Mostrar mensagens com a etiqueta Sociedade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sociedade. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Crónica Social - Vida fragmentada


É este o título de um livro de Zygmunt Bauman, que ando a ler.
O velhinho sociólogo e filósofo polaco que morreu em Janeiro deste ano, deixou uma vasta obra que expõe a face desumana do capitalismo, numa posição bastante crítica à pós-modernidade. Mas tem uma forma de escrever, complexa é verdade, mas próxima da linguagem das pessoas comuns – o que me agrada.

Ficou mundialmente conhecido pelo seu conceito de Modernidade Liquida, onde defende que as ideias de emancipação, individualidade, tempo/espaço, trabalho e comunidade estavam a mudar com rapidez e de forma imprevisível.
A sua noção de liquidez é aplicada aos mais variados temas como as relações entre os indivíduos, o medo, o amor, a vida e o tempo.

Na sua obra Amor Liquido, as relações amorosas deixam de ter aspecto de união e passam a ser um mero acumular de experiências, sendo a insegurança parte estrutural da constituição do sujeito pós-moderno e a fluidez, uma espécie de facilidade que faz com “as relações escorram pelos dedos”.

Ele faz uma oposição, no que respeita à questão da construção identitária, dizendo que o problema da identidade moderna era o de construir uma identidade sólida e estável, em estado durável; enquanto o problema da identidade pós-moderna é o de como evitar a fixação e manter as opções em aberto, numa identidade em projecto, procurando saber, em cada tempo e em cada espaço, onde nos colocamos, na variedade de estilos e de modos.

Passe a simplificação do seu pensamento complexo, esta é uma ideia que me interessa. Como também me interessam as 4 estratégias da vida pós-moderna que ele identifica. 

À vida moderna como Peregrinação, em conflito com o lugar (conflito herdado da cultura judaico-cristã), num recomeço perpétuo a caminho de um destino que, apesar de tudo, tem confiança na linearidade e cumulatividade do Tempo, ele contrapõe 4 sucessores do Peregrino:

·   O Deambulador, que tem a cidade como seu covil;
·   O Vagabundo, sem senhor e sem itinerário;
·   O Turista, que nunca é parte de um lugar e é um caçador de experiências movido por critérios estéticos;
· O Jogador, num mundo maleável e com ‘golpes de sorte’, onde há apenas movimentos, mais ou menos inteligentes, perspicazes ou desorientados.
Esta leitura de Zygmunt Bauman aumenta inquietações mas também reforça convicções no sentido de uma apropriação mais inteira no espaço e no tempo da vida que vivo. Com uma ideia de construção de uma sociedade melhor, da qual não abdico.


Os “residentes instalados”, como ele lhes chama, descobrem que os lugares (na terra, na sociedade e na vida) aos quais pertencem já não existem ou já não os protegem: as ruas estão ameaçadoras, as fábricas e empregos desaparecem todos os dias, as competências já não servem, os saberes tornam-se ignorância, a experiência profissional torna-se um ónus e as redes de relações seguras desfazem-se.

Não é fácil superar a perplexidade que estas condições induzem. Mas a existência privatizada propõe imensas satisfações e algumas penas. Das primeiras salienta: a liberdade de escolha, a oportunidade de tentar múltiplos estilos de vida, a ocasião para cada pessoa se fazer à medida da imagem que faz de si própria; das segundas: a solidão e a incerteza em relação às escolhas feitas e por fazer.

A identidade, vista como a linha divisória entre a identidade socialmente reconhecida e a identidade imaginada a título individual, não esquece a ‘necessidade de pertença’ como membros de uma comunidade maior.
E aqui surge a comunidade, agora saudada como expressão das formas de vida herdadas, como repositório de culturas e tradições novamente valorizados. E novamente idealizados.

O pensamento social, diz ele, sempre foi dado a repetir histórias.
Podemos dizer que a maior parte das atividades da nossa vida tendem hoje a ser fragmentadas, episódicas e sem consequência. Uma colecção de acontecimentos, cada um deles desligado dos outros – “os escândalos e demonstrações de incapacidade que invadem a atenção do público tem a qualidade de fazer desaparecer da memória os escândalos e demonstrações de incapacidade do passado”.

Vivemos em sociedades fortemente marcadas pelo conflito entre ter e ser, nas quais nos expressamos pelo que temos, sendo as posses que se transformam em elementos definidores da identidade.
O modo como as cidades se dividem é exemplo dessa busca pela conformidade que segrega o que é diferente, estranho. Os muros que construímos, físicos ou emocionais, têm esse condão de isolar e criar lados, o de dentro e o de fora. Onde o espaço de fora é lugar cativo dos que nos incomodam, pessoal e/ou socialmente.
A humanidade contemporânea tem uma questão central por resolver, segundo ele, que é a de harmonizar a diversidade em polis reinventadas.

Precisando para isso de transformar consumidores em construtores, cidadãos persistentes e responsáveis e de “uma comunidade política de pleno direito, capaz de auto-reflexão e de si corrigir a si própria, por outro.”
Destas leituras complexas que faço em modo vadio, destaco uma mensagem simples – amar é uma ato revolucionário, uma nota de solidez e coragem que nos impulsiona e ser melhores como pessoas e como sociedades
E como a vida são dois dias, e o Carnaval[1] que se aproxima são três, achei que era um bom mote para tornar a vida menos fragmentada.

   Isabel Passarinho


[1] O Carnaval é uma festa de origem pagã com origem na Grécia antiga para agradecimento aos deuses e associada a música e disfarces. Na versão gaulesa, era a grande festa do Inverno que promovia a brincadeira e a estravagância.
Em 590 d.C.foi uma comemoração adoptada pela Igreja Católica, antes da Quaresma. Tradicionalmente marcava o jejum, com abstinência de alimentos de origem animal, em particular o ‘adeus à carne’.
O Carnaval tem 3 dias ‘gordos’ em contraste com o tempo de reflexão espiritual, penitência e privação instituído pela Quaresma.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Crónica Social - Ano novo, vida velha





No final de ano é costume para muitas pessoas fazer planos para mudar ou introduzir algo de novo na vida.
Diz-me a experiência que à medida que Janeiro avança é frequente (para muitos dos mortais incluindo eu própria) ficar enrolado no ram-ram das nossas boas rotinas e lá se vão os planos.
Não que as rotinas tenham algo de mal. Aliás, aprendi a valorizá-las pela energia que nos poupam e pela segurança que dão. O problema é a dose.

Quero eu dizer (e falando de mim, uma vez mais) que se não introduzir nada de novo fico com um sentimento de estagnação. Com receio de acostumar o olhar e o pensamento. E isso não é bom para a minha alma inquieta.
Com isto não quero dizer que seja preciso andar sempre a inventar a roda. Cada um/a saberá o que lhe faz sentido mudar, fazer de outro modo, fazer de novo, arriscar.

Acreditando que ninguém muda ninguém e que apenas nos podemos mudar a nós próprios não deixa de ser paradoxal que os únicos problemas que parecem simples de resolver, sejam os dos outros.

