Mostrar mensagens com a etiqueta Sociedade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sociedade. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Legislativas 2015 - A falácia da falta de escolha

Bom dia!

Hoje senti a necessidade de partilhar alguns pensamentos sobre uma das muitas questões polémicas que envolvem o presente (e passados) período eleitoral: a falácia da falta de escolha.

A falácia da falta de escolha é uma história, uma fábula, ou um conjunto de argumentos, dependendo do ponto de vista que, em altura de campanha se espalha como a varíola, com o intuito de beneficiar aqueles que há 41 anos monopolizam a governação de Portugal (PS/PSD), utilizando para isto o mais triste dos argumentos políticos: “O partido X é uma desgraça no que faz, mas os outros não são melhores”.

Ao contrário da varíola, que existe mesmo e parece que é chata, a falácia da falta de escolha é, independentemente da eloquência, tom e volume do orador, não mais do que uma falácia, uma mentira. Hoje vamos desmontar esse apelo à “estabilidade” e à “continuidade” que PS e PSD tanto se esforçam para passar como a única maneira de lhes salvar o empreg…, oh, perdão, o país.

Portugal é uma democracia há 41 anos (possivelmente o único aspecto em que realmente vale a pena apostar na continuidade), tendo atingido o feito a 25 de Abril de 1974, e, desde então, depois de 2 anos de junta de salvação nacional e governos provisórios, eis que se estabelecem em 1976 (até hoje) os governos constitucionais que, à excepção de ano e meio (29 de Agosto de 1978 – 3 de Janeiro de 1980) em que fomos governados por independentes propostos pelo, então presidente, Ramalho Eanes, foram conduzidos ora pelos socialistas do PSD, ora pelos sociais-democratas do PS e, aqui e ali, por um CDS a reboque, sempre que um dos dois partidos não foi capaz de conseguir sozinho uma “maioria estável/absoluta/grande e boa”.

Nestes 39 anos e meio de continuidade mais ou menos estável (parece que volta e meia os próprios pregadores da “estabilidade” e da “continuidade” decidem destabilizar-se uns aos outros, os marotos) Portugal tem seguido, no que diz respeito às contas públicas, um trajecto exemplar, estável e contínuo. Direção? Para baixo.

Segundo os dados divulgados no site da Pordata, o último ano (e único em 50 anos desde 1964 a 2014) em que o estado Português gastou menos do que ganhou foi 1970 e, à excepção desse vergonhoso exemplo, temo-nos mantido num caminho estável e contínuo para a bancarrota.

Fig.1: Equus africanus asinus, um burro, só porque sim.

Em 1975 o estado já gastava o equivalente a mais de 100 milhões de euros do que o que conseguia recolher em receitas, em 1976, a diferença já passava os 200 milhões, em 1984 ultrapassava-se a barreira dos 1000 milhões de euros (quanto é que isto é em escudos?) que o estado gastava, a mais, do que o que tinha para gastar, e em 2002 a balança comercial anual do estado Português acusava um rombo de mais de 5000 milhões de euros. Em 2004, quais campeões (quase fomos, raio dos gregos, sempre à frente) o estado Português quase ultrapassava os 10000 milhões de euros de défice anual, barreira que finalmente venceu em 2009, ano em que atinge a prestigiante marca dos 14057 milhões de euros, marca que, ainda assim é batida em mais de 200 milhões de euros no ano seguinte. Desde então, e porque felizmente houve um governo eleito com o propósito máximo de equilibrar as contas públicas, o estado Português têm vindo a perder, anualmente, só mais de 7000 milhões de euros e o défice encontra-se agora nos 130% do PIB. Estamos safos.

Mas há que reconhecer que nem tudo foi péssimo em 39 anos de continuidade PS/PSD/CDS. Desde 1974 foi construída uma boa rede de ensino, vulgo escola pública, que nos últimos 10 anos vem sendo desmantelada, um bastante razoável serviço nacional de saúde, cada vez mais inacessível aos cidadãos com menos recursos, quilómetros e quilómetros de alcatrão, que permitem ao tio Belmiro e afins, aos deputados e ministros, e aos investidores Chineses e Angolanos uma pista em fantásticas condições e com pouquíssimo trânsito, para esticarem os motores dos seus carros modestos (que também emitem poucos gases poluentes e podem entrar na baixa de Lisboa), tornámo-nos um país turístico, cuja principal mais valia é o baixo preço, produzimos grandes mentes nas artes, no desporto e na ciência, que são das nossas maiores e mais produtivas exportações, e claro, continuamos a ter de maneira muito estável e contínua um óptimo clima e comida fantástica.

