro, a primeira localidade verdadeiramente suburbana que encontrei, sem graça, cinzenta, com os arruamentos em obras, com grandes aglomerados- dormitório, espaços comerciais, um polidesportivo, um grande infantário modernaço (com movimento de saída de crianças a chorar como leitões para a matança, arrastadas por mães gordas e sem paciência  - o eco daqueles choros ficaram-me na cabeça durante muito tempo). Pouco depois desta localidade, avista-se Santiago.

O momento foi partilhado, por acaso (suponho eu) com as fininhas da Estónia que gritaram, bateram palmas e tiraram fotografias. Mas depois do avistamento onde a cidade aparece relativamente perto, o caminho dá voltas e mais voltas num trajeto sinuoso até chegar finalmente ao centro da cidade.

É particularmente difícil a subida para a cidade, por estradas e depois, por ruas que parecem não ter fim. Fiquei com a sensação de que a entrada se faz pelo lado de trás da cidade porque não se vê a catedral, nem o centro histórico. Ao mesmo tempo soma-se o desconforto de entrar numa cidade a meio da tarde, suada, cansada, cheia de pó e, provavelmente, a cheirar mal. Quando perdi as setas amarelas estava numa praça e não sabia que direção tomar. Na dúvida e muito cansada, sentei-me numa esplanada e pedi o de sempre: dois sumos de melocoton e um café solo.

Fig 3: Santiago de Compostela
Aproveitei o descanso para olhar em volta. O café com ar de bistrô francês chama-se Rosália Castro, a escritora venerada por aqui (passei ao lado da sua casa-museu em Padrón). Foquei-me nas pessoas que passavam: bem vestidas, apressadas, muitas com cara fechada e com olhar ausente, como se fossem máquinas. 

Estranhei. Durante o caminho tinha-me habituado a ver a maioria das pessoas de caras abertas que saudavam à passagem, esboçavam sorrisos e desejavam ‘bom caminho’. Quase me esqueci que a vida era assim, cheia de dormências e de defesas para nos entreter o tempo de vida em jogos de ‘papeis’ que não nos fazem felizes. Corridas e aparências para lado nenhum. Na verdade «eu sou mais campo» (como aquela private joke que diz ‘eu sou mais bolos») e preciso de ir procurando alguns sentidos para a vida. Claro que, quando estou do outro lado, ou seja, disfarçada de citadina, também devo ter o mesmo ar ausente e alheado. O tempo ficou enevoado e começou a cair uma chuva miudinha.

Perguntei ao jovem empregado de mesa pela Catedral e pelo Seminário Menor, o albergue de que o gnomo me falara, mas não me fiz entender e ele respondeu qualquer coisa, que eu também não entendi. Quando a chuva parou e eu me senti mais restabelecida pus-me a caminho. Á toa porque não voltei a ver as setas, segui a intuição (ou lá o que seja) e fui dar com o Campus Universitário. É curioso não achar a catedral numa cidade como esta e achar a universidade – dá que pensar. Talvez porque a relação com o conhecimento tem maior peso na minha vida do que a espiritualidade ou talvez por acaso. Sei lá.

Passei num parque urbano com a sensação de que estava a dar uma volta redonda. Perguntei pela catedral a uma senhora e ela deu-me a indicação. Estava perto. Mais uns minutos e avistei-a – imponente. Impossível de passar despercebida. Afinal tinha dado uma volta, por fora, ao centro histórico e não encontrei a tradicional entrada do caminho português, a Porta Faxeira. Agora que estava localizada, era preciso pensar em alojamento. O cansaço não permite grandes buscas e opto por uma pensão que me parece com bom ar numa envolvente simpática (31.00€ pela noite é um preço possível).
Fig 4: Catedral de Santiago
Quase ao pé fica o Instituto profissional de S. Clemente, numas instalações conventuais recuperadas e pelos jovens que circulam nas imediações, deduzo que deve ser uma escola profissional de segunda oportunidade para jovens com percursos mais difíceis. Penso no meu filho G. e na sua relação desastrada (ou desastrosa) com a educação e nas coincidências do que me surge no caminho – tenho a certeza de que, apesar do traçado do Caminho Português ser só um, o caminho tem desafios diferentes consoante as pessoas e cada peregrino fará as suas próprias associações e interpretações.