- Faz isto e aquilo!
- Se eu fosse a ti, fazia assim …

Tenho para mim que mudar é uma das coisas mais difíceis a que nos podemos propor. Ou que alguém nos pode propor. Ou que nós propomos a alguém.
Falemos das pequenas ou das grandes mudanças. E das respectivas resistências. Ou bloqueios.

Sílvia não pode ouvir a palavra mudança. Bloqueia, se a conversa for sobre este tema.
Fica com a cabeça confusa e só quer falar de acontecimentos.
- Porque é que se tem de falar sobre mudanças??! As coisas acontecem e pronto, já está.

Também existem pessoas que pedem mudanças como quem faz pedidos ao Pai Natal, como graças a serem concedidas em troca de merecimento e boas ações.
Outras pessoas vão arranjando argumentos para permanecerem mais ou menos na mesma. Porque estão bem ou não estando, não querem ou não sabem mudar.

Provavelmente menos pessoas se propõem a um caminho de desenvolvimento pessoal que implique reflexão e mudança – Mutatis mutandis – mudar o que tiver que ser mudado.
Mesmo quando se reconhece a necessidade de mudar, ou quando se está a sofrer emocionalmente, mudar significa arriscar, sair da zona de conforto, mergulhar em zona não conhecida.

Parece-me que as mudanças que colocamos em marcha para alterar algo de significativo em nós são muito mais raras. E difíceis. E ambivalentes. E sujeitas a avanços e recuos.
Claro que existem pessoas que falam das suas mudanças com determinação

- Decidi e nunca mais peguei num cigarro. Já lá vão 10 anos.
- Tinha uma vida muito sedentária e isso não me fazia bem à saúde. O médico recomendou-me exercício físico e desde esse dia nunca falhei. Faça chuva ou faça sol.

Creio que as nossas mudanças (de hábitos, de pensamento, de comportamento…) são percursos. Caminhos mais ou menos longos. Mais ou menos determinados.
Sem querer entrar por tipologias identifico três espécies de mudanças na minha experiência de vida com exigências diferentes: as adaptativas, as reativas e as de transformação.
Das primeiras, todos temos experiência mais ou menos frequente. Sobretudo daquelas mudanças que nos permitem mudar apenas o suficiente para que possa permanecer tudo igual. Têm a sua importância mas na escala de valor de cada pessoa não são aquelas que recordamos como marcadoras de uma nova etapa.

As mudanças por reação podem ser sentidas como negativas ou positivas e as circunstâncias podem ter dimensões externas e internas. Decidir ir viver junto ou separar-se, mudar de casa e de território de vida ou de trabalho, o nascimento de um filho, uma situação de desemprego, um luto… são exemplos de acontecimentos que nos convocam para mudar.
Podemos fazê-lo ou não o fazer.

Quando faço o exercício de pensar nas mudanças significativas que operei na minha vida encontro poucas. E essas são as mudanças de transformação. De evolução na situação que vivi mas sobretudo de mudança em mim, na maneira como pensava, nos óculos que usava para ler o mundo. Mudanças que acontecem no intervalo possível entre a mobilização das forças e a possibilidade de risco que admitimos. Com o cuidado de não chegar ao pânico, que nos traz de volta ao centro da nossa zona de conforto.

Mudanças que são feitas connosco e contra nós. E com os outros que nos são importantes.
A verdade é que preciso dos outros para mudar. Aos outros vou buscar energia, reforço, a possibilidade de funcionar em circuito aberto, a entrada de perspectivas divergentes da minha, o aconchego.

Para além das mudanças que me aconteceram e as que fiz por acontecer, as que quis muito e aquelas que acabei por aceitar, também consigo perceber o que não tive coragem de mudar. Mesmo querendo. Ou achando que devia mudar e não mudei.
Vivo com isso.
Por vezes angustiada e outras vezes, não. Procrastino.
Sou inquieta e nem sempre mudo o que precisaria mudar.
Mas tento não alimentar ressentimentos com os outros e comigo própria.
Não tenho o desejo de voltar atrás no tempo para refazer ou redesenhar a vida.
Foi como foi, como podia ter sido, com coisas que correram bem e outras nem por isso.
Longe da perfeição. Tentando agradecer pelo que a vida e eu própria me permiti.

Mas na verdade, não sei nada sobre Mudança.
E suspeito cada vez mais que o peso do acaso nas nossas vidas faz-se sentir… 

Isabel Passarinho

domingo, 15 de janeiro de 2017

O Legado de Mário Soares: Bom ou Mau?



























Mário Alberto Nobre Lopes Soares morreu a 7 de Janeiro de 2017 em Lisboa, cidade que o viu nascer na já extinta freguesia do Coração de Jesus, a 7 de Dezembro de 1924.

Durante os seus 92 anos de vida Soares distinguiu-se pela luta contra o regime ditatorial liderado por António de Oliveira Salazar, pela cimentação de um regime democrático em Portugal no pós 25 de Abril, pela sua intransigência a favor da descolonização e independência dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), pelo seu papel na afirmação e legalização da liberdade sindical, pela adesão à Comunidade Económica Europeia (CEE), entre tantos outros feitos e causas para os quais se mobilizou.

O jovem Mário Soares formou-se, na década de 50, em ciências histórico-filosóficas e mais tarde em direito, e havia de ser pela sua actividade de advogado, ligado à luta pelos direitos cívicos e democracia, à parca e ilegal oposição política ao regime fascista em vigor e à defesa de opositores de Salazar, entre os de maior renome, Álvaro Cunhal, a família do (então) recém-assassinado general Humberto Delgado e Maria Pia de Bragança, que Mário Soares se distinguiria na luta contra o regime.

Tal distinção levou a que fosse preso 12 vezes, entre as quais se conta um período de 2 anos no campo de concentração do Tarrafal na ilha de Santiago, em Cabo Verde antes de lhe ser permitido o exílio em França, onde permaneceu até à revolução de 25 de Abril de 1974.

Ao regressar a Portugal logo após a revolução, Mário Soares integrou os três primeiros governos provisórios da Terceira Republica Portuguesa como ministro dos negócios estrangeiros, tendo tido um papel preponderante no processo de descolonização dos PALOP e no processo de independência dos mesmos. Neste processo que se estendeu entre 1974 e 1975 e que esteve longe de ser consensual, existiram pontos que granjearam a Soares louvores e outros ódios perpétuos.

Por um lado o fim abrupto da guerra colonial, que há quase década e meia ceifava vidas e os cofres de Lisboa, deixando um país desertificado, pobre e cheio de feridas, chagas e traumas difíceis de sarar, e o reconhecimento do direito à autodeterminação das colónias africanas, conseguiu grande aprovação quer daqueles que viam familiares e amigos serem enviados para África para, muitas vezes não regressarem, quer da comunidade internacional que via no Império Colonial Português uma relíquia de tempos passados e um entrave à democracia. Por outro a apressada descolonização reduziu a quase nada a ligação e influência de Portugal nos PALOP e esse vácuo de poder criou um ambiente propício para as guerras civis que deflagraram em Moçambique, Angola e Guiné-Bissau e para a expropriação e expulsão de muitos Portugueses residentes nestes países Africanos.

