Mostrar mensagens com a etiqueta Isabel Passarinho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Isabel Passarinho. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Crónica Social - Na rota dos festivais de Verão

Fora de Tempo. Ainda sobre Festivais de Verão…


Embora o Outono se instale, só agora gozo um período de férias. Férias que, cada vez mais, significam um tempo de distância em relação aos ritmos, aos lugares e às pessoas que preenchem o quotidiano de rotinas marcadas pelo trabalho.

Há já vários anos que dou um destino diferente a este tempo. Diferente porque o orçamento disponível não aconselha viagens de lazer. Mas diferente também porque o lazer já não tem o mesmo significado de oposição ao trabalho.Tento agora conciliar vertentes aparentemente inconciliáveis – descanso, resolução de problemas práticos adiados, outros trabalhos e experiências novas que permitam aprendizagens.

Nesta última vertente tenho beneficiado de uma rede de amigos com quem é possível estar/trocar/colaborar. Gente do Movimento de Transição, da tribo da Permacultura, gente que procura modos de vida ambiental e humanamente mais amigáveis. Nas cidades e fora delas surgem pessoas e famílias que se atrevem a construir vidas que não se centram no emprego e tentam emancipar-se do consumo e dos empréstimos bancários. Está em curso um movimento esperançoso de modos de vida alternativos ao mainstream.  

Gente com capital cultural e educativo, de todas as idades e condição, de filosofias diferentes, com posições críticas face ao capitalismo de casino e comprometidos com a urgência de nos tornarmos mais sustentáveis. Conseguem viver com muito menos dinheiro, alguns deixaram os trabalhos ou estão reformados, voltaram à terra e a economias de subsistência, outros mantem actividades artísticas ou de outro tipo com vínculos liberais. Vivem todos com orçamentos muito mais reduzidos e estão ligados em redes, integrando-se com as comunidades locais de acolhimento.

Na minha itinerância fui a Santo André e Lisboa, sempre, com particular destaque para a renovada Mouraria. O período maior fui para a Beira, uma zona lindíssima entre Côja e Avô, entre as Serras do Açor e Estrela. Uma natureza ainda pujante, um património cultural e arquitectónico muito rico e muita gente, nacional e estrangeira a tentar reinventar modos de vida.

Em Agosto participei em dois Festivais que estão também ligados a este Movimento – o Andanças, na Barragem de Póvoas e Meadas em Castelo de Vide e o Bons Sons, na Aldeia Cem Soldos, em Tomar. Existe em Portugal uma razoável oferta, tendo em conta o tamanho do país, de festivais de Verão - arrisco dizer que existem Festivais para todos gostos, bolsos e feitios. Os adolescentes e os jovens adultos são os seus maiores fãs. Mas não são só eles. Também existem frequentadores menos jovens, de todas as idades. Imagino que também as motivações que estão por detrás das escolhas sejam diversas.

Sem enjeitar o valor económico destas iniciativas e uma espécie de efeito Disneylândia com recintos que funcionam como reservas temáticas, mais ou menos tribais, o certo é que vivi em ambientes amigáveis, descontraídos, participativos e com ofertas culturais de grande qualidade. Para mim funcionaram ao jeito de residências artísticas ou melhor dito, foram uma espécie de imersão antropológica em territórios não habituais. Ir a estes Festivais foi garantia de não encontrar pessoas do meu ciclo profissional e até pessoal – até por isso foi refrescante e permitiu conhecer outras formas de entender a vida. Descobrir. Compreender. Aprender.

Admito que, para uma fatia de participantes, o efeito Disney regado a cerveja talvez seja o móbil. Para os mais jovens, imagino que os festivais sejam uma espécie de ritual de iniciação ou de passagem em que experimentam sobreviver fora do controlo parental e do apoio familiar. Ou ensaiam tempos de vida de casal e/ou de grupo. Claramente, uns conseguem melhor que outros. Estes Festivais criam reservas de bom trato, de amizade, de alargamento de horizontes culturais, de possibilidades protegidas de experimentação. São organizados colaborativamente por associações que defendem e praticam valores que me são caros - claramente são contextos de educação não formal.

Brevemente:

§  FESTIVAL ANDANÇAS

Foi a vigésima edição, a terceira no Alentejo, perto de Castelo de Vide; sendo que a maioria dos Festivais anteriores foram em S. Pedro do Sul.

A Associação que promove este Festival é a PédeXumbo, de Évora. Sobre o conceito que está na génese deste Festival, pode ler-se no site:
O Andanças é um festival que promove a música e a dança popular enquanto meios privilegiados de aprendizagem e intercâmbio entre gerações, saberes e culturas. Com um olhar dos dias de hoje, o Andanças propõe-se reavivar hábitos sociais de viver a música retomando a prática do baile popular através de múltiplas abordagens às danças de raiz tradicional, portuguesas e do mundo, com vista à recuperação das tradições musicais e coreográficas, fundindo-as com elementos contemporâneos.´

 

 A Associação PédeXumbo promove desde 1998 a música e a dança tradicional.
Uma equipa profissional dedica-se à recuperação e divulgação destas práticas culturais, através de registos, coproduções, criações artísticas, investigação e através do ensino formal e informal destinado a todas as idades. A PédeXumbo também organiza festivais em todo o país e programa regularmente no seu próprio espaço, em Évora, oficinas, concertos e bailes para vários públicos.

O cartaz dos sete dias (3 a 9 de Agosto) tem uma programação ininterrupta e com propostas múltiplas desde as 10h até às 3 ou 4 da manhã. Espalhado por um recinto natural fantástico, tem um forte compromisso de sustentabilidade ecológica.
Uma das intenções é promover a visão sistémica e de ciclo-de-vida dos processos de produção e consumo, de produtos e serviços, com objetivos idealizados de "zero desperdício", procurando fechar ciclos – à escala local, regional, e nacional –, e contribuir para um consumo e modos de vida mais sustentáveis. (…) a demonstração e partilha de melhores práticas ambientais, sociais e económicas contribui para o desenvolvimento de uma consciência e de uma cultura mais sustentáveis. Até porque muitas vezes nos esquecemos de pensar nas consequências das nossas ações e de procurar ativamente alternativas. No Andanças, a forte adesão dos participantes às práticas adotadas confirma esta aposta.
 