Depois de um bom banho e muito creme, deitei-me e adormeci. Acordei pelas cinco horas da tarde e obriguei-me a ir à rua (se tivesse feito a vontade ao corpo teria ficado a dormir). Começava a ficar escuro e chuviscava. As ruas do centro histórico estavam repletas de gente e muito animadas. Atuações musicais, esplanadas cheias, gente de todo o mundo nesta cidade que é património da humanidade e que faz por merecer a distinção, está cuidada, investida, preparada para receber os visitantes. Fui à majestosa praça da catedral, entrei na catedral e sai num registo de instantâneo fotográfico. Não ia com uma intenção precisa, estava apenas a dar uma volta de reconhecimento porque já não me lembrava da cidade e … encontrei o gnomo. Perguntou-me se estava sozinha e se queria ir tomar algo com ele. Concordei e fomos andando por aquelas ruas e conversando.

O gnomo é um expert (diz que faz o caminho à 12 anos, que não liga à igreja e que é sobretudo para treinar as pernas, para gerir o stress e para conhecer pessoas de todo o mundo) e aconselhou-me logo a ir aos Serviços do Peregrino (habitualmente com filas de várias horas) carimbar o passaporte e buscar a ‘Compostela’ – uma espécie de certificado da viagem. Aproveitei o guia e lá fui carimbar o Passaporte (é recomendado que seja carimbado em todas as paragens do caminho) e receber a Compostela -passada apenas aos peregrinos que tenham feito pelo menos 100 km a andar ou 200 Km de bicicleta ou a cavalo.

Depois escolhemos uma esplanada numa artéria animada ao lado de um teatro e pedimos 2 copos de vinho para fazer uma saúde – ele escolheu um Rioja muito agradável e nada caro (pagámos apenas €2,00 cada um por um copo de balão bem fornecido). Brindámos ao caminho e à vida, com o inevitável desejo de saúde para nós e para «os nossos».

O gnomo gosta de falar: é um homem rústico, vive numa vila de montanha lá para os lados de Alicante, numa terra cujo nome não fixei, que tem 2000 habitantes e onde toda a gente se conhece. Planta a sua horta e, pelo que percebi, está reformado. Vai prosseguir o caminho até Finisterra e de lá vai a Vigo ver um jogo de futebol – conta que uma das estrelas da equipa é um jovem seu conterrâneo que lhe ofereceu o bilhete para o jogo e que faz muito gosto, sobretudo porque gosta do rapaz e enaltece-lhe as qualidades de não ficar envaidecido com o sucesso e ajudar a família.

Este foi um dos encontros improváveis que o caminho proporciona - não gosto de fazer perguntas sobre a vida dos outros nem de falar de mim, por isso depois de trocarmos umas generalidades, a conversa esgotou-se. Começou a chover com maior intensidade e despedimo-nos com votos sinceros de continuação de bom caminho. Cada um seguiu em direções opostas.

São 21h. Estou no quarto de uma simpática pensão em Santiago de Compostela e antes de dormir penso nesta aventura e no quanto ter feito o caminho me iluminou as ideias? Ou as deixou mais claras? Ou ajudou a tomar decisões? O que é que eu ganhei com esta viagem? Hoje está claro que o meu projeto, qualquer que ele seja, tem de ter raízes em contexto rural e que os velhos e os deficientes estão no meu caminho… mas isto eu já sabia. Pronto, não vou tirar mais ilações… Estou cheia de sono.

Isabel Passarinho

(continua...)