Por outro lado, quanto a alternativas políticas, concorrem às eleições legislativas de 2015 (pois, as deste domingo) apenas 20 partidos, pouca diversidade por onde escolher.

Apesar de nem todos os partidos concorrerem em todos os círculos eleitorais, verdade seja dita, nunca houve, como agora, tanta alternativa, para todos os gostos, opiniões e feitios como nas presentes eleições. Desde defensores de marrecos e coxos a quem acha que o Cristiano Ronaldo é o máior há projectos e propostas para defender tudo e mais alguma coisa, inclusive, a espantosa “continuidade” e a também muito popular “estabilidade”.

Em todo o caso, para que se conheça e para que se possa votar com a consciência de que sabe a quem e para quem se está a dar não só dinheiro como o governo do país, deixo-vos uma lista dos partidos que concorrem nestas eleições, os links para os respectivos programas e os nomes dos cabecilhas:
 
AGIR – Coligação PTP-MAS
Líder – Joana Amaral Dias
Programa eleitoral: aqui




Bloco de Esquerda
Líder – Catarina Martins
Programa eleitoral: aqui






CDU – Coligação PCP-PEV
Líder – Jerónimo de Sousa
Programa eleitoral: aqui





Juntos Pelo Povo
Líder – Nuno Moreira
Programa eleitoral: aqui







Livre/Tempo de Avançar
Líder – Rui Tavares
Programa eleitoral: aqui




Nós Cidadãos
Líder – Mendo Castro Henriques
Programa eleitoral: aqui






Partido Cidadania e Democracia Cristã
Líder – Tânia Avillez
Programa eleitoral: aqui




Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses
Líder – Garcia Pereira
Programa eleitoral: aqui




Partido da Terra
Líder – José Manuel Silva Ramos
Programa eleitoral: aqui





Partido Democrático Republicano
Líder – Marinho e Pinto
Programa eleitoral: aqui








Partido Nacional Renovador
Líder – José Pinto-Coelho
Programa eleitoral: aqui







Partido Popular Monárquico
Líder – Gonçalo da Câmara Pereira
Programa eleitoral: aqui







Partido Socialista
Líder – António Costa
Programa eleitoral: aqui




Partido Unido dos Reformados e Pensionistas
Líder – António Mateus Dias
Programa eleitoral: aqui




Pessoas-Animais-Natureza
Líder – André Lourenço e Silva
Programa eleitoral: aqui





Portugal à Frente – Coligação PSD-CSD
Líder – Pedro Passos Coelho
Programa eleitoral: aqui





Divirtam-se e no Domingo não deixem de ir votar por falta de alternativa.



Nuno Soares

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Crónica Social - Overreact e o excesso

Aos 20 anos queria mudar o mundo. Queria ser ativista, agir para a mudança a favor de um mundo melhor, humanamente mais justo e menos desigual.

Ao fim de 30 anos de trabalho (em que fui acrescentando a militância social à condição de assalariada técnica) no campo da intervenção social fui reformulando os argumentos para mim própria e tentando encontrar justificação, em consciência, para o meu agir em cada momento histórico e circunstância.

Agora estou mais focada em mudar-me. Convicta de que, na luta com e contra as minhas próprias resistências, cicatrizes e handicaps, vou mudando (menos do que gostaria) e algumas mudanças acontecem, perto e longe de mim.

Continuo a querer mudar e a ser co-protagonista de mudanças. Mas admito, contas feitas, que talvez tenha sido mais adaptativa do que inovadora.

A este percurso que tem sido uma espécie de revolução pessoal on going chamo Vida.


Numa época em que quase todos os spots anunciam we can num alter-ego humano de poder sobre si próprio e sobre o mundo, admitir que ‘não se pode pregar prego nem estopa’ tem um lado terminal. Depurado. Essencial.

Tem também um conjunto de outros lados.

O lado de lidar com muitos excessos - Teorias, informações, sentimentos.