A presença política de Mário Soares continuou assídua tendo sido primeiro-ministro entre 1976-78 e 1983-85. Foi durante os seus governos que foi revogada a lei da unicidade sindical (1976) que não permitia a criação de alternativas à então central sindical única (a CGTP), criando espaço para o surgimento da UGT (1978). Foi também responsável pela candidatura e parte do processo de adesão (1977) à CEE num, à altura, movimento de rutura com o pensamento político dominante, dentro e fora do seu partido, processo esse que termina com a bem sucedida adesão em 1986.

Em Março desse mesmo ano de 1986 Mário Soares é eleito presidente da república Portuguesa cargo no qual se destacaria pelo seu modelo de “presidências abertas” em que Soares percorreu o país de Norte a Sul, conhecendo e dando a conhecer as múltiplas realidades que se viviam no Portugal de então, as necessidades de infraestruturas e investimento, promovendo cultura, produtos e serviços locais, associando-se a organizações e eventos, trabalhando, de certo modo para um descentralização de consciências e atenções da capital para o restante país. Soares manter-se-ia no cargo até 1996.

No período pós-presidência Soares dedica-se à promoção de iniciativas culturais e de cidadania, sem nunca deixar a política. Em 1991 cria a fundação Mário Soares focada “na promoção de iniciativas de cariz cultural, científico e educativo nos domínios da ciência política, história contemporânea, relações internacionais e direitos humanos”. Entre 1996 e 2002 dá aulas nas universidades de Coimbra e Lusófona, em Lisboa.

Entre 1999 e 2004 foi deputado europeu e em 2006 candidato (sem sucesso) a novo mandato para a presidência da república. Desde 2010 presidia ao júri do Prémio Félix-Houpouët Boigny para a Paz, atribuído pela UNESCO a indivíduos ou organizações que se destaquem nessa área de actividade.

Gostando-se mais ou menos da pessoa Mário Soares, partilhando-se ou não das suas ideologias, convicções e/ou cores partidárias (e sendo de cada um o direito de julgar o seu legado como bom ou mau), há que reconhecer a importância do trabalho de Soares para a solidificação de um regime livre e democrático em Portugal, pela integração no projecto Europeu e pelo esforço de descentralização que levou atenção mediática, fundos e mudança progressista para diferentes regiões do país.

Por tudo isto,

Obrigado, Mário Soares!  

Nuno Soares

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Crónica Social - Para onde vão os dias que passam?

Há tempo que esta pergunta me anda na cabeça.

Não é minha, mas integrei-a de tal forma, que quase me parece minha. Como uma filha adoptiva que à força de ser amada, já não faz diferença que tenha nascido em outra família.
Na verdade foi uma educadora amiga no meio de um relato muito vivo do seu dia escolar que me contou, perplexa, que o menino João (vamos chamar-lhe assim) no contexto de uma actividade pedagógica lhe tinha feito esta pergunta.

Passou muito tempo. O menino da pergunta já deve ser quase-homem. Sim, porque ser homem acontece cada vez mais tarde. Mas a pergunta, essa nunca esqueci.
Talvez o poder desta pergunta seja a não resposta… fico ali a remoer, só a pensar, perdida em viagens no tempo. E se me fizer a pergunta não sei responder.
Qualquer tentativa de resposta será menor e uma pergunta destas não merece.
A sua importância reside no espaço que abre …

Não faço grandes balanços no final de ano, mas sou fascinada pelo poder das perguntas verdadeiras. Aquelas para as quais não temos respostas e que desaprendemos de fazer com o avançar na vida e a submersão em rotinas, certezas e pragmatismos utilitários.
Quantas vezes fazemos perguntas mais ou menos retóricas? Afirmações com ponto de interrogação a pedir só para serem confirmadas.

- É assim, não é? Não me estás a dizer isso, pois não? Onde é que isto vai chegar?...

Lembro-me de um professor do curso de Terapia Familiar que falava das ‘perguntas dormitivas’ para nomear as perguntas que lhe davam sono e que não colocavam nenhuma questão - quantas vezes nos esquecemos de perguntar, em situações desconhecidas ou que desafiam o nosso conhecimento?

- Não sabia que podia perguntar, diz Júlia, a medo.

O medo que nos paralisa, as rotinas que nos embrutecem, a dessensibilização que fazemos para não sofrer (- Não me doeu, dizem algumas crianças em desafio), a normalidade que nos enforma e nos faz esquecer quem na verdade somos, calando aquela criança que fazia perguntas.

‘- Não sabes? Eu também não. Vamos descobrir juntos?’ – dizia João dos Santos, o pioneiro da psiquiatria infantil à criança que atendia no seu consultório. E pela grandeza do seu legado e das suas histórias acredito que o Mestre estaria a ser verdadeiro quanto a ‘não saber’ sobre o sofrimento da criança e as hipóteses de o diminuir.

Em tempos em que o mundo supostamente civilizado está entregue a atores medíocres e perigosos, acometidos de uma loucura que se permite reverter conquistas civilizacionais que (estupidamente) alguns de nós demos por garantidas e ‘as águas’ se agitam entre mil guerras um pouco por todo o lado… para onde vão os dias que passam? Em tempos de banalização do mal (como diria Hannah Arendt) em que as pessoas se alheiam umas das outras e de si próprias, fechadas nas tecnologias que supostamente as globalizam, e estranhas aos outros próximos … para onde vão os dias que passam? Em tempos de hipervalorização de eficácias, de resultados, de ‘acelerações’, de competitividade mesmo que mascarada de cooperativa…para onde vão os dias que passam? Em tempos de rarefacção e alienação do trabalho, em que as pessoas já não são o que fazem mas também não são mais nada a não ser consumidores controlados digitalmente pela promessa de satisfação rápida que o dinheiro pode ou não pode comprar… para onde vão os dias que passam?

A História ensina muito sobre o que foi. Mas é pouco útil para usarmos hoje. Nos desafios que nos atormentam aqui e agora. Talvez para isso existam as histórias. As histórias de gente banal. Existe tanta gente, todos os dias, a fazer tanta coisa boa. Gente anónima. Cheia de defeitos e qualidades.

Era assistente social e responsável técnica por um Lar de idosos. Uma instituição de cariz associativo que foi crescendo ao longo de 4 décadas. Tinha hoje um universo de respostas sociais bastante diversificado e que apoiava muita gente. Era também um grande empregador local. E um polo de cuidado aos velhos e às famílias e de relações positivas, fortalecedor do tecido social. O seu quotidiano era de loucos! Dias compridos, corridos entre gestão de pessoal, dinamização de atividades, gestão de relações e conflitos, controlo de muitas variáveis, redes de parceria, actividades agendadas e outras que entravam pela agenda dentro, sem aviso.

Atrasou a reunião onde íamos falar sobre uma experiência laboral de um jovem com deficiência pela urgência da sobreposição de outros assuntos – tinham vagado 2 quartos e existiam dois casais de namorados no Lar (sim, as pessoas de idade avançada ainda têm sentimentos e podem apaixonar-se) que pretendiam mudar para quartos de casal. Por um lado a pressão de rentabilidade dos quartos que não podem estar vagos, por outro a necessidade de assegurar que todos os intervenientes estão de acordo com a nova opção. E nos dois casos, existiam filhos que não estavam de acordo.