De facto, viver o Andanças é isto. O encontro e a partilha. Dançar, ouvir música, atrever-se a tocar um instrumento, a pintar, a construir qualquer coisa, a participar num coro mandado. Fruir, da paisagem, do ambiente, dos debates, da música que se toca por todo o lado, de estar em comunidade e em paridade. De celebrar a vida.
De resto, é mais fácil viver o espírito deste Festival do que contar como foi.


§  FESTIVAL BONS SONS

Esta sexta edição do festival que se assume ser da música portuguesa decorreu no terceiro fim-de-semana de Agosto, na Aldeia de Cem Soldos, perto de Tomar. É organizado pela associação cultural local SCOCS e pretende ser uma plataforma de divulgação da música portuguesa, quer a consagrada, quer os projectos emergentes.
Mais do que um festival de música portuguesa, o BONS SONS é uma experiência única. A Aldeia de Cem Soldos é fechada e o seu perímetro delimita o recinto que acolhe 8 palcos, cada um dedicado a uma linha programática, perfeitamente integrados nas suas ruas, praças, largos, igreja e outros equipamentos.
Além desta característica, o BONS SONS promove uma relação de proximidade com o seu público, envolvendo a população na realização do Festival. São os habitantes que acolhem e servem os visitantes, numa partilha especial entre quem recebe e quem visita, proporcionando a vivência ímpar de um evento musical. A selecção criteriosa do programa, o recinto único que é Cem Soldos e o envolvimento da população na realização do Festival são marcas que distinguem o BONS SONS da oferta cultural nacional. A par da formação de públicos, o BONS SONS tem como principal meta o desenvolvimento local através da fixação dos mais jovens e da potenciação da economia local.
Quando chegamos e colocamos a pulseira somos convidados a fazer parte da aldeia, a partilhar os seus lugares e a conhecer os seus habitantes e tradições. Durante 4 dias vivem-se os palcos de música, as exposições, as conversas e as variadas actividades que animam ruas e largos.
Hoje, com cerca de 1.000 habitantes, Cem Soldos tem um verdadeiro espírito comunitário e mantém as suas tradições vivas e actuais, registando grande envolvimento nas actividades locais, como é o caso da animada Festa da Juventude em Agosto, a peculiar Festa da Aleluia na Páscoa e a poderosa fogueira de Natal. Em 1192, no reinado de D. Sancho I, já existia registo do lugar de Cem Soldos. Conta-se, numa versão da história, que o nome de Cem Soldos deriva de ter havido nesta povoação um destacamento militar de cerca de cem homens, aos quais, periodicamente, eram enviados “100 soldos” para o pagamento dos seus serviços.
 

O Sport Club Operário de Cem Soldos (SCOCS) é a associação cultural local que, desde 1981, tem por missão promover o bem-estar social, cultural, desportivo e recreativo da população, privilegiando o desenvolvimento mútuo da Associação e da Comunidade nestas vertentes. O SCOCS tem assegurado a criação de uma dinâmica social excepcional, sendo responsável pelo envolvimento comunitário, formação e empreendedorismo de muitos jovens de Cem Soldos, cujo resultado mais mediático é o festival que se tornou nacional: o BONS SONS.
O ambiente é miscenizado entre os habitantes autóctones mais antigos e mais recentes (já é muito difícil encontrar verdadeiros rurais nas nossas aldeias), as tribos artísticas, muitos jovens adultos maioritariamente com pronuncias do centro e do norte, os estrangeiros jovens e menos jovens que vêm pela música, pelos artistas de renome e/ou pelo projecto da Aldeia. O objectivo final deste festival é o de retribuir à aldeia o esforço e o envolvimento, com aplicação das verbas em iniciativas sociais e culturais que beneficiam a sua comunidade.
A par do papel de formação de públicos, o BONS SONS tem como principal meta o desenvolvimento local, através da fixação dos mais jovens e da potenciação da economia local. Assim, faz parte de um plano maior que tem como base a valorização e a capacitação da população local, a criação de postos de trabalho e a promoção do espírito comunitário.


Isabel Passarinho

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Crónica Social - Overreact e o excesso

Aos 20 anos queria mudar o mundo. Queria ser ativista, agir para a mudança a favor de um mundo melhor, humanamente mais justo e menos desigual.

Ao fim de 30 anos de trabalho (em que fui acrescentando a militância social à condição de assalariada técnica) no campo da intervenção social fui reformulando os argumentos para mim própria e tentando encontrar justificação, em consciência, para o meu agir em cada momento histórico e circunstância.

Agora estou mais focada em mudar-me. Convicta de que, na luta com e contra as minhas próprias resistências, cicatrizes e handicaps, vou mudando (menos do que gostaria) e algumas mudanças acontecem, perto e longe de mim.

Continuo a querer mudar e a ser co-protagonista de mudanças. Mas admito, contas feitas, que talvez tenha sido mais adaptativa do que inovadora.

A este percurso que tem sido uma espécie de revolução pessoal on going chamo Vida.


Numa época em que quase todos os spots anunciam we can num alter-ego humano de poder sobre si próprio e sobre o mundo, admitir que ‘não se pode pregar prego nem estopa’ tem um lado terminal. Depurado. Essencial.

Tem também um conjunto de outros lados.

O lado de lidar com muitos excessos - Teorias, informações, sentimentos.

Sentimentos que não sabemos gerir. Estamos ao serviço de quê? O lado da negatividade e da frustração. O lado de pôr em causa mais do que seria necessário. O lado de fecho em explicações redondas. O lado de afogamento em perguntas retóricas que anseiam por explicações - Só queria entender!

São muitos os lados. De entender, de não entender, de entender apenas um bocadinho ou de ir mudando os entendimentos.
Convicções e teorias em excesso. Informações, escolhas, dualidades e paradoxos.

Na minha história tenho episódios e situações de ‘não saber’, de ‘não perceber’, de ‘não poder’, de confronto com a impotência e com a limitação. Às vezes, não quero saber.

Aliás, tenho ideia de que quanto mais próximas as pessoas e as situações mais difícil é focar – lembro-me muitas vezes daquele personagem do Woody Allen no filme Deconstructing Harry que ficava out of focus. Sei o que é este estado.

Tenho também experiência de períodos da vida em que agi como se não houvesse amanhã. Em corridas que, pelo meio, perdiam o sentido ou em que eu me perdia do significado que lhe tinha dado.

A sério e na vida, só temporariamente consegui gerir os excessos. A maior parte das vezes com danos.