Sentimentos que não sabemos gerir. Estamos ao serviço de quê? O lado da negatividade e da frustração. O lado de pôr em causa mais do que seria necessário. O lado de fecho em explicações redondas. O lado de afogamento em perguntas retóricas que anseiam por explicações - Só queria entender!

São muitos os lados. De entender, de não entender, de entender apenas um bocadinho ou de ir mudando os entendimentos.
Convicções e teorias em excesso. Informações, escolhas, dualidades e paradoxos.

Na minha história tenho episódios e situações de ‘não saber’, de ‘não perceber’, de ‘não poder’, de confronto com a impotência e com a limitação. Às vezes, não quero saber.

Aliás, tenho ideia de que quanto mais próximas as pessoas e as situações mais difícil é focar – lembro-me muitas vezes daquele personagem do Woody Allen no filme Deconstructing Harry que ficava out of focus. Sei o que é este estado.

Tenho também experiência de períodos da vida em que agi como se não houvesse amanhã. Em corridas que, pelo meio, perdiam o sentido ou em que eu me perdia do significado que lhe tinha dado.

A sério e na vida, só temporariamente consegui gerir os excessos. A maior parte das vezes com danos.

E continuo a interrogar-me sobre as formas de respeito para com a ‘região demarcada do outro’. Sobre como se fazem e não fazem, as mudanças – pessoais, organizacionais, na sociedade e no mundo. Nos ecossistemas. Em mim.

Entre as questões mais macro, estruturais, societárias e ambientais e a vida de cada dia, a nossa vida de formigas em carreiros mais ou menos previsíveis, existem muitas ligações.

Alguns sucumbem ao sentimento de pequenez, de falta de poder, de zanga, da anestesia e da propaganda.

Podem passar vidas inteiras em palavras de ordem que não acontecem. Ou pelo contrário, querendo apenas seguir o carreiro.

Outros vão tentando olhar o caminho por onde andam e melhorar ‘a’ e ‘na’ caminhada.

Com os sentidos no movimento, entre a pegada e o cosmos…

Qual a medida do necessário e adequado?


Isabel Passarinho

_________________________________________________________________________________ 
Overreact - Termo que designa reação ou resposta mais forte do que o necessário ou apropriado

terça-feira, 9 de junho de 2015

Crónica Social - O Xico da Tina

O Xico faz hoje anos - 84 anos de uma vida dura de trabalho. Está casado há muitos anos. Nem sabe ao certo. Vive numa aldeia com a Tina, com alguma família e vizinhos por perto mas já com muitas baixas na sua geração. Não têm filhos. Com uma certa mágoa.

- Ninguém tem obrigação de nos ajudar! Diz a Tina. Cada um tem a sua vida e nós aqui estamos até que Deus queira.

O Xico é muito poupado nas palavras.

- Estamos cá de empréstimo, diz em nota filosófica.

Não vivem mal. Têm casas, terras, amealharam, não se renderam ao consumo, não gastam muito e ainda amanham uns bocadinhos de terra perto de casa de onde vão buscar cereais, os legumes, os frescos e algum sentimento de ocupação e utilidade.

Um pouco por todo o nosso pequeno país, sobretudo nos meios mais rurais, é frequente as pessoas serem designadas por uma relação especial. É uma espécie de identidade relacional em que a definição de um se faz a partir de uma relação geradora com outro. Mas o Xico e a Tina estão velhos e pesa-lhes a vida. E a solidão. A velhice é uma chatice!

Por mais que se fale em envelhecimento ativo e que a publicidade utilize cada vez mais senhores e senhoras de cabelos brancos, sorriso jovial e aparentemente sem problemas, desconfio que seja uma fase da vida menos simpática.

Bom, na verdade cada fase da vida tem os seus desafios e provavelmente aquela que estamos a viver é sentida como a mais dura.

Já tenho algumas amigas que contraíram velhice e que se queixam. As perdas (de dentes, de audição, de cabelo, de elasticidade, de frescura, de paciência…) parecem superar os ganhos - de peso, de gravidade, de sabedoria, de dores…

- Já viste a pele das minhas mãos? – Perguntava-me uma delas, à beira dos 60 e visivelmente alarmada.

E a memória? Ou as suas falhas. E o sentimento de aproximação ao fim de linha? E a dificuldade em voltar a acreditar, a ter sonhos, a desejar qualquer coisa ou alguém? E o pânico de ficar dependente, de não ser autónoma? E a perda de relações significativas?