Apesar de os idosos estarem na posse das suas faculdades, os filhos comparticipam na mensalidade do Lar e precisam de ser consultados e dar consentimento. É necessário informar, gerir sentimentos, negociar, procurar soluções, gerir revoltas e acautelar que as pessoas residentes se continuam a sentir, o melhor possível, na nova casa colectiva.

Este é um exemplo pequeno de que existem trabalhos sui generis. Onde a fronteira é ténue entre ser trabalhador por conta de outrem, com um contrato que prevê x tempo por y dinheiro em determinadas condições, e ser ‘uma pessoa que se sente responsável pelo bem-estar de outras’. A dedicação, o consumo de energia, o gasto de tempo são tão intensos e prolongados que muitos destes técnicos vivem as suas vidas no trabalho. Dão o melhor de si nestes dias cheios de situações, mais ou menos emergentes, que precisam de ser resolvidas, com grande disponibilidade emocional, mas também com trabalho de registo, de avaliação e planeamento que muitas vezes é levado para ser terminado em casa, porque o horário tipo de trabalho é cheio de coisas que não podem esperar.

A chegada a casa (diferente quando existe família e quando não existe, diferente quando a vida está calma ou revolta) é muitas vezes só o espaço e o tempo de carregar baterias para conseguir estar capaz no dia seguinte. Algumas pessoas conseguem trabalhar assim toda a sua vida activa...

- No meu tempo… dizem algumas pessoas, referindo-se ao tempo da sua infância ou juventude. Como se tivessem sido puxadas para trás. Como se o tempo actual não fosse delas. Como se hoje só houvesse tempo para os jovens com menos de 35 anos. Ou 40? Ou 45?
Não interessa onde está o marco.
Não quero correr o risco de dourar tempos passados por lapsos de memória ou efeito de distância. Ou simplesmente por vazio e desesperança do hoje e do amanhã. Não quero viver a recordar outros tempos.

Quero acreditar que nas atuais tensões, nos movimentos sociais anti mainstreming que surgem e se conectam também um pouco por todo o lado existem opções, possibilidades, sementes de mudança. Individual e colectiva. Mas é preciso gastar muita energia para continuar a acreditar, para não nos deixarmos ir na enxurrada, para resistir, procurar sentidos novos, para lutar contra as nossas incoerências. Para procurar. Para procurar sempre.

Para onde vão os dias que passam?

Isabel Passarinho

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Crónica Social - Deixar ir

Desengane-se quem acha que se escreve com facilidade. No que me diz respeito, a escrita é sofrida.
Não necessariamente por ser autobiográfica.
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente’, diz Pessoa.
Sem veleidades, escrevo o que na altura me faz sentido. E fazer sentido implica alguma censura e renúncia também, numa cadeia de opções que é dolorosa. Existem temas e palavras que se impõem. Muita confusão. Depois até ao produto final é uma longa, sinuosa e poeirenta caminhada.
Começo várias vezes, deixo para trás muita coisa, corto, reescrevo, misturo assuntos meus com outros emprestados, baralho tudo e vou encontrando caminho pelo meio das palavras sem saber onde me levam. Como a água a escorregar por entre as tábuas do chão.

Às vezes para lado nenhum.
Queria escrever sobre o mundo, sem psicologia, sem vida interior, sem conflito, sem mim. Foi por isso que quis escrever sobre coisas, sobre os objectos que existem à minha volta’, diz o norueguês Karl Ove Knausgard[1] da sua nova obra. Acrescentando ‘Fujo a um contexto moral, a um contexto de significados (…). É a forma como o mundo existe que me interessa, embora nós estejamos sempre a hierarquizar as coisas, a atribuir-lhe valores distintos’.

Fico dividida. Sim, mas também. Ou seja, nesta Crónica Social interessa-me sobretudo a relação – comigo, com os outros, com o mundo. Com o mundo como o vemos, como nos vemos, à luz do nosso olhar. Em relações, que estão sempre a ser construídas e reconstruidas na interacção com os outros. Dolorosamente.
Seria tão mais simples se as coisas fora de nós fossem só coisas. Objectos físicos. Objectiváveis.
A mim, que aprecio a simplicidade, pouca coisa me parece simples.

Rosa pensava que gostaria de ser uma pessoa mais simples. Se pudesse escolher não complicava tanto. Não podendo (existem vidas que são sinas) complicava mesmo.
Não sabia explicar. Quando dava conta estava tudo enredado e ela atada, doída, sem saber das pontas. Só queria resolver. Mas acabava por virar tudo contra ela. E a Rosa precisava tanto de ser gostada.
Pensava que se fosse uma pessoa mais fluida, com maior capacidade de aceitar, até os medos, talvez a aceitassem melhor. Sentia-se certa, segura dos seus valores, injustiçada.
A rigidez de Rosa não a deixava descontrair. Julgava os outros e as situações, convencida que não o fazia. E isso trazia-lhe pequenas e grandes perdas.
Refém das suas certezas picava, em luta com a falta de suavidade’.                    

Conheço algumas Rosas. Às vezes parte de mim é Rosa.
Tenho momentos de fraqueza, maus momentos, em que deito tudo a perder. Outros de fragilidade. Outros de zanga, de irritação. Outros em que fico mal na fotografia.
A luta contra os moralismos, os nossos ‘bons’ moralismos, é incessante.
O que sei sobre a natureza e o funcionamento humano nem sempre previne reacções de Rosa.
O lado bom desta aventura é o que faz de nós gente. Pessoas incertas, com muitos lados e alguns menos bonitos. Com dias, com luas, com humores, com amor e falta dele. Sem coerência. A nossa frágil humanidade terá tanto de imperfeita como de resiliente.

Dizem que somos um país de fado.
Sem desprimor para esta expressão artística, saliento a conotação de um lado português fatalista, com tragédias mais ou menos levezinhas. Destino, sina, lamentos e queixas.
Dizem que somos um país que se queixa de mansinho, para o lado, em conversas de corredor que não chegam a lado nenhum. Tecemos enredo. Contornamos. Desenrascamos. Inventamos formas de subverter a regra ou de dar a volta. Somos provincianos. Pequenos e mesquinhos.
Somos também heróicos, capazes de grande humanidade e gentileza. Somos suaves, generosos e educados. Amamos os consensos e evitamos conflitos. Somos trabalhadores, dedicados e criativos. Somos o melhor, o pior e o assim-assim. Somos gente.

Deixar andar é levar a vida em gestão corrente pautada por ingredientes vários, sem ontem nem amanhã. Um dia de cada vez. Logo se vê.
Deixar ir é seguir o nosso caminho, deixando que outros sigam os deles. É aprender a confiar. É aceitar as nossas imperfeições e percorrer um percurso no sentido do desapego. É não reter sentimentos negativos que nos aprisionam. É ser amigável. Também connosco.
Valorizo o Deixar ir. Embora seja uma tarefa gigante.
Live and let live até certo ponto. Até ao ponto onde me cruzo com as minhas próprias arrogâncias, tensões e desejos de controlo.