E continuo a interrogar-me sobre as formas de respeito para com a ‘região demarcada do outro’. Sobre como se fazem e não fazem, as mudanças – pessoais, organizacionais, na sociedade e no mundo. Nos ecossistemas. Em mim.

Entre as questões mais macro, estruturais, societárias e ambientais e a vida de cada dia, a nossa vida de formigas em carreiros mais ou menos previsíveis, existem muitas ligações.

Alguns sucumbem ao sentimento de pequenez, de falta de poder, de zanga, da anestesia e da propaganda.

Podem passar vidas inteiras em palavras de ordem que não acontecem. Ou pelo contrário, querendo apenas seguir o carreiro.

Outros vão tentando olhar o caminho por onde andam e melhorar ‘a’ e ‘na’ caminhada.

Com os sentidos no movimento, entre a pegada e o cosmos…

Qual a medida do necessário e adequado?


Isabel Passarinho

_________________________________________________________________________________ 
Overreact - Termo que designa reação ou resposta mais forte do que o necessário ou apropriado

terça-feira, 9 de junho de 2015

Crónica Social - O Xico da Tina

O Xico faz hoje anos - 84 anos de uma vida dura de trabalho. Está casado há muitos anos. Nem sabe ao certo. Vive numa aldeia com a Tina, com alguma família e vizinhos por perto mas já com muitas baixas na sua geração. Não têm filhos. Com uma certa mágoa.

- Ninguém tem obrigação de nos ajudar! Diz a Tina. Cada um tem a sua vida e nós aqui estamos até que Deus queira.

O Xico é muito poupado nas palavras.

- Estamos cá de empréstimo, diz em nota filosófica.

Não vivem mal. Têm casas, terras, amealharam, não se renderam ao consumo, não gastam muito e ainda amanham uns bocadinhos de terra perto de casa de onde vão buscar cereais, os legumes, os frescos e algum sentimento de ocupação e utilidade.

Um pouco por todo o nosso pequeno país, sobretudo nos meios mais rurais, é frequente as pessoas serem designadas por uma relação especial. É uma espécie de identidade relacional em que a definição de um se faz a partir de uma relação geradora com outro. Mas o Xico e a Tina estão velhos e pesa-lhes a vida. E a solidão. A velhice é uma chatice!

Por mais que se fale em envelhecimento ativo e que a publicidade utilize cada vez mais senhores e senhoras de cabelos brancos, sorriso jovial e aparentemente sem problemas, desconfio que seja uma fase da vida menos simpática.

Bom, na verdade cada fase da vida tem os seus desafios e provavelmente aquela que estamos a viver é sentida como a mais dura.

Já tenho algumas amigas que contraíram velhice e que se queixam. As perdas (de dentes, de audição, de cabelo, de elasticidade, de frescura, de paciência…) parecem superar os ganhos - de peso, de gravidade, de sabedoria, de dores…

- Já viste a pele das minhas mãos? – Perguntava-me uma delas, à beira dos 60 e visivelmente alarmada.

E a memória? Ou as suas falhas. E o sentimento de aproximação ao fim de linha? E a dificuldade em voltar a acreditar, a ter sonhos, a desejar qualquer coisa ou alguém? E o pânico de ficar dependente, de não ser autónoma? E a perda de relações significativas?

Mas afinal quando é que estamos velhos ou velhas?
Recuso o limiar instituído dos 65 anos. Até porque já não corresponde à idade da reforma, que era o marco da improdutividade a partir do qual já podíamos ser velhos.

Conheço velhos de 20, de 30 anos, de 50, de 70 e de 80 e muitos. São todos diferentes, é verdade. Mas também não caio na esparrela de dizer que a velhice é um estado de espírito. Conheço velhos cheios de medo de morrer. Tristes. Desconfiados. Avarentos. Sós. Amargurados. E outros que não. Algumas pessoas parecem não ter idade.

Ou melhor, poderiam ter qualquer idade porque esse é um dado que não importa muito. Pessoas que não desistem. Que riem e choram. Que tem dias bons e outros nem por isso mas que não se deitam sem agradecer, seja à vida ou a qualquer outro ser ou entidade. Pessoas que continuam a aprender, a desafiar-se, a querer estar melhor consigo e com os outros. Que têm amigos de todas as gerações. Que vão ao baile ou ao museu. Que arriscam compreender outras perspetivas.

O Xico teve recentemente um pequeno AVC que o deixou estranho. Fala ainda menos, já não vai à horta, dá uma volta à casa e senta-se, cansado. O seu território ficou mais estreito e mais doméstico. A televisão ficou mais longe. Olha para ela sem ver, sem ouvir, sem interesse.

A Tina, que é uma mulher de saúde frágil, desmultiplica-se em cuidados e desvelos para ver o seu homem novamente ativo e cheio de afazeres. Teme por ele e por si. Está triste. Sente a vida como um calvário a cumprir, como um problema sem solução. E zanga-se quando lhe apontam algumas possibilidades.

Na sua forma de entender a vida, os cuidados profissionais e as respostas institucionais não são opção. Não para si nem para o seu marido.

O Xico sente a vida gasta e as palavras também. Gostava de ver mais crianças na aldeia. Isso e os campos todos tratados e cheios de árvores de fruto como quando eram novos…

Isabel Passarinho

terça-feira, 12 de maio de 2015

Crónica Social - Isto não é.

Gosto de ser contra corrente e começo por usar o não - Isto não é.

Isto não é uma rubrica sobre fofocas, vidas cor-de-rosa, fama, espetáculos, chefes de claques, partidos, cães com pedigree, crimes e desgraças exploradas, coisas caras, viagens longínquas, invejas, empresários de sucesso, nem tão pouco sobre a vida dos outros.

Mas então que espécie de crónica social poderá ser?

Podemos reinventar o termo social. E acordar por agora que nomeia a interação entre os seres humanos neste bolinha perdida no espaço, a que chamamos Terra.
Que tem que ver com as formas como os homens se organizam para viver em conjunto. E gerir os recursos e os bens comuns. Também tem que ver com trabalhar e produzir e distribuir a riqueza, nas sociedades que inventámos.
Que terá que ver com as formas como nos relacionamos connosco, com os muitos outros e com a Terra.
Só por agora. Só para nos entendermos, podemos considerar assim.

Interação entre os seres humanos?