Mas afinal quando é que estamos velhos ou velhas?
Recuso o limiar instituído dos 65 anos. Até porque já não corresponde à idade da reforma, que era o marco da improdutividade a partir do qual já podíamos ser velhos.

Conheço velhos de 20, de 30 anos, de 50, de 70 e de 80 e muitos. São todos diferentes, é verdade. Mas também não caio na esparrela de dizer que a velhice é um estado de espírito. Conheço velhos cheios de medo de morrer. Tristes. Desconfiados. Avarentos. Sós. Amargurados. E outros que não. Algumas pessoas parecem não ter idade.

Ou melhor, poderiam ter qualquer idade porque esse é um dado que não importa muito. Pessoas que não desistem. Que riem e choram. Que tem dias bons e outros nem por isso mas que não se deitam sem agradecer, seja à vida ou a qualquer outro ser ou entidade. Pessoas que continuam a aprender, a desafiar-se, a querer estar melhor consigo e com os outros. Que têm amigos de todas as gerações. Que vão ao baile ou ao museu. Que arriscam compreender outras perspetivas.

O Xico teve recentemente um pequeno AVC que o deixou estranho. Fala ainda menos, já não vai à horta, dá uma volta à casa e senta-se, cansado. O seu território ficou mais estreito e mais doméstico. A televisão ficou mais longe. Olha para ela sem ver, sem ouvir, sem interesse.

A Tina, que é uma mulher de saúde frágil, desmultiplica-se em cuidados e desvelos para ver o seu homem novamente ativo e cheio de afazeres. Teme por ele e por si. Está triste. Sente a vida como um calvário a cumprir, como um problema sem solução. E zanga-se quando lhe apontam algumas possibilidades.

Na sua forma de entender a vida, os cuidados profissionais e as respostas institucionais não são opção. Não para si nem para o seu marido.

O Xico sente a vida gasta e as palavras também. Gostava de ver mais crianças na aldeia. Isso e os campos todos tratados e cheios de árvores de fruto como quando eram novos…

Isabel Passarinho

terça-feira, 12 de maio de 2015

Crónica Social - Isto não é.

Gosto de ser contra corrente e começo por usar o não - Isto não é.

Isto não é uma rubrica sobre fofocas, vidas cor-de-rosa, fama, espetáculos, chefes de claques, partidos, cães com pedigree, crimes e desgraças exploradas, coisas caras, viagens longínquas, invejas, empresários de sucesso, nem tão pouco sobre a vida dos outros.

Mas então que espécie de crónica social poderá ser?

Podemos reinventar o termo social. E acordar por agora que nomeia a interação entre os seres humanos neste bolinha perdida no espaço, a que chamamos Terra.
Que tem que ver com as formas como os homens se organizam para viver em conjunto. E gerir os recursos e os bens comuns. Também tem que ver com trabalhar e produzir e distribuir a riqueza, nas sociedades que inventámos.
Que terá que ver com as formas como nos relacionamos connosco, com os muitos outros e com a Terra.
Só por agora. Só para nos entendermos, podemos considerar assim.

Interação entre os seres humanos?

Isso tanto podem ser as formas de viver com os nossos mais próximos – os que moram connosco ou no nosso coração, os nossos afetos e desafetos, como os outros. Ou nós mesmos na relação que temos connosco. Que será sempre uma relação mediada por outros.
Os outros vizinhos, que saudamos ou não saudamos, os outros colegas ou os outros que partilham filas de desemprego, ou de trânsito, os outros que bebem café no mesmo sítio, os outros que encontramos nas escolas dos filhos, os outros a quem chamamos amigos, os outros que trabalham voluntariamente nos bombeiros, no centro social, na biblioteca, no clube desportivo, na preservação do meio ambiente. Os outros que não têm trabalho. Os outros que nos irritam. Os que são velhos demais. Os que são novos demais.

Os outros que pensam como nós e os que pensam diferente. Os que têm os mesmos gostos. Os que foram educados de forma semelhante. Os que nos conhecem.
Os outros que são do mesmo clube da bola e os que não são. Os outros que são da mesma preferência partidária e os que não são. Os que são da nossa terra e os que não são.
Os que são de cá e os que não são.
E os outros mais distantes. Aqueles a quem atribuímos poderes especiais. Os que mandam.
Os muito ricos que não se conhecem. Os que fazem a guerra. Os que exploram e os que são explorados.
Todos somos gente em interação. Por mais que nunca tenhamos saído da nossa rua.