Vi recentemente o filme Sete minutos depois da meia-noite[2] que fala de sentimentos de perda, medo e solidão e também da coragem e da compaixão necessários para os ultrapassar.
Conor, o menino protagonista, vive com a mãe doente com um cancro terminal e vai ser desafiado por um ser sobrenatural, uma árvore- monstro que lhe aparece naquela hora precisa. O monstro da culpa é uma metáfora poderosa que percorre toda a história até à aceitação da morte para poder fazer o luto.

Um exemplo extremo e doloroso sobre Deixar ir. Com histórias de moral surpreendente. Existem dores tão avassaladoras que têm potencial transformador.
Já fiz alguns lutos próximos e sei que é impossível ficar igual. Depois senti necessidade de activar a vigilância sobre os meus traços mais vincados – o que nos salva é o que nos mata.
Como nos harmonizamos?

Irrita-nos o outro ou o que o outro faz mexer em nós? Não me refiro aos ‘diferentes’ que estão no outro lado do mundo, mas aos ‘diferentes’ que estão ao nosso lado. Diferenças de ‘olhar’, de valores, de prioridades, de formas de ser e de estar.
By the way…Como é que ficamos Rosas?
Escrever dói.


Isabel Passarinho


[1] Este reconhecido autor contemporâneo ‘pinta com as palavras’. Ficou célebre com a obra ‘A minha luta’ com uma narrativa obsessivamente autobiográfica- utilização de excertos da entrevista na Revista ‘E’ do Jornal Expresso de 12 de Novembro de 2016, em artigo de Cristina Margato .

         [2]Do realizador catalão J.A.Bayona. Inspirado numa ideia original da escritora Siobhan Dowd que morreu de cancro em 2007.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Crónica Social - Agora não me importa. Não quero saber.


Neste mês de Outubro fiz o Caminho de Santiago pela Costa, a partir de Caminha.
Um percurso de aproximadamente 176 Km, feito em oito etapas de cerca de 20 Km, durante 10 dias – considerando um dia para ir e outro para voltar para casa.
Foi uma espécie de segundo parto. Já sem as angústias e as inseguranças da primeira vez - que aconteceu em 2013, num Caminho de Ponte de Lima a Santiago. Mas com magia igual.
Maior tranquilidade. Já sabia ao que ia e já sabia que me era possível – o que não é de menos.
Foram o mesmo número de dias, sensivelmente os mesmos quilómetros, a mesma organização fluída e pouco pré-determinada, a mesma mochila emprestada, o mesmo orçamento financeiro em regime low cost e a mesma vontade de limpar a cabeça de lixos e problemas. Tudo o resto foi diferente.
Fui com uma amiga que ia fazer o Caminho pela primeira vez. Escolhi o Caminho da Costa e acabei por ficar em outros albergues – a partir de Redondela segui pelo mesmo caminho que já tinha percorrido e repeti apenas o albergue de Padron.
Reconheci muitos troços do caminho que já tinha feito mas, de facto, tudo era diferente. Até eu, três anos depois, estava diferente. Cada Caminho é único.
De resto eis as razões pelas quais recomendo o Caminho:

 - Pode ser feito à sua medida
Se a ideia de descanso activo lhe faz sentido e tem mais motivação espiritual do que religiosa, então esta aventura pode ser sua sem necessidade de cumprimento de promessa ou expiação.
O planeamento, detalhado ou fluido, está dependente de muitos factores que só lhe dizem respeito a si: a condição física (qualquer pessoa pode fazer o caminho desde que se conheça e o adapte às suas possibilidades), a idade, o seu gosto por ir sozinho ou acompanhado, os seus medos, a sua vontade de se inspirar, ou não, na abundante partilha de outros peregrinos que está disponível na internet, o orçamento que quer afectar, a altura do ano em que pretende ir e, muito importante, a consciência das razões porque quer fazer o Caminho.
Na certeza, confirmada pela experiência destas duas peregrinações, de que só existem os nossos limites para o fazer. E que cuidar de nós é fundamental.

Vamos ser sinceras. Eu gosto de viajar. Gosto de ir, de partir.
O dia de viagem para a partida aconteceu a 02 de Outubro, num percurso de comboio de Santa Apolónia a Caminha e terminou com a travessia do rio Minho de barco e a passeata de 5 km até à primeira cidadezinha galega - A Guardia.
A viagem de comboio permite passar por sítios diferentes dos não-lugares das auto-estradas. Mais humanos e próximos da vida, com mais natureza, onde se percebe a estação do ano em que estamos.
À medida que o comboio avança, ganho distância e a minha disponibilidade aumenta. Vêm-me à cabeça rotinas, ocupações e preocupações, mas deixo ir, agora não quero saber. Agora não me importa.
Chegadas ao Albergue de Caminha um simpático senhor informa-nos que a travessia do rio não se faz à segunda-feira. Decidimos atravessar para Espanha e não dormir em Caminha.
Esta possibilidade de ajuste, para mim é condição necessária. Embora saiba que muitas pessoas privilegiam a previsibilidade de marcações prévias e de uma planificação menos flexível. Faça-o à sua medida.

Perguntamos pelo albergue na vila piscatória e um local dispõe-se e ir connosco até lá, contando a história da terra, das dificuldades atuais para ganhar a vida e da migração e imigração das gentes novas para outras paragens.
Chegadas ao albergue aguardámos. Estava fechado com um letreiro na porta para contactar a polícia local. Um peregrino ciclista já o tinha feito e, passado pouco tempo, vieram os polícias que nos registaram a entrada. Instalámo-nos na camarata e depois de descansarmos um pouco fomos dar uma volta pela terra e jantar um polvo cozido a saber a mar numa esplanada virada para o porto e para o passadiço que o contornava – ponto de encontro das gentes locais. Terminámos o dia com um belo pôr-do-sol.

- Garantia de tranquilidade e contacto com a natureza
A maior parte dos percursos que fiz, tanto neste Caminho, como no anterior, são de emersão na natureza. Apesar de atravessarmos cidades (Baiona, Vigo e Pontevedra) e de termos alguns troços de circulação pela estrada N 550, a maioria do percurso é feita por caminhos muito bonitos em meio natural, atravessando bosques, troços de via romana, passando por pequenas aldeias e vilas em estradas secundárias sem movimento ou em trilhos de terra batida.
Neste Caminho, o tempo com manhãs frescas e suaves, permitiu começar as etapas mais tarde e a um ritmo tranquilo. Aliás, caminhar ao nosso ritmo é uma das sugestões que vale a pena seguir.
Apreciar verdadeiramente os ambientes por onde passamos, sentir os cheiros, as texturas, os sons, as cores, o nascer e o pôr do sol, as casas e as gentes é um dos privilégios deste jogo de sentidos.
Quando andamos a pé vemos as coisas de outra forma, prestamos atenção a pormenores que não nos são habituais. Para mim essa é uma das formas de entrar no meu ritmo, de me conectar com a natureza e comigo própria.
Ao longo do caminho cruzámo-nos com outros peregrinos, bastantes mais a partir de Redondela quando apanhamos o Caminho Português - existe uma disponibilidade, um espírito de solidariedade e simpatia que une os peregrinos e permite ter curtas, honestas e profundas conversas com quem não conhecemos de lado nenhum, nem provavelmente voltaremos a encontrar. Também é uma forma de treino da nossa humanidade e a nossa condição humana sai reforçada.