Isso tanto podem ser as formas de viver com os nossos mais próximos – os que moram connosco ou no nosso coração, os nossos afetos e desafetos, como os outros. Ou nós mesmos na relação que temos connosco. Que será sempre uma relação mediada por outros.
Os outros vizinhos, que saudamos ou não saudamos, os outros colegas ou os outros que partilham filas de desemprego, ou de trânsito, os outros que bebem café no mesmo sítio, os outros que encontramos nas escolas dos filhos, os outros a quem chamamos amigos, os outros que trabalham voluntariamente nos bombeiros, no centro social, na biblioteca, no clube desportivo, na preservação do meio ambiente. Os outros que não têm trabalho. Os outros que nos irritam. Os que são velhos demais. Os que são novos demais.

Os outros que pensam como nós e os que pensam diferente. Os que têm os mesmos gostos. Os que foram educados de forma semelhante. Os que nos conhecem.
Os outros que são do mesmo clube da bola e os que não são. Os outros que são da mesma preferência partidária e os que não são. Os que são da nossa terra e os que não são.
Os que são de cá e os que não são.
E os outros mais distantes. Aqueles a quem atribuímos poderes especiais. Os que mandam.
Os muito ricos que não se conhecem. Os que fazem a guerra. Os que exploram e os que são explorados.
Todos somos gente em interação. Por mais que nunca tenhamos saído da nossa rua.

Por mais que não saibamos onde fica a Albânia ou a Síria ou a Namíbia. Por mais que as histórias que os media nos contam já não nos toquem. Por mais que nem sonhemos o que os media não nos contam.
Por mais que o meu dia-a-dia seja tão duro que me estou a marimbar para as múltiplas frentes de guerra. Ou para as alterações climáticas. Ou para a extinção das espécies. Ou para os transgénicos. Ou para o império das farmacêuticas. Ou para a política. Ou para o desemprego. Ou para o futuro da Europa. Ou para tudo e todos. Até para mim.

Talvez estas crónicas sejam sobre gente. Pessoas. Aqueles seres com a característica singular de serem todos diferentes e semelhantes, habitantes da mesma ‘casa’ e pertencentes a uma mesma raça humana.
Afinal talvez seja uma crónica com gente dentro. Com histórias e perspetivas de vida.

Não sou uma tudóloga (espécimem convencida que sabe de tudo e que emite opinião sobre qualquer assunto), nem me levo muito a sério. Tento não julgar, nem me pautar por moralismos.
Terei sempre uma perspetiva particular. Sem pretensão à verdade. Mas com a minha verdade.

Encontramo-nos por aí…

Isabel Passarinho

Isabel Passarinho passará a trazer-nos de forma regular a sua nova "Crónica Social"! Acompanhem! 

Opina 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Cronicas de uma viagem - Caminho de Santiago (parte X)

Cronica 10 – O dia mais comprido


Dia 11 Santiago – Vigo- Porto – Lisboa

O dia de hoje foi o mais comprido e o mais cansativo de toda a viagem. Levantei-me por volta das 8h de quinta-feira e cheguei a Lisboa um pouco antes das 6 da manhã do dia seguinte, sexta-feira. Mas indo por partes, arrisco três: i) a parte da manhã passada em Santiago, ii) a parte da viagem até Vigo e iii) a parte de Vigo ao Porto e do Porto a Lisboa com a chegada a casa.

Primeira parte – Em Santiago

Tomei um belo pequeno-almoço na esplanada do café ao lado da pensão - adoro tomar um bom pequeno-almoço, num sítio bonito, descansada e sem pressas. Deixei a mochila a guardar na pensão e sai ligeira para dar uma volta pela cidade, ir à missa do peregrino que acontece todos os dias na catedral ao meio dia e tratar das questões práticas do regresso a casa (em que transporte, a que horas e a que preço).

Santiago, agora à luz do dia, é uma cidade bonita, enfeitada com muitas flores e muito bem cuidada. Vive do turismo e faz por merecer o agrado de quem a visita. Coexistem centenas de lojas de ‘recuerdos’ vulgares (caríssimos e mais ou menos industrializados e desinteressantes) com lojas tradicionais de artigos muito bons e outras inovadoras de design artístico (e preços ainda mais proibitivos). Também é percetível um movimento artístico e cultural bem enraizado mas com novas abordagens bem interessantes.

Fig 2: Santiago
Viajar de mochila e com um orçamento muito limitado também resolve o problema das lembranças para a família e amigos – comprei o mínimo, umas fitas de Santiago tipo ‘senhor do bom fim’ para algumas pessoas com quem quero partilhar este acontecimento e umas pulseiras mais elaboradas com símbolos antigos para os mais chegados (em quase nada ainda gastei mais do que gostaria).

Um dos momentos mais bonitos que vivi neste passeio turístico por Santiago foi ficar a ouvir um músico de rua que tocava acordéon. Sentei-me num degrau e fiquei parada a ouvir a sua música nuns momentos que me lavaram a alma. Mais perto do meio-dia aproximei-me da catedral. A praça monumental, estava cheia de gente. Gente de todas as maneiras e feitios. Devoção, turismo, curiosidade…e aqueles grupos patéticos de ‘turistas de pacote’ com as inevitáveis guias de bandeirinha – deprimentes!

Entrei na catedral deviam ser umas 11 e meia e, apesar da escala ser enorme, já estava apinhada. Os confessionários em várias línguas estavam a funcionar em pleno. E as ‘relações públicas’ da igreja viam-se ‘em palpos de aranha’ para arrumar as «ovelhas», algumas acabadas de chegar da peregrinação, ainda com as mochilas. Muita gente estaria pelo pitoresco, pelo ritual, pelo espetáculo, outras pela devoção. Algumas pessoas estavam em meditação, outras com expressão de sofrimento, algumas só cansadas e outras atentas. Uns mais respeitosos do que outros. 

Gente do mundo inteiro reunida na Catedral. Que sei eu? Eu própria tinha razões paradoxais para estar ali.
Gostei particularmente das palavras da freira que iniciou a comunicação com o público e resumiu a «coisa» a uma trilogia que me fez sentido e podia ser unificadora, para além de qualquer catecismo: Fé, Esperança e Amor. Depois começou a cantar com uma voz magnífica e não deixa de ser comovente ouvir um coro de 1000 vozes entoando os cânticos. De resto, o ritual da missa é normal. Saí na parte das hóstias.

Não fiz as rotas turísticas de abraçar o santo, nem fui à tumba agradecer – já o tinha feito no altar da natureza quando senti que era a hora e não me fazia sentido voltar a fazê-lo por uma qualquer obrigação folclórica. Mas gostei de participar naquele momento da missa e, de alguma maneira, marcar o fim do Caminho, agradecendo pela possibilidade de o ter feito.