Por mais que não saibamos onde fica a Albânia ou a Síria ou a Namíbia. Por mais que as histórias que os media nos contam já não nos toquem. Por mais que nem sonhemos o que os media não nos contam.
Por mais que o meu dia-a-dia seja tão duro que me estou a marimbar para as múltiplas frentes de guerra. Ou para as alterações climáticas. Ou para a extinção das espécies. Ou para os transgénicos. Ou para o império das farmacêuticas. Ou para a política. Ou para o desemprego. Ou para o futuro da Europa. Ou para tudo e todos. Até para mim.

Talvez estas crónicas sejam sobre gente. Pessoas. Aqueles seres com a característica singular de serem todos diferentes e semelhantes, habitantes da mesma ‘casa’ e pertencentes a uma mesma raça humana.
Afinal talvez seja uma crónica com gente dentro. Com histórias e perspetivas de vida.

Não sou uma tudóloga (espécimem convencida que sabe de tudo e que emite opinião sobre qualquer assunto), nem me levo muito a sério. Tento não julgar, nem me pautar por moralismos.
Terei sempre uma perspetiva particular. Sem pretensão à verdade. Mas com a minha verdade.

Encontramo-nos por aí…

Isabel Passarinho

Isabel Passarinho passará a trazer-nos de forma regular a sua nova "Crónica Social"! Acompanhem! 

Opina 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O problema é que somos todos Charlie

"Posso não concordar com o que dizes, mas defenderei até a morte o direito de o dizeres."

Evelyn Hall[1]

Ainda o mundo estava a ressacar das promessas e novas resoluções para o ano de 2015, quando subitamente no dia 11 de Janeiro, acorda com a notícia do macabro massacre ao escritório do semanário Charlie Hebdo.

Como aconteceu com tantas outras mortes, Charlie Hebdo (personagem colectiva) teve muito mais apoio e fãs aquando da sua morte do que em vida. Isto porque o atentado ao Charlie Hebdo, mais do que as doze pessoas que faleceram (não querendo de todo menosprezar o seu valor) representou um atentado aos Direitos Universais do Homem, mais especificamente o direito à vida e o direito à liberdade de expressão, e não menos importante um atentado aos valores do mundo ocidental.

O mundo uniu-se e a uma só voz ouviu-se e declarou-se “Je suis Charlie”, com o povo também os líderes mundiais uniram-se em Paris na marcha pela LIBERDADE e contra a BARBÁRIE, no entanto, afastados do povo como é apanágio desses seres. Ver a Angela Merkel (principal terrorista financeira dos povos europeus) e Benjamin Netanyahu (Primeiro-Ministro de Israel) na marcha pela Liberdade e contra a Barbárie, é como ver o Pinto da Costa e o Paulo Portas numa marcha contra a corrupção, ou como ver o Hitler a defender o povo Judeu.

Através da pretensa luta pela Liberdade de Expressão, nos dias consequentes multiplicaram-se opiniões concordantes e discordantes, e outras ainda por descodificar, assim como eu o faço para poder exprimir os meus pensamentos.


Então qual é o problema de sermos todos Charlie?

O problema é que as pessoas quando se auto-intitulam de Charlie e defendem a LIBERDADE DE EXPRESSÃO são demasiado literais, isto porque esquecem-se (quiçá por uma deficiente alimentação) que a Liberdade de Expressão é um processo que envolve não só o locutor mas também o interlocutor. Ou seja, eu posso dizer o que quero e bem entender, já o outro quando diz algo contrário às minhas crenças, convicções ou opiniões… ai o ca…., filho da …. e por aí fora…

Somos todos iguais mas também e felizmente todos diferentes e únicos. Este é um problema de estrutura psicológica individual, onde cada vez mais devido à nossa (des)educação e (des)informação o abismo entre o self real (o que realmente somos) e o self ideal (o que queremos ser) é cada vez maior e faz com que esqueçamos (uma vez mais) que não existem verdades absolutas, nem tão pouco uma só verdade. Só conseguiremos diminuir esse abismo com a consciencialização e acima de tudo com a aceitação das limitações de sermos humanos, de sermos falíveis, de sermos imperfeitos. Esse trabalho individual levará a que tenhamos a capacidade de separar e superar o facto de que o facto de alguém satirizar algo que gostamos, defendemos e/ou acreditamos não tem necessariamente de estar a atacar-nos.