A primeira etapa decorreu de A Guardia a Mougás, num percurso de cerca de 20Km por trilhos planos e perto do mar. Casas dispersas pela falésia, casas-abrigo improvisadas e terrenos vedados sem casas dão nota de uma procura por gente com menos dinheiro do que vontade de estar próxima destas belas paisagens. Paragem para almoço numa esplanada fronteira ao imponente Mosteiro de Oia.
Uma interessante conversa com a minha amiga sobre ocupação do tempo e sobre o tempo que o trabalho por conta de outrem ocupa na vida. Dizia-me ela, reformada à 3 anos, que já não conseguiria ter essa distribuição de tempo na vida dela, muito embora faça imensa coisa. Este é um assunto ‘quente’ para mim e reforçou-me a urgência de pensar em outras formas de gestão da vida (e do tempo e do rendimento) que não passem por ter o grosso do dia e da energia ocupados por um trabalho assalariado.
Chegàdas ao albergue de Mougás, descansei um pouco. Depois fui até ao mar molhar os pés e acabámos a noite a jantar uns mexilhões gigantes, à conversa com outros peregrinos e a ouvir um Americano que tocava guitarra e cantava baladas.


- Uma forma de fazer Exercício
Adoro andar a pé mas sou relativamente sedentária, não gosto de ginásios e não tenho uma prática física regular. De resto, tenho uns quilos a mais e já passei os 50 anos.
Se se identifica com alguma destas características, pode ser para si o exercício físico que o caminho permite. Não é que os percursos sejam de dificuldade extrema, pelo menos os que fiz, mas a extensão das etapas e o relevo, acrescentam alguns desafios físicos.
Encaro assim como uma espécie de check-up integral de corpo e mente. Vamos lá ver como é que o meu ‘equipamento’ está? Será que ainda dá conta do recado?
Na verdade, muitas vezes e durante anos a fio, vivi sem me preocupar muito com o corpo.
A não ser que ficasse doente ou tivesse sintomas incómodos, dei por garantida a funcionalidade deste equipamento fantástico que é o nosso corpo. Entretanto fui tomando consciência do pouco e do mal que o utilizava.
O Caminõ pode dar esse contributo de alerta vivido do teste e do cuidado consigo.

A segunda etapa foi de Mougás até Ramalhosa. A etapa teria sido menos extensa e cansativa se não tivéssemos largado as setas durante a maior parte do percurso (fomos pela ciclovia ao lado da N550, junto ao mar, num percurso plano e que contorna todas as curvas da costa enquanto o caminho das setas subia a montanha) e se não tivéssemos passado o Albergue de Ramalhosa convencidas que não era aquele.
Estes erros representaram um acréscimo de mais uns 5 km. Felizmente voltámos para trás e embora muito cansadas, tivemos um fim de dia tranquilo num solar - convento. ‘Tudo é mui cercano’ dizia-nos o senhor que nos desfez o engano e que, à laia dos alentejanos, desvalorizou o nosso cansaço.
Esta etapa teve marcos na mudança da paisagem. A passagem pelo Cabo que faz a transição entre as Rias Baixas e as Rias Altas e o avistamento da enorme baía onde se situa Baiona, encaixada pelo verde das montanhas e por uma linha de ilhas, de diferentes tamanhos no mar.
À minha amiga (que viveu em Macau e conhece a Ásia) fez lembrar as paisagens do sul da China. Certo é que é uma panorâmica belíssima. Baiona é uma cidade muito agradável e Ramalhosa também. Cidades cuidadas, limpas, voltadas para a natureza esfuziante daquela localização e a denotar a atratividade de classes sociais com muito maior capacidade económica.
A conversa (de manhã enquanto não estamos muito cansadas) andou pelas dificuldades da comunicação e por partilhas de recursos tentados e a tentar, para melhorar as nossas formas de expressão e relação.

  

-      - Necessidade de alguma Auto-Confiança
Decidir fazer o Caminho tem alguma coisa de corajoso. Percebo que é necessário contornar medos e ter um mínimo de autoconfiança. Em nós e nos outros. Na vida.
Percebo que estou por minha conta (mesmo que vá acompanhada), que tenho que me conhecer e confiar nos meus recursos e que é necessário cumprir metas. Mesmo com algumas hipóteses de improviso - para aqueles, que como eu, se permitem improvisar.
A concentração das forças físicas e mentais no andar representa uma espécie de ritual de cobra, de renovação da pele.
Passa pela cabeça desistir, passa pela cabeça apanhar um transporte entre etapas ou de ali para fora mas no final de cada etapa, existe um sentimento de superação. E percebesse claramente que esta história do Caminho é um post-it de lembrança para a vida, passo a passo, etapa a etapa, com previsibilidade e imprevisibilidade, com coisas boas e difíceis, com confortos e desconfortos. Que o caminho nos confronta, nos desafia, nos coloca muitas questões mas que, como na vida, em última análise, o que importa é como agimos.

Na terceira etapa deixámos a costa e embrenhámo-nos na serra, rumo ao albergue do Freixo, a cerca de 08 km da cidade de Vigo. Nesta etapa cruzámos rotas, deixando a rota do Caminho Português da Costa e atalhando para irmos encontrar o Caminho Jacobeu. Tomei maior consciência da profusão de Caminhos possíveis e também dos riscos de nos perdermos das setas.
O que são marcos? O tempo e a distância podem ser contados de muitas maneiras. Quanto falta? Perguntamos. E as duas ou 3 horas que obtemos por resposta, é sempre um marco que nos parece subjetivo.
A etapa, difícil e bonita, atravessou bosques fechados e frondosos, riachos e aldeias. E, de facto, esta viragem para as serras muito florestadas convida a um recolhimento, a um ‘ir para dentro’ diferente de quando estamos à beira-mar.
Na Associação de Vizinhos que geria o albergue onde ficámos passava-se de tudo um pouco. Ao final da tarde, enquanto esperávamos pelo jantar,chegavam senhoras, jovens e menos jovens, com ar urbano para uma aula de aeróbica, havia crianças a brincar, homens e mulheres que bebiam cerveja e conversavam, aguardando as aulas de folclore das crianças, alguns velhotes com ar rural que conversavam e o casal responsável pela gestão, ele enorme e bem nutrido que adorava cozinhar e nos fez um belíssimo jantar, ela rechonchuda e vestida à minie de aldeia que servia ao balcão do café improvisado.
Um dos homens que estava à conversa na esplanada meteu conversa connosco. Que éramos irmãos mas que tínhamos traído os galegos com alianças com os ingleses. Que eles, galegos, eram depreciativamente tratados por Portugueses em Madrid.Que tinham amigos chegados portugueses.
Apesar dos nos termos deitado cedo, fomos interrompidas pela chegada de uma Russa jovem que estava exaurida e assustada após ter feita uma mega etapa de mais de 50 km e de ter sido surpreendida pela noite na travessia das serras. Foi salva pelo telemóvel com internet e pela solidariedade de uma local que lhe deu boleia até ao albergue.Conversámos um pouco e tentámos tranquilizá-la.
A pequena camarata ficava contigua à sala de trabalho da direção da Associação e, pelas 23h ainda me levantei para lhes perguntar se ficariam a trabalhar toda a noite? Responderam que não e saíram passado pouco tempo.

  

A quarta etapa, de Freixo a Redondela foi a mais dura deste Caminho. Consigo distinguir 3 troços diferentes, o 1º ainda em serra a contornar Vigo e já dentro da cidade por uma belíssima mata ao longo de um rio, o 2º em meio urbano, que para mim é sempre mais duro, e o 3º pelo ‘caminho da água’ que decorre a meia encosta, sem grandes desníveis, parte por estrada secundária bem assinalada e parte por terra batida. Sobretudo neste último troço, muito longo, o caminho acaba por ser um pouco monótono e já só me apetecia amandar para o chão e fazer uma birra.
Sobretudo quando estamos em serra, desistir não é uma opção. É preciso descansar mas prosseguir até ao final da etapa e isso representa um puxar de limites, que também tem a sua importância.
Chegadas a Redondela, o albergue oficial estava lotado mas foi fácil encontrar alternativa. Acabámos por ficar no centro num pequeno hostal, com ar esotérico chamado ‘Consciência 33’ e gerido por uma Rosa Abreu. Nome português? Sim, pelo lado da mãe. Também o dono do Café Central onde a minha amiga foi levantar a mochila (optou pelo serviço de transporte de bagagem) era português. E terminámos a cantar os parabéns em português a um jovem de 29 anos que fazia anos, a convite da Rosa. Uma fatia de bolo, um copo de sidra e uma conversa com outro peregrino, mais velho que nós, inglês residente em Hong Kong, com quem a minha amiga esteve a recordar os tempos e os conhecimentos daquelas paragens.
O Camiño tem disto, põe-nos em contacto com esta roda gigante que é o mundo. E afinal somos todos tão semelhantes e diferentes. Tão gente.



 - Desafio Low-cost
Dormir e comer bem são as necessidades básicas das quais não abdico.
Apesar das necessidades de conforto serem muito variáveis, chego à conclusão que sou pouco exigente – basta-me uma cama razoável num quarto sossegado, uma casa de banho asseada, uma copa para tomar o pequeno-almoço e um tanque com estendal para passar por água e estender roupa - tudo isso os albergues oferecem.
Com a caderneta de peregrino, o custo de noite nos albergues oficiais é de €6,00. Quando estão esgotados, existe muita outra oferta, sendo que no máximo paguei €15,00 por quarto duplo ou pequena camarata de 4 pessoas, onde por vezes ficámos só nós as duas.
Mas se tem maiores exigências de hospedagem também não terá problemas.
A comida também é assunto fácil de resolver. Comemos em restaurante uma ou duas refeições por dia a preços justos. Procurámos comer produção local e de estação, cozinhados simples, acompanhados por umas taças de vinho branco da região ou sidra.
Não saímos dos albergues sem tomar um bom pequeno-almoço e um café (em algumas etapas a minha necessidade de café matinal fez-nos andar mais um quilómetro), levávamos sempre alguma coisa leve para comer durante as etapas (fruta fresca e seca, ovos cozidos, alguma coisa que sobrou do jantar anterior e foi transformada em sandes…), bebi muita água e ao jantar, comemos sempre bem e a preços simpáticos.
      

Na quinta etapa percorremos um percurso entre Redondela e Ponte Vedra que me pareceu fácil, com um grande troço feito por estrada romana em lindíssimos bosques de carvalho.
Nesta etapa eu já reconheci o caminho. Identifiquei alguns sítios, em especial os locais onde tinha feito paragens e lembrei-me de um maior cansaço e solidão.
Tinha dormido muito bem na noite anterior e a manhã estava fresca e ideal para caminhar.
Tomei nota de receitas de doces não convencionais que a minha amiga partilhou. É curioso ela dizer que nesta fase da vida privilegia o fazer, apesar de ter sido docente e ter uma vida intelectualmente muito ativa.
Percebo isso porque nesta altura do caminho a minha cabeça está quase desligada e o corpo ativado.
O albergue em Ponte Vedra é gigante e inclusivo. Tem um grupo de pessoas com deficiência que fazem o caminho em grupo com outras pessoas sem deficiência, todos em bicicleta, sendo umas adaptadas, em modelos extraordinários que eu nunca tinha visto. Tem também famílias, com crianças pequenas, que também ainda não tinha encontrado.

A sexta etapa, entre Ponte Vedra e Caldas dos Reis foi um pouco maior, embora sem dificuldades de registo. Conversámos sobre espiritualidade e religiosidade, sobre a culpa cristã e o espírito de sacrifício que nos aperta, mesmo quando temos consciência dele. Falámos da procura de algo que nos centre na nossa humanidade ligada com os outros e com a natureza, com os nossos lados solares e lunares, ou com as nossas qualidades e defeitos – o bem e o mal, como parte integrante de ser pessoa.
Já em Padrón, seguimos as indicações de duas peregrinas espanholas com quem estivemos à conversa enquanto demolhávamos os pés num tanque de aldeia e ficámos numa hostal sossegada e limpa.
A minha amiga lembrou-se, e bem, de perguntar num dos hotéis das termas (água quente não sulfurosa, muito parecida com a de Chaves) se era possível fazer uma sessão termal não estando alojadas no hotel.
Foi possível. Fomos à vez porque só ela é que tinha trazido bikini e pagámos €12 cada uma por uma retemperadora sessão de meia hora numa piscina com água termal, jacuzi e jactos de água que massajavam todo o corpo.
Foi um luxo acessível que me fez um bem imenso e me deixou retemperada.

-     - O que Levar?
Existe a possibilidade de ter a mochila transportada a um preço variável entre €5 e €7 por etapa. De qualquer maneira, para mim a opção foi por levar uma mochila leve e com os pertences muito bem escolhidos.
Um par de calçado suplente, pouca roupa, leve, de algodão, legings, uma toalha pequena, um páreo, roupa interior com destaque para um número razoável de meias que convém mudar com frequência, bolsa de higiene com embalagens pequenas, onde não pode faltar um creme hidratante com que se massaje várias vezes ao dia os pés e as pernas, um impermeável, cantil e uma lanterna pequena. Um pequeno caderno para notas e uns óculos de sol. Uma fita para prender cabelos desalinhados que não vêm cabeleireiro nem secador.
  


A sétima etapa, entre Caldas dos Reis e Padrón(terra da grande poetisa Rosália de Castro, contemporânea da nossa Florbela Espanca), foi suave e sem dificuldades de maior.
Inevitável pensar naquela frase – tanta casa sem gente e tanta gente sem casa…
Nesta travessia da Galiza percebe-se que foi uma terra onde a vida nem sempre foi fácil, onde muitos imigraram e onde as casas, em regra enormes, aparentam um valor simbólico na luta pelo sucesso. Mais ou menos conseguido. Com investimentos variáveis e marcas do tempo, nem sempre generoso. Algumas casas foram ocupadas pela natureza e davam sinais de desamor e abandono.Outras mostravam o investimento e a estima – O jardim está bonito, sim, mas dá-me tanto trabalho!respondeu-nos uma senhora
Pelo meio da etapa cruzámo-nos com pessoas que fazem pequenos troços do caminho, no contexto de  excursões e depois retomam os autocarros em pontos combinados. Destaco também a conversa com um Finlandês entradote que vinha a fazer o caminho desde Lisboa. Estava a adorar mas tinha saudades da família, em especial dos filhos e dos 4 netos, que queria trazer com ele num próximo caminho.
Almoçamos muito bem uma favada (feijoada) acompanhada por pimentos padron num daqueles sítios à beira da estrada com um restaurante e uma loja vende tudo.
Saímos pela primeira vez sem abastecimento porque era domingo e não encontrámos nada aberto. Ao longo do caminho, quebrei a regra de não ‘chinchar’ e comi figos, medronhos, tomates e maças. Nada me fez mal.
Entretanto, fomos construindo a ideia de fazer uma sopa, inspirada na portuguesa sopa da pedra, com o que o caminho nos dava – castanhas, uns vagens de feijão (uns frescos e outros maduros), um pimento vermelho, uma maçã e umas folhas de couve galega, apanhadas já perto do albergue de Padrón. No albergue, onde encontramos sempre coisas que outros peregrinos deixam, juntámos uma pitada de sal e um pouco de azeite, um bocadinho de gengibre e uma pitada de arroz. Estava uma delícia e encheu a cozinha de um belíssimo aroma. Seguindo o uso dos albergues, partilhamos a sopa com quem quis e estivemos a comer com um brasileiro que estava a fazer o caminho com familiares e amigos.

A oitava e última etapa de Padrón a Santiago foi a mais longa e talvez a menos interessante. 25 km por sítios nem sempre bonitos, com tantas subidas e descidas que se torna saturante. Geri sentimentos ambivalentes com a vontade e a pena de chegar a Santiago. Com mais tempo teria ido a Finisterra e descansaria um dia, mas desta vez não podia ser assim.
Antes das 9h já estávamos na rua prontas a caminhar e deitámo-nos já passavam das 23h, numa hostal em Santiago. Fizemos paragens muito simpáticas em cafés e roulotes ao longo do caminho que serviam de descanso, convívio e abastecimento. Para além do inevitável carimbo na caderneta.
À medida que nos aproximamos de Santiago aumentam os peregrinos, em grupo ou sózinhos e a conversa sobre os Caminhos. As jovens polacasque faziam troços do caminho a rezar em voz alta. O jovem casal russo que tinha uma ideia muito contestária do ponto atual da civilização ocidental. A velha senhora do Canadá que seguia mais devagar mas que tinha vindo desde Lisboa com uma energia que metia qualquer jovem num chinelo.Gente de todo o lado, como é costume e com um espírito de inter-ajuda e de incentivo ao outro.
Chegámos exautas a Santiago por volta das seis da tarde.  A cidade,  que vive dos peregrinos e da industria da fé, está tomada por homens de farda cinzenta, que não permitem entrar em lado nenhum com mochilas, que  estão à entrada da catedral e de outros monumentos e que, de repente, nos fazem sentir desajustadas. Mal vindas. Como se não fizéssemos parte do turismo desejável.
Enfrentámos a fila para receber a Compostela (discutindo com o homem cinzento que governava a fila e cuidava para que as mochilas não entrassem), a minha amiga foi buscar a mochila ao Seminário de Santiago Maior (um hotel bastante luxuoso no centro da cidade) onde não tivemos vaga, tentámos perceber o horário dos comboios de regresso para Portugal, fomos à Catedral - e com isto era 20h, estávamos cansadas e carregadas e não tínhamos onde dormir.
Fomos salvas pelo encontro com a jovem russa que tínhamos conhecido no Freixo. Fizemos uma festa e ela indicou-nos o albergue onde estava, perto da estação – o que era simpático porque eu tinha decidido sair às 5 h da manhã (só saiam 2 comboios com transbordo para Portugal e o mais tardio, não tinha ligação do Porto para Lisboa). A minha amiga ficaria mais um dia em Santiago.
Atravessamos meia cidade para ir comer a um restaurante que lhe tinha recomendado e que, de facto, era muito agradável – espaço cuidado ao estilo rústico com charme, respirando cultura, ponto de encontro de intelectuais e artistas, galegos e portugueses. Só tive pena de estar tão cansada que não tirei todo o partido, mas ainda assim foi um belo e retemperador jantar.
De novo atravessámos meia cidade até ao hostal. Era acolhedor, limpo e simpático. Tomei banho e dormi 4 horas num sono só.


        
Desperta e cansada, apanhei o comboio às 05.15h para Vigo, ainda de noite.
Uma hora de espera em Vigo com um bom pequeno-almoço na estação e entretanto ficou dia. O comboio português parte às 9h e chegou ao Porto as 10,20h, hora portuguesa. O barulho do motor lembrava aquelas motos velhas que se deslocam em esforço. Na carruagem estão mais alguns peregrinos de regresso (reformados que, pela bagagem, fizeram o caminho na versão hotel), dois casais ingleses e um casal australiano. Conversam sobre o caminho, sobre a vida, sobre como gostam de Portugal, salientando a limpeza das terras e o acolhimento dos portugueses.
Vou distraída, dormito e estou pouco atenta à paisagem. Olho para fora de vez em quando e localizo algumas estações. S. Pedro da Torre. Viana do Castelo. Tamel. Midões. Nine. No Porto mudamos de comboio e entram muitos passageiros. Converso com uma jovem italiana que está a viver em Londres e viaja de visita a Portugal, bem documentada. Sai em Coimbra, depois de me ter pedido sugestões para visitar em Lisboa.
Chego às duas da tarde a Sta. Apolónia e atravesso com tranquilidade a cidade em obras até ao Cais do Sodré. Ainda paro no largo do município para beber uma limonada e fumar um cigarro.
Antes do Cais do Sodré sou abordada por uma senhora brasileira que olhou para a mochila com a Vieira de Peregrina e me perguntou se eu vinha do Caminho de Santiago. Acabada de chegar, digo-lhe eu.
- Oi moça, me conta tudo porque eu vou de viagem amanhã para fazer o Caminho de Tui a Santiago, pediu ela. E estive a conversar meia hora, partilhando as minhas experiências de peregrina.
Já no comboio suburbano lembro uma frase que estava grafitada numa parede à chegada a Santiago ‘O melhor do caminho é chegar a casa’.
Fiquei a pensar com sentimentos contraditórios. Parece-me que o tempo voou...


Isabel Passarinho