Segui para procurar comer qualquer coisa e acabei por almoçar num restaurante muito bonito perto da pensão. Ofereci-me uma refeição completa porque também já não me fazia sentido continuar a comer aquelas sandes, com sumos e fruta que tinham constituído as minhas refeições durante o caminho. Fui buscar a mochila e segui em direção à estação de comboios que ficava relativamente perto (entretanto, tinha decidido voltar de comboio porque é o transporte de que gosto mais e ficava a um preço razoável).

Cheguei à estação um pouco antes das 2h da tarde e apanhei um susto porque só vi destinos espanhóis. Será que não havia comboios para Portugal? Fui às informações e lá soube que teria que fazer o circuito Vigo-Porto-Lisboa. Comprei bilhete e esperei pela partida às 16.29h. Os intervalos de espera neste dia foram desesperantes mas estas primeiras duas horas até serviram para descansar. Apesar da sensação um pouco amarga de que tinha acabado a ‘festa’.

Segunda parte – Rewind do Caminho (viagem de comboio entre Santiago e Vigo)

O troço entre Santiago de Compostela e Vigo faz-se com conforto, num comboio do tipo TGV e dura 1h e meia. O trajeto é quase paralelo ao Caminho e deu-me uma estranha sensação de estar a rebobinar a cassete do que tinha vivido naqueles dias. Parecia que tinha entrado num túnel do tempo e que estava em ‘rewind’ a olhar para aqueles locais (a casa que parecia um castelinho, a igreja de Esclavitud, a casa de Rosália de Castro, aquele bosque, os campos de milho, a estação de Padrón…). Foi quase doloroso. Às páginas tantas, deixei de olhar pela janela porque não gostei da sensação e concentrei-me nas recordações ainda frescas que trazia do Caminho. Gostei de o fazer. Gostei de o ter acabado. Gostei de ter gerido bem o esforço e de ter feito as pazes com o meu corpo que se portou tão bem e de quem eu nem sempre cuido como devia. Gostei de ter passado férias sozinha e de ter percebido que sou boa companhia. Gostei de me ter atrevido a fazer algo diferente e que adiava há muito.

Gostei do ambiente acolhedor do Caminho, da gentileza entre os peregrinos e das palavras de ânimo e incentivo que ouvi por todo o lado. Pensei em muita coisa mas nem tudo consigo alinhar agora. Sinto que as ‘ondas de choque’ desta caminhada vão ecoar me mim por muito tempo e que provavelmente daqui para a frente vão haver coisas que ganharão novos sentidos. Embora não tenha a sensação que algumas pessoas descrevem de que ter feito o caminho lhes mudou a vida. É verdade que fiz o Caminho como uma metáfora da vida e acho que fico com a responsabilidade de não esquecer e prolongar «este espírito peregrino» pelo resto dos meus dias, esteja onde estiver. 

A estação de Vigo é feia. Fica numa zona industrial e inóspita. Felizmente está sol. O intervalo entre comboios é de quase duas horas, muito tempo de espera mas pouco tempo para dar um passeio pela cidade, sobretudo quando se tem uma mochila às costas. Leio uma revista que comprei, escrevo umas notas soltas, vou pedir para carregar o telemóvel no café da estação (tem a bateria viciada e descarrega com facilidade, sobretudo depois de o usar para tirar umas fotos) e fico a ver TV enquanto espero. Nestes locais, a televisão ocupa um lugar estupidamente central. 

Lá, como cá, notícias da crise, manifestações de descontentamento, empobrecimento progressivo das populações, cortes nas reformas, dramas pessoais – uma mãe com 6 filhos que se suicidou aparentemente por dificuldades financeiras. Estas notícias fazem disparar ‘o meu botão’ de Assistente Social entalado entre um compromisso com o desenvolvimento das pessoas, uma empatia terapêutica, uma postura de ajuda à realização do potencial de cada um e o lado do compromisso social com um modelo de sociedade mais justa e mais respeitosa dos direitos humanos. Que não pode ser esta sociedade neoliberal e capitalista em que estamos agora.

Revolta ou transição pacífica? Conformidade ou dissidência? Adaptação ou reinvenção? Estas são algumas das dualidades que ainda não consigo ultrapassar.

Terceira parte – De volta a casa (viagem de comboio entre Vigo, Porto e Lisboa)

Fiz esta viagem entre as oito da tarde com saída de Vigo já num velho comboio português, as 21.00, hora a que cheguei à estação de Campanhã (Primeiro ainda pensei dormir a noite no Porto mas fiz contas à vida e achei que era pouco tempo para o dinheiro que iria gastar; por isso decidi seguir viagem até Lisboa), a longa espera de quase 5h em Campanhã e o regresso a Lisboa num comboio velho e tremeliquento.

A viagem de Vigo ao Porto ainda foi simpática. Tinha ao meu lado uma família com crianças que se fartaram de conversar e fazer jogos – de vez em quando não podia deixar de sorrir com a traquinice das meninas. E uma hora passa num instante. Pude apreciar um belo pôr-do-sol e o nascimento de uma enorme lua cheia que coincidiram com a passagem do rio Minho. Depois, de Valença ao Porto passei por terras e terrinhas com nomes inusitados que não conhecia mas já era noite e acabei por desligar da paisagem e ficar a ler a minha revista.

Chegada a Campanhã aguardava-me a pior espera do caminho: cinco longas horas. Fiz de tudo, comi, andei de um lado para o outro, fui à casa de banho, fumei uns cigarritos, li as revistas, fiz palavras cruzadas, olhei as pessoas, ouvi as conversas e …desesperei. Quem me conhece sabe que eu tenho hora de Cinderela, à meia-noite começo a transformar-me numa abóbora – e foi isso que aconteceu, travei uma luta enorme com o sono e isso cansou-me muito.

Fig 3: Ferrovia, Porto
Só o bom vernáculo nortenho que se ouvia por todo o lado (nas conversas dos taxistas parados em frente da estação, na boca de uma rapariga tipo ‘top model de discoteca de alterne para bimbos endinheirados’, na conversa de um senhor de meia-idade que veio largar uma pré adolescente à estação, nas conversas de 3 jovens amigos com ar de estudantes universitários que jogavam com os seus portáteis…) ajudou-me a manter o estado de alerta.

No entanto, entre a uma da manhã e as cinco e meia, que foi o período da viagem até Lisboa, já estava em estado vegetativo. O comboio seguiu com pouca gente mas foram subindo bastantes pessoas pelo caminho, sobretudo homens jovens que aproveitavam os três bancos em linha e sem apoio de braços para se deitarem. Eu não me atrevi. Doíam-me as pernas da imobilidade. Ainda me descalcei durante um período. Dormitei mas em modo alerta. Comecei a achar que não cheirava muito bem (devia ser da roupa porque tomei banho). Tive frio. Finalmente Lisboa. 

Fig 4: Lisboa
A S. tinha insistido em vir-me buscar, se bem que eu lhe tenha dito que não valia a pena, que poderia apanhar um táxi até Sete Rios onde tinha deixado o carro. Na chegada a Sta. Apolónia estava um delicioso cheiro a bolos quentes no ar, apesar de não haver nenhum café aberto. Da S., nem sombra (tinha adormecido e vinha a caminho). E pronto, lá estava eu, sentada nas escadas da estação de Sta. Apolónia com mochila às costas, ar de sem abrigo e meia bêbada de sono. A cidade estava naquela transição entre as criaturas da noite e a alvorada, que trazia novas criaturas para habitar o dia. 

Chegou a minha boleia e fomos comer qualquer coisa quente em Santos e meter a conversa em dia. Mas eu estava exausta e sou fraca contadora de histórias. Preciso de dormir. Preciso de recuperar desta direta. Preciso de processar lentamente esta viagem…

Isabel Passarinho

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Cronicas de uma viagem - Caminho de Santiago (parte IX)

Cronica 9 – O meu caminho e o caminho dos outros

Dia 10 –Padron/Santiago

Manhã fresca. Dormi bem e acordei cheia de energia. Quando fui tomar o pequeno-almoço na sala comum do albergue encontrei o gnomo. Deu-me um sonoro ‘bom dia!’, informou que depois de Santiago seguiria para Finisterra por uma jornada de mais dois ou três dias. Pediu para tirar uma foto comigo. Perguntei-lhe sobre os albergues até Santiago e ele mostrou-se conhecedor e preciso, sugerindo um que ficava a cerca de 4km da cidade e um seminário em Santiago – despediu-se desejando Bom caminõ!

Partilhei o meu pequeno-almoço com as duas jovens de leste (as mesmas que ontem se despediam com muita nostalgia de um belo moço português) – despedi-me delas desejando Bom caminõ! Depois, quando saí, ainda de noite cerrada, outros peregrinos partilharam comigo a luz das lanternas para iluminar o caminho até amanhecer. Quando começou a clarear o dia aceleraram o passo (ou eu desacelerei) e desejaram Bom caminõ!

A primeira paragem foi feita após 6 Km num café em Esclavitud (que raio de nome para uma terra) onde já estavam vários peregrinos. Entrei com a Sílvia, de Madrid, que tinha encontrado um pouco antes e que me disse que estava aflita com bolhas nos pés. Encontrei também as 3 fininhas de leste (afinal eram da Estónia) que comem como ursos e que já estavam no café; vieram pedir para tirar fotos connosco porque queriam ficar com uma recordação. Estive um pouco à conversa com a Sílvia que me disse que não sabia se conseguia chegar a pé a Santiago mas ia voltar para Madrid de avião porque a Ibéria tinha um desconto significativo para peregrinos e bastava apresentar a credencial. Nesta altura ainda não tinha decidido como voltaria para casa e fiquei a pensar na possibilidade de voltar de avião, mas não me preocupei muito, de avião, de autocarro ou de comboio, logo veria. Na saída do café retardei o passo para acompanhar a espanhola até entrar na imponente igreja de Esclavitud. 

[Não tenho ligado muito aos carimbos da caderneta de peregrino e só ali é que percebi que os peregrinos também vão carimbar nas igrejas. Até ali carimbei apenas nos albergues, em alguns cafés de que gostei mais e ontem fui carimbada por uma brigada da proteção civil que encontrei pelo caminho]

Depois de sairmos da igreja deixei-me ficar a acompanhar a Sílvia que andava a muito custo. Mas ela própria me pediu para seguir ao meu passo reforçando o que se diz por aqui, que ‘cada um faz o seu caminho’. Apesar de me fazer sentido é uma postura nova para mim e fico a pensar no meu caminho e no caminho de outros. Tenho ainda aquela coisa entranhada de «ajudar». Mas, bem vistas as coisas, cada um faz mesmo o seu caminho. Embora isso não seja entendido como um ato individualista ou egoísta, é um caminho em interação, só que realmente é de cada um, é a metáfora da vida de cada um – no meu caso não gostaria que alguém traçasse o caminho para mim, abdicasse do seu caminho para fazer o meu (ou me pedisse o inverso) ou me dissesse em que passo o deveria fazer.

Pelo caminho paro muito. Sempre que me sinto cansada e encontro um lugar simpático, paro. Quando me apetece petisco qualquer coisa (normalmente fruta fresca ou seca) ou escrevo. Em algumas paragens descalço-me, tiro as meias, ponho creme nos pés e deixo-os arejar. Depois ponho meias lavadas, volto a calçar-me e aguento mais um troço.[Estes pequenos cuidados, muito creme hidratante e a alternância entre dois pares de calçado têm sido as técnicas usadas para evitar ter bolhas nos pés e até agora tem resultado a 100%]

Fig 2: A caminho de Santiago de Compostela
Quando iniciei esta etapa pensei ficar no albergue que o gnomo me tinha indicado a cerca de 4Km de Santiago e chegar à cidade amanhã, mais fresca e descansada. Mas fui andando, andando e começando a ficar muito cansada, ligo o piloto automático e deixo de raciocinar. Vi algumas indicações de albergues pelo caminho mas como implicavam desvios, não liguei e foi prosseguindo. São 24 Km nesta etapa, num percurso nem sempre fácil e com várias subidas acentuadas, em especial na aproximação à cidade de Santiago.

Passei Milladoiro, a primeira localidade verdadeiramente suburbana que encontrei, sem graça, cinzenta, com os arruamentos em obras, com grandes aglomerados- dormitório, espaços comerciais, um polidesportivo, um grande infantário modernaço (com movimento de saída de crianças a chorar como leitões para a matança, arrastadas por mães gordas e sem paciência  - o eco daqueles choros ficaram-me na cabeça durante muito tempo). Pouco depois desta localidade, avista-se Santiago.

O momento foi partilhado, por acaso (suponho eu) com as fininhas da Estónia que gritaram, bateram palmas e tiraram fotografias. Mas depois do avistamento onde a cidade aparece relativamente perto, o caminho dá voltas e mais voltas num trajeto sinuoso até chegar finalmente ao centro da cidade.

É particularmente difícil a subida para a cidade, por estradas e depois, por ruas que parecem não ter fim. Fiquei com a sensação de que a entrada se faz pelo lado de trás da cidade porque não se vê a catedral, nem o centro histórico. Ao mesmo tempo soma-se o desconforto de entrar numa cidade a meio da tarde, suada, cansada, cheia de pó e, provavelmente, a cheirar mal. Quando perdi as setas amarelas estava numa praça e não sabia que direção tomar. Na dúvida e muito cansada, sentei-me numa esplanada e pedi o de sempre: dois sumos de melocoton e um café solo.

Fig 3: Santiago de Compostela
Aproveitei o descanso para olhar em volta. O café com ar de bistrô francês chama-se Rosália Castro, a escritora venerada por aqui (passei ao lado da sua casa-museu em Padrón). Foquei-me nas pessoas que passavam: bem vestidas, apressadas, muitas com cara fechada e com olhar ausente, como se fossem máquinas. 

Estranhei. Durante o caminho tinha-me habituado a ver a maioria das pessoas de caras abertas que saudavam à passagem, esboçavam sorrisos e desejavam ‘bom caminho’. Quase me esqueci que a vida era assim, cheia de dormências e de defesas para nos entreter o tempo de vida em jogos de ‘papeis’ que não nos fazem felizes. Corridas e aparências para lado nenhum. Na verdade «eu sou mais campo» (como aquela private joke que diz ‘eu sou mais bolos») e preciso de ir procurando alguns sentidos para a vida. Claro que, quando estou do outro lado, ou seja, disfarçada de citadina, também devo ter o mesmo ar ausente e alheado. O tempo ficou enevoado e começou a cair uma chuva miudinha.

Perguntei ao jovem empregado de mesa pela Catedral e pelo Seminário Menor, o albergue de que o gnomo me falara, mas não me fiz entender e ele respondeu qualquer coisa, que eu também não entendi. Quando a chuva parou e eu me senti mais restabelecida pus-me a caminho. Á toa porque não voltei a ver as setas, segui a intuição (ou lá o que seja) e fui dar com o Campus Universitário. É curioso não achar a catedral numa cidade como esta e achar a universidade – dá que pensar. Talvez porque a relação com o conhecimento tem maior peso na minha vida do que a espiritualidade ou talvez por acaso. Sei lá.

Passei num parque urbano com a sensação de que estava a dar uma volta redonda. Perguntei pela catedral a uma senhora e ela deu-me a indicação. Estava perto. Mais uns minutos e avistei-a – imponente. Impossível de passar despercebida. Afinal tinha dado uma volta, por fora, ao centro histórico e não encontrei a tradicional entrada do caminho português, a Porta Faxeira. Agora que estava localizada, era preciso pensar em alojamento. O cansaço não permite grandes buscas e opto por uma pensão que me parece com bom ar numa envolvente simpática (31.00€ pela noite é um preço possível).
Fig 4: Catedral de Santiago
Quase ao pé fica o Instituto profissional de S. Clemente, numas instalações conventuais recuperadas e pelos jovens que circulam nas imediações, deduzo que deve ser uma escola profissional de segunda oportunidade para jovens com percursos mais difíceis. Penso no meu filho G. e na sua relação desastrada (ou desastrosa) com a educação e nas coincidências do que me surge no caminho – tenho a certeza de que, apesar do traçado do Caminho Português ser só um, o caminho tem desafios diferentes consoante as pessoas e cada peregrino fará as suas próprias associações e interpretações.

Depois de um bom banho e muito creme, deitei-me e adormeci. Acordei pelas cinco horas da tarde e obriguei-me a ir à rua (se tivesse feito a vontade ao corpo teria ficado a dormir). Começava a ficar escuro e chuviscava. As ruas do centro histórico estavam repletas de gente e muito animadas. Atuações musicais, esplanadas cheias, gente de todo o mundo nesta cidade que é património da humanidade e que faz por merecer a distinção, está cuidada, investida, preparada para receber os visitantes. Fui à majestosa praça da catedral, entrei na catedral e sai num registo de instantâneo fotográfico. Não ia com uma intenção precisa, estava apenas a dar uma volta de reconhecimento porque já não me lembrava da cidade e … encontrei o gnomo. Perguntou-me se estava sozinha e se queria ir tomar algo com ele. Concordei e fomos andando por aquelas ruas e conversando.

O gnomo é um expert (diz que faz o caminho à 12 anos, que não liga à igreja e que é sobretudo para treinar as pernas, para gerir o stress e para conhecer pessoas de todo o mundo) e aconselhou-me logo a ir aos Serviços do Peregrino (habitualmente com filas de várias horas) carimbar o passaporte e buscar a ‘Compostela’ – uma espécie de certificado da viagem. Aproveitei o guia e lá fui carimbar o Passaporte (é recomendado que seja carimbado em todas as paragens do caminho) e receber a Compostela -passada apenas aos peregrinos que tenham feito pelo menos 100 km a andar ou 200 Km de bicicleta ou a cavalo.

Depois escolhemos uma esplanada numa artéria animada ao lado de um teatro e pedimos 2 copos de vinho para fazer uma saúde – ele escolheu um Rioja muito agradável e nada caro (pagámos apenas €2,00 cada um por um copo de balão bem fornecido). Brindámos ao caminho e à vida, com o inevitável desejo de saúde para nós e para «os nossos».

O gnomo gosta de falar: é um homem rústico, vive numa vila de montanha lá para os lados de Alicante, numa terra cujo nome não fixei, que tem 2000 habitantes e onde toda a gente se conhece. Planta a sua horta e, pelo que percebi, está reformado. Vai prosseguir o caminho até Finisterra e de lá vai a Vigo ver um jogo de futebol – conta que uma das estrelas da equipa é um jovem seu conterrâneo que lhe ofereceu o bilhete para o jogo e que faz muito gosto, sobretudo porque gosta do rapaz e enaltece-lhe as qualidades de não ficar envaidecido com o sucesso e ajudar a família.

Este foi um dos encontros improváveis que o caminho proporciona - não gosto de fazer perguntas sobre a vida dos outros nem de falar de mim, por isso depois de trocarmos umas generalidades, a conversa esgotou-se. Começou a chover com maior intensidade e despedimo-nos com votos sinceros de continuação de bom caminho. Cada um seguiu em direções opostas.

São 21h. Estou no quarto de uma simpática pensão em Santiago de Compostela e antes de dormir penso nesta aventura e no quanto ter feito o caminho me iluminou as ideias? Ou as deixou mais claras? Ou ajudou a tomar decisões? O que é que eu ganhei com esta viagem? Hoje está claro que o meu projeto, qualquer que ele seja, tem de ter raízes em contexto rural e que os velhos e os deficientes estão no meu caminho… mas isto eu já sabia. Pronto, não vou tirar mais ilações… Estou cheia de sono.

Isabel Passarinho

(continua...)

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Cronicas de uma viagem - Caminho de Santiago (parte VIII)

Cronica 8 – Agradecer

Dia 9 – Caldas dos Reis/Padron

Ontem temi a chuva mas a madrugada estava bonita e até aqui foi uma festa para os sentidos, caminhar por bosques, ao lado de rios de leitos suaves, com vegetação tenra e frondosa, a ver a luz da alvorada nos prados numa sucessão de pequenos lugares: Lavandeira, Rego dos Fornos, Santa Marina de Carracedo, Gorgillon, Casalderrique. Já fiz uns bons quilómetros. São 9h em Portugal e 10h em Espanha. 

Parei um pouco retirada do Caminho para fazer uma necessidade fisiológica e na volta, aproveitei para fumar um cigarro e escrever um pouco. Depois passei para a estrada nacional e perdi-me das setas, mais uma vez. Quando achei que já era caminho a mais em estrada, entrei num café e a senhora deu-me indicações para voltar ao caminho que passava quase ao lado. [Se me lembrar das vezes em que me perdi associo sempre a estes malditos troços de estrada nacional. Circular a pé por esta estrada faz parecer que os carros viajam em teletransporte dando uma noção de velocidade completamente diferente da que se tem ao volante de um carro].

Confiro o restante itinerário do caminho que passa duas serras altas e três rios (Bermana, Valga e Vila): Casal de Eirigo, Pino, San Miguel de Valga, Fontelo, Condile, Infesta, Herbon, Pontecesures e Padron. Acabei de descer uma das serras, passando sempre por dentro de bosques frondosos e cheios de sombra, com árvores seculares - o percurso era tão intensamente belo que me comoveu e senti-me verdadeiramente agradecida: à vida que me permite ter esta experiência, ao planeta, aos homens que ainda não estragaram tudo, aos romanos que fizeram esta estrada e a todos os que têm preservado este caminho. Agradeci também a todos que tenho encontrado, peregrinos e habitantes locais, pelo ânimo, pelo incentivo e pelo espírito positivo que me permitiu confiar na minha capacidade de fazer o caminho.

Este sentimento de gratidão é algo que eu aprendi a reconhecer e que se manifesta sobretudo na contemplação de espaços naturais. Não é nada religioso, pensado ou planeado. É apenas um sentimento que se instala e me faz agradecer. Cheguei ao albergue por volta das 13h espanholas. Está muito bem equipado e fica num edifico antigo, recuperado a preceito e situado ao lado de uma Igreja imponente (Igreja del Carmen) e de um convento.

Fig 2: Padron
Fiz as rotinas do costume e fui dar uma volta pela vila – outra terra bonita, com um troço de rio reto que a atravessa e uma zona histórica bem preservada. A minha intenção era compensar-me do esforço da caminhada comendo um Kebab com batatas fritas numa esplanada que tinha visto ao chegar, mas o estabelecimento estava fechado e só reabria às 18h. Fui passear sem grande vontade. Muito comércio estava fechado pelo horário de sesta mas também se notavam os sinais da crise, como por cá. Sem disposição, passei por um supermercado para abastecimento. 

Regressei ao albergue e comi sozinha, uma tortilha e fruta. Depois voltei a sair. Também não me apetece dormir.
Arrasto-me de sítio para sítio, do sol para a sombra, da sombra para o sol mas não estou bem em lugar nenhum. Estou inquieta. Desde ontem à noite que tenho a cabeça cheia de aborrecimentos pessoais, que chegaram pelo telefone. Deixei para trás alguns problemas familiares e outros, coloquei-os entre aspas na esperança de que encontre formas novas de lidar com eles ou que deixem de me importar.

Quando eram 6 e tal da tarde rumei ao kebab mas em terra de marisco foi uma opção menor. Soube-me bem, estava bom, ainda conversei com o gnomo que passou na esplanada mas quando cheguei ao albergue, o cheiro que vinha da cozinha era muito tentador: dois portugueses jovens fizeram arroz de marisco e as 3 mulheres magríssimas de leste tinham um verdadeiro banquete, com uma cataplana de mariscos, uma salada e muitas frutas. É nestas alturas que eu lamento ser «bicho-do-mato» e ganhar peso com facilidade. A primeira característica impediu-me de meter conversa com os conterrâneos e partilhar o jantar deles e a segunda fez-me olhar com uma certa inveja para aquelas 3 almas de leste estão sempre a comer e são escandalosamente magras. Não me parece nada justo!

Fui assistir à missa na tal igreja monumental que ficava ao lado do albergue. Meio por acaso. Estava a apreciar a vista fantástica do átrio frontal quando percebi que a porta estava aberta. Entrei, apreciei a igreja e acabei por ficar na missa. Estavam poucas pessoas e algumas eram peregrinas. O padre era velhote e eu não percebia tudo o que ele dizia. Aproveitei o ambiente e pensei em mim, na vida e nos outros que me povoam os afetos. Acabou por ser um momento de meditação e paz interior que me soube muito bem.  Na saída, olho para o cruzeiro ao pé do albergue com uma virgem e um menino (as cruzes dos cruzeiros no Caminho estão cheias de figuras de pedra) e penso na maternidade, essa condição simultaneamente fabulosa e ‘incurável’ que nos faz passar pelas maiores alegrias e também por dores muito profundas…e penso também em como seria bom se existissem milagres. Vou dormir.
Fig 3: Albergue de Padrón
Antes de adormecer ainda ouço algumas despedidas entre peregrinos mais jovens que se conheceram no Caminho. E sinto a nostalgia de estar quase a terminar – amanhã será a última etapa. Mas não me sinto capaz de balanços.

Isabel Passarinho

(continua...)