O atentado ao Charlie Hebdo foi hediondo e imperdoável, mas aproveitaremos para com isto aprender uma lição, para mudarmo-nos a nós próprios e assim o mundo.

NÃO SEJAMOS CHARLIE E KOUACHI (irmãos responsáveis pelo atentado) AO MESMO TEMPO!


Fábio Andrade



[1] http://filosofia.uol.com.br/filosofia/ideologia-sabedoria/44/a-falsa-citacao-de-voltaire-investigacao-afirma-que-a-300467-1.asp

sábado, 10 de janeiro de 2015

Je suis Charlie

Hoje escrevo sobre algo triste. Um ataque a um jornal, o francês Charlie Hebdo, a morte de 12 pessoas no local do ataque, entre funcionários do jornal e polícias, e mais uma dezena de mortes durante a fuga dos assassinos entre reféns e os próprios. Em suma, um triste e amargo episódio em que a vida humana é dada ao desbarato e em que a democracia é atacada num dos seus pilares base, a liberdade de expressão.

Hoje falo também dos ataques subsequentes a mesquitas e do aproveitamento político e civil para justificar o ataque não só, à liberdade de expressão, como o ataque à vida, à fé e à proveniência ética e cultural de cada um.

Sendo, sem sombra de dúvida, merecedor de nada menos que a nossa condenação e indignação, este ataque tem sido usado como justificação para actos de vandalismo em diversas mesquitas, ataques armados contra a população muçulmana e movimentações políticas no sentido de extirpar cidadãos estrangeiros de solo francês e de fechar as fronteiras do país.

É importante, a meu ver, que se entenda que os cartoonistas que foram alvo deste acto terrorista, foram-no por exercerem o seu direito de expressão, por usarem o humor, o sarcasmo e a ironia, para denunciar e criticar (como a democracia permite), o que na sua opinião vai mal por esse mundo fora.


É igualmente importante, que se entenda que, actos de vingança para com quem possa ter alguma característica cultural, étnica ou de preferência de molhos de salada comum com os referidos terroristas não só não são aceitáveis em democracia, como destroem o direito democrático que pessoas inocentes têm a expressarem a sua , a sua origem cultural e o seu modo de vida, pacificamente, e sem prejudicar a sociedade em que estão inseridas. Actos como estes destroem o direito de livre expressão pelo qual os cartoonistas do Charlie Hebdo morreram. Sendo possivelmente, por vezes, difícil de aceitar no calor dos acontecimentos, tantas vezes embebidos na dor da perda, é ainda importante entender que mesmo os culpados de acções terroristas têm o direito democrático de serem julgados e cumprirem a pena prevista pelas molduras legais do país em que cometam os seus crimes, sob o escrutínio legal das sociedades lesadas pelos seus actos.

É importante não esquecer que o desenvolvimento de que nós europeus temos tanto orgulho não se mede no tamanho dos nosso arranha-céus (onde claramente seríamos batidos pela China e pelos Emirados Árabes Unidos), nem pela cilindrada dos motores dos nossos carros mas sim pelos direitos que somos capazes de proporcionar aos nossos cidadãos e a qualidade de vida que daí advém. Longe da perfeição, a democracia mostra-se melhor que as alternativas existentes até à data, e entre outras razões estão, a meu ver sem qualquer sombra de dúvida, o direito à justiça, o direito à , à expressão cultural/étnica e à livre expressão de opinião.


Por último expresso a minha convicção em como, uma vez findo o acontecimento, urge que a sociedade se debruce sobre o problema do extremismo, religioso ou não, e sobre as suas causas. Que se dediquem meios a uma abordagem compreensiva sobre os problemas relacionados com a integração social, com o sistema educativo, legal e penal, pois acredito que apenas uma sociedade mais integrativa, melhor educada e com mais capacidade de educar para os valores da democracia (que são sobejamente mal entendidos, independentemente da nacionalidade, religião ou proveniência étnica/cultural dos cidadãos) e menos desigual pode prevenir e combater eficazmente este tipo de fenómenos.

Aujourd'hui, je suis Charlie!


Nuno